Mais amor, por favor

No outro dia, fui levar os miúdos a casa dos avós, para uma semana de férias, e estabeleci como regra que podiam levar o tablet e a PlayStation, mas só podiam usá-los uma hora por dia cada um.

Ela levou um livro e tudo bem, beijinho apertado à despedida. Ele resistiu, argumentou, revoltou-se e ficou tão zangado perante a minha (pouco comum) inflexibilidade que não se despediu.

Saí de nó na garganta. Mas não voltei atrás. Não lhe dei oportunidade de se redimir logo ali (como faço, quase sempre). Entrei no carro, arranquei para o trabalho e no caminho só pensava: «não posso ter um acidente. Se me acontecer alguma coisa, ele vai ficar para sempre com sentimento de culpa» (sim, sofro daquilo a que se chama overthinking – pensar de mais em português – e este é o grau a que chega, socorro).

Ao fim do dia, o meu filho ligou-me. «Desculpa», disse ele. «Foi a avó que te mandou ligar?», perguntei eu? «Não, mãe. Mal tu saíste, fiquei triste. Fiquei o dia todo a pensar nisso. Fui mesmo estúpido.» «Está tudo bem, filho», disse eu. «Já passou. Amo-te muito».

No silêncio dele, senti o abraço que, maior do que eu, me dá, quando se despede, como se coubesse ainda no meu colo. E resisti a dizer-lhe que nunca devemos despedir-nos zangados de quem amamos. Acho que ele percebeu sozinho.

Lembrei-me deste episódio ao editar a reportagem que hoje publicamos sobre alienação parental e ler os testemunhos de um homem e uma mulher afastados dos filhos pelos respetivos ex e que tiveram que lutar, têm que lutar, para não os perderem (e ficarem perdidos deles) para sempre. Não tem nada que ver, mas tem tudo. Por que é que deixamos tantas vezes a zanga e a raiva e o ressentimento sobrepor-se ao amor?

Uma separação nunca é fácil, sobretudo quando há filhos. Eles vão sofrer, mas o sofrimento faz parte da vida. Trata-se de ajudá-los a lidar com isso da forma mais saudável possível e de ir criando uma nova realidade, em que pai e mãe estão presentes, ainda que de outra forma. Eles adaptam-se depressa. Só depende dos adultos, do seu bom senso e do amor que sentem (não o que dizem sentir) de facto pelos seus filhos.

Não vivo numa bolha, sei que há pais que maltratam, abusam, abandonam, matam até, mas não é desses que estamos a falar, pois não? O lugar desses é na prisão.

O que pergunto é: qual é o lugar de um pai ou uma mãe que, por orgulho ferido, raiva, ciúme, ressabiamento, o que for, não sei, põe em causa o bem-estar psicológico do seu filho, compromete o seu futuro e a sua saúde mental, lhe causa um sofrimento atroz, usando-o como arma de arremesso, moeda de troca, troféu, peão num jogo de manipulação e chantagem emocional? Não sei. Inclino-me para uma consulta de mediação familiar compulsiva de onde não saíssem sem as pazes feitas.

Mais amor, por favor. Em nome do superior interesse das crianças que, calha, são filhos.