«Mais do que uma doença que mata, o AVC é uma doença que provoca dependência»

Hoje assinala-se o Dia Mundial do Acidente Vascular Cerebral. Esta doença afeta cerca de 30 mil pessoas, por ano, em Portugal e é uma das principais causas de morte no país. Mas mais do que matar, um AVC muda-nos a vida. A nossa e a de quem nos rodeia. Guilherme Gama, médico de medicina interna do Hospital de São João, fala-nos de como é possível falar em prevenção e da importância do apoio da família na recuperação.

Texto de Ana Patrícia Cardoso

Para quem não sabe ao certo, o que acontece num Acidente Vascular Cerebral?
Um AVC acontece quando as artérias no nosso cérebro entopem ou rebentam. Quando a artéria rebenta ou sangra, temos um AVC hemorrágico. Quando entope, por vários motivos, temos um AVC isquémico. Simplificando, podemos descrever assim.

Doenças como a diabetes ou hipertensão aumentam o risco de AVC?
Habitualmente, um AVC é causado por uma doença anterior, é importante perceber isso. Falando de uma artéria que entope, pode ter sido provocado pelo colesterol alto, por diabetes ou por fumar em demasia. Causa um aperto na artéria e esse aperto vai progredindo até entupir e o AVC acontece. Pode ser um coágulo. Por arritmia cardíaca, por exemplo. Acontece no coração e sobe até ao cérebro.

Ficamos hipertensos cada vez mais cedo, diabéticos também. O colesterol alto é um problema cada vez maior. E há um precipitante fulcral nesta questão, estamos a fumar cada vez mais.

Existe a ideia de que só acontece às pessoas mais velhas. Mas não é assim, pois não?
Eu trabalho na Unidade de AVC do Hospital de São João e, das nove camas disponíveis, é frequente termos pacientes abaixo dos sessenta anos. Os fatores de risco que causam o acidente vascular começam relativamente cedo. Ficamos hipertensos cada vez mais cedo, diabéticos também. O colesterol alto é um problema cada vez maior. E há um precipitante fulcral nesta questão: estamos a fumar cada vez mais.

Estamos a fumar cada vez mais? Os indicadores dizem o contrário.
Falo da população entre os 40 e os 50 anos e, neste intervalo, ainda não notámos esse decréscimo em relação ao tabaco. Tem a ver, entre outras coisas, com o aumento dos níveis de stress, que em si mesmo não é uma causa para o AVC, mas pode levar a comportamentos de risco. Se vivo stressado, vou fumar mais cigarros, beber mais, comer pior, ter uma vida menos saudável no geral.

Mais do que uma doença que mata, o AVC é uma doença que provoca dependência.

Ou seja, devemos ter alguns cuidados preventivos, ainda que possa acontecer a qualquer pessoa?
Sim, sem dúvida. É preciso falar dos grandes fatores de risco associados. Falo do açúcar que causa a diabetes, da hipertensão, do tabagismo, do consumo de álcool excessivo e em Portugal este é um problema bem visível: o colesterol, a dieta, o exercício físico. Pode parecer que estamos sempre a dizer o mesmo, mas é realmente importante olharmos para os nossos hábitos diários a sério. No hospital, já lidamos com pacientes que tiveram o primeiro AVC e o que fazemos é uma prevenção secundária, ou seja, vamos tratar para que não aconteça o segundo.

Lida com pacientes que querem reconstruir a sua vida depois de um AVC, mas esse é um processo difícil, não é?
É muito complicado. Mais do que uma doença que mata, o AVC é uma doença que provoca dependência. É uma situação muito difícil, com custos associados por vezes incomportáveis. Custa muito dinheiro suprir todas as necessidades criadas por doentes dependentes. Estamos a falar de uma doença que é muito comum no nosso país, é realmente um problema. A maior parte dos doentes não morrem, ficam dependentes.

Ficam dependentes durante o período de recuperação?
Sim. Conseguem recuperar, mas muitas vezes é uma recuperação parcial. E uma percentagem significativa dos pacientes não volta ao que era antes. É importante perceber a retaguarda que o doente tem, ou seja, a família, os apoios. Esta será a grande chave na recuperação.

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