Nada poderá absolver os brasileiros que votarem em Bolsonaro

Em 1961, o psicólogo Stanley Milgram da Universidade de Yale, EUA, pôs um grupo de voluntários a fazer perguntas a um homem ligado a cabos elétricos, a quem deveriam dar um choque por cada resposta errada. Conclusão: não só 65 por cento aplicaram cargas de 450 volts no sujeito, como alguns continuaram a dá-las quando ele já não respondia, o que pressupunha que tinha desmaiado ou morrido. Nenhum dos voluntários foi à sala ver se estava bem. Nenhum quis conhecer, sequer, o objetivo da experiência.

Quando li o artigo da jornalista Ana Pago sobre maldade na edição de 21 de outubro da DN LIFE [o artigo ainda não está online], foi neste parágrafo que me detive. A raiva a invadir-me. Capaz de choques elétricos aos «voluntários» da experiência. Até perceber que isso significaria ficar igual a eles. Embora eles, nenhuma motivação. Só, provavelmente, a falta de noção do outro, que para eles não tinha existência. Empatia 0 – Maldade 1.

Não pude evitar pensar no que está a acontecer no Brasil, onde um homem absolutamente vazio e medíocre, que destrata quem quer que o questione, que classifica negros, mulheres, indígenas, pobres e todos os não heterossexuais como lixo, que advoga a tortura, a violência e a eliminação física dos «vermelhos» e de quem lhe faça frente como legítimas, está prestes a ser o próximo presidente da República. Pior, democraticamente eleito.

Não é Jair Bolsonaro que me impressiona, apesar de nas últimas semanas, ter visto compulsivamente vídeos que circulam nas redes sociais, de entrevistas que deu e intervenções que fez. Jaires Bolsonaros há muitos.

O que me impressiona, apesar de saber do que é capaz o ser humano – a história e o mundo vão-se encarregando de não nos deixar esquecer -, é que milhões e milhões de pessoas de um país que há 33 anos conseguiu libertar-se de uma ditadura terrível queiram lá voltar. Votem nele.

O que se passa com as pessoas? Entre os eleitores de Bolsonaro estão necessariamente muitos daqueles que para ele e para os seus correligionários não existem, que para ele e para os seus correligionários não deviam existir, que para ele e para os seus correligionários podem morrer. Pior, que, com ele no poder, correm o risco de ser mortos.

E não há corrupção, degradação do sistema político, descrédito dos partidos ou seja lá o que for, que justifique ver num homem que defende o que Bolsonaro defende uma alternativa. Tenho ideia que nem Hitler, em 1933, deixou tão claro ao que ia, foi tão longe na clarificação dos seus objetivos. Portanto, os brasileiros de 2018, ao contrário dos alemães dos anos 1930, não poderão alegar depois que não sabiam. Nada poderá absolvê-los.

O que se passa com as pessoas? Não sei. Mas deviam ouvir o que diz uma monja budista brasileira que entrevistei há tempos, a Monja Coen: «Somos corresponsáveis pela realidade em que vivemos. Não é culpar o outro ou o passado ou o futuro. O que dizemos e fazemos e pensamos mexe na trama da nossa existência, que é a existência de todos. Se tivermos essa consciência, não faremos o mal, não destruiremos, pelo contrário, construiremos o bem comum. Nosso tempo de vida é tão curto – 100 anos, no máximo – e o que você faz com isso?»