Somos todos pessoas más? A ciência diz que sim

Alimenta notícias, entra-nos pela casa dentro. Por mais que gostássemos de pensar na maldade como coisa de filme, a ciência garante que ela habita em nós e pode vir à tona se se reunirem os fatores que estimulam a expressão desse nosso lado mais negro. Seremos todos pessoas más?

Texto de Ana Pago | Fotografias da Shutterstock

7 de janeiro de 2011: um funcionário do Intercontinental Hotel de Times Square, Nova Iorque, entra por acaso no quarto dos portugueses Carlos Castro, cronista de social, e Renato Seabra, aspirante a modelo de 21 anos. O cenário é terrível: o homem mais velho está morto, nu, caído numa poça do seu próprio sangue, de rosto desfigurado e genitais mutilados.

14 de agosto de 2013 em Chelas, Lisboa: ao saber que a ex-mulher tinha um novo namorado, Mário Silva pegou numa faca de cozinha e atacou Mara com 19 golpes de uma violência brutal, após o que lhe cortou o pescoço e fugiu. A mulher morta na rua não lhe fez mossa na alma, mas a nós sim. O mal assusta.

14 de julho de 2016: Mohamed Lahouaiej-Bouhlel, soldado do estado islâmico de dupla nacionalidade francesa e tunisina, dirigiu um camião de 19 toneladas com semirreboque contra um mar de gente que celebrava o Dia da Bastilha no Passeio dos Ingleses em Nice, França. Matou 86 pessoas e feriu 206, até ser parado a tiros pela polícia.

Casos como o de Renato Seabra ou o do camionista que abalroou um mar de gente em Nice têm isto em comum: foram atos de maldade.

Em dezembro do mesmo ano, na Alemanha, um novo camião abalroou a multidão às compras num mercado de Natal na Praça Breitscheid, em Berlim, fazendo 12 mortos e 48 feridos. O que têm estes casos em comum, além da morte cruel e gratuita de inúmeros inocentes? Todos foram atos de maldade.

«Esta é provavelmente a característica humana menos conhecida e a que mais intriga as diversas comunidades científicas», admite o jornalista Hernâni Carvalho, doutorado em psicologia forense com uma pós-graduação em neuropsicologia (sabe bem do que fala, portanto).

Diferente da violência, embora recorra muitas vezes a ela, a maldade inclui em si o prazer da observação e participação no sofrimento e morte dos outros, sejam homens ou animais.

Não é à toa que os cientistas acreditam que o mal existe em todos nós – no caráter, na personalidade. Depois pode é vir à tona, ou não, diante de situações ou ambientes que estimulem a expressão desse lado mais negro.

O mal é um traço da natureza humana observado até em pessoas consideradas boas e decentes.

«É um traço da natureza humana observado até em pessoas consideradas boas e decentes. A maldade é-nos intrínseca», sublinha Hernâni Carvalho, apoiado numa experiência clássica que deu que falar em todo o mundo: em 1961, o psicólogo Stanley Milgram da Universidade de Yale, EUA, pôs um grupo de voluntários a fazer perguntas a um homem ligado a cabos elétricos, a quem deveriam dar um choque por cada resposta errada.

Conclusão: não só 65 por cento aplicaram cargas de 450 volts no sujeito, como alguns continuaram a dá-las quando ele já não respondia, o que pressupunha que tinha desmaiado ou morrido. Nenhum dos voluntários foi à sala ver se estava bem. Nenhum quis conhecer, sequer, o objetivo da experiência.

Virtualmente, cada indivíduo encerra em si o potencial para a bondade e a maldade, explica o neurologista Ricardo de Oliveira-Souza.

Segundo Ricardo de Oliveira-Souza, um dos neurologistas brasileiros que mais estudam a morfologia do cérebro psicopata, os resultados pouco animadores devem-se ao facto de só cinco por cento da população em geral ter uma moral irrepreensível – contra a maioria das pessoas normais que vão oscilando entre atos egoístas (antissociais) e altruístas.

«Virtualmente, cada indivíduo encerra em si o potencial para a bondade e a maldade, que se manifestam em diferentes proporções dependendo da índole (em grande parte hereditária), do ambiente em que é criado e das circunstâncias e contexto, variáveis de momento a momento», diz o neurocientista, para quem a capacidade de refletir sobre os efeitos do mal que fazemos é um atributo tipicamente humano.

A maioria de nós tem na cabeça uma espécie de detetor que difunde julgamentos morais a tempo inteiro.

A verdade é que a maioria de nós tem na cabeça uma espécie de detetor que difunde julgamentos morais a tempo inteiro, o que se às vezes não nos impede de cedermos ao nosso lado obscuro, faz com que essa seja a exceção, não a regra.

«Em contraste, cerca de três por cento da população são indivíduos cuja personalidade se caracteriza por comportamentos antissociais desde a infância ou adolescência, a maior parte dos quais tem o diagnóstico formal de sociopatia», explica Oliveira-Souza.

Destes, apenas uma parcela de cerca de um por cento da população mundial recebe o diagnóstico adicional de psicopatia, que além de antissocial não sente remorsos, vergonha, culpa do que faz ou compaixão pelo sofrimento dos outros.

CLARO QUE NEM TODOS OS PSICOPATAS MATAM.

Tal como nem todos os que matam são psicopatas, ressalva o médico psiquiatra Vítor Cotovio, esclarecendo que a nossa personalidade é uma combinação de caráter (a matriz mais genética que predispõe para o mal ou o bem) com o temperamento (resultante do processo de desenvolvimento sociocultural).

«Podemos todos ser maldosos porque, em termos evolutivos, o ser humano apenas conseguiria sobreviver tendo o espetro emocional completo que lhe permite identificar uma ameaça para então fugir, paralisar ou atacar, usando mesmo alguma perversidade para se defender», adianta.

O que difere de pessoa para pessoa – muito em função da interação entre caráter e temperamento – é o modo como interpreta aquilo que justifica, ou não, fazer mal ao outro.

Para o psiquiatra Vítor Cotovio, o cocktail explosivo que é a maldade nasce de vários fatores conjugados.

Óbvio que nem só a genética, as condições sociais, lesões cerebrais, lares desfeitos, perturbações de personalidade, abusos na infância, consumo de drogas, maus-tratos físicos e psicológicos ou rejeição familiar determinam estes atos antissociais: para Vítor Cotovio, o cocktail explosivo faz-se de vários fatores conjugados.

A partir do momento em que há pessoas mais más do que outras, a questão que se coloca é: onde está o filtro? É que entre roubar uma peça de fruta no supermercado ou alvejar alguém vai uma grande distância.

«Através das regras socioculturais e da educação, criamos um juiz interno que nos diz “isso está mal, é mau, não faças”», explica o psiquiatra. Se o superego estiver bem formado, vai filtrar. Se não filtrar, fará ao menos com que a pessoa se arrependa ou tenha sentimentos de culpa.

No extremo da maldade, está justamente a que é praticada sem consciência crítica. Sem este sentido de remorso que os psicopatas são incapazes de sentir, apesar de saberem que estão a maltratar alguém – ao contrário de psicóticos em surto, alucinados ou delirantes, que não podem ser responsabilizados pelos seus atos.

O que nos leva à famosa Escala da Maldade de Michael Stone, uma medida que o psiquiatra forense desenvolveu após anos a investigar os meandros do mal. Com isso catalogou homicidas e psicopatas em 22 níveis diferentes consoante o método, motivação e selvajaria – desde pessoas normais que matam em legítima defesa, até psicopatas assassinos torturadores em série, diabólicos ao máximo.

«Quanto mais calculista e maligno for o homicídio, mais tendemos a associar a maldade ao ato», frisa Hernâni Carvalho.

Por cá, as premissas de Stone ajudaram Hernâni Carvalho a conceber o seu próprio Índice da Maldade com os criminosos que horrorizaram os portugueses: Renato Seabra, Rei Ghob, Manuel Palito, o Monstro de Beja, o Estripador de Lisboa.

«Quanto mais calculista e maligno for o homicídio, ou quanto maior a intensidade do sofrimento imposto à vítima, mais tendemos a associar a maldade ao ato», observa o jornalista especializado em atualidade criminal, apresentador do programa Linha Aberta na SIC.

Intelectuais como Jean-Jacques Rousseau afirmam que somos bons por natureza e somos depois corrompidos pela desigualdade social. Outros, como Thomas Hobbes ou Freud, contrapõem que o homem é egoísta, agressivo, vil, pelo que só com leis consegue viver em sociedade. A única certeza, todos estão de acordo neste ponto, é a de que sangue a jorrar de corpos maltratados faz disparar audiências onde quer que seja.

E PORQUÊ ESTA ATRAÇÃO, AFINAL?

«Uma das razões tem a ver com a necessidade de explicar o que é bizarro e sai fora do comum: mesmo achando aquilo horroroso, queremos saber o que se passou», explica o psiquiatra Vítor Cotovio. Já para não falar do efeito catártico face ao medo que temos de não controlar o nosso lado mais negro.

«A maioria de nós sente que há algo de errado consigo e receia-o. Então, a primeira coisa que interioriza ao ver um crime hediondo é que pode ser má, mas não tão má assim», acrescenta o filósofo Emídio Carvalho. Como se fôssemos melhores mães porque até batemos nos filhos, mas não os matamos. Ou menos ladrões por só roubarmos canetas no escritório, não as reformas de idosos depois de os espancarmos.

«Se assumíssemos que há dias em que nos apetece fazer as nossas maldades, haveria menos gente com depressões», garante o filósofo Emídio Carvalho.

O problema, segundo ele, é relativizarmos apenas o que nos interessa (a velha história de que quando eu minto é uma mentirinha, quando os outros mentem são aldrabões): «Se assumíssemos que há dias em que nos apetece fazer as nossas maldades, aceitar essa parte sombria de nós em vez de renegá-la, haveria menos gente com depressões», adianta Emídio Carvalho, considerando que somos sempre as nossas primeiras vítimas.

A raiva pode ser uma emoção muito nobre que diz «chega, estás a fazer asneira, muda de rumo». E o que fazemos nós quando a sentimos? Ou a engolimos e sofremos, a somatizar as dores no corpo, ou agredimos para que sejam os outros a mudar. «Vivemos num mundo em que não sabemos lidar com as emoções», diz.

«As crianças até podem ter a noção de consequência, porque recebem castigos quando fazem mal, sem contudo perceberem que o que fizeram é errado»

E tudo isto a começar nas crianças, tão capazes do mal como os adultos por não terem ainda o superego estruturado – virá com a educação – ou, já agora, o córtex pré-frontal (a zona do cérebro que avalia repercussões, alternativas e riscos, em formação até aos 20 e poucos anos).

«No início elas até podem ter a noção de consequência, porque receberam castigos, sem contudo perceberem que o que fizeram é errado», explica Vítor Cotovio. Com o tempo, a criança assimila que se outra lhe ficar com o brinquedo ela não tem de lhe tirar o olho com um lápis, mas esse processo educacional demora. «É por fases. Estamos sempre a aprender.» Especialmente que a maldade pulsa entre nós.

Acerca dos animais, e se eles também podem ser maus como nós, os cientistas respondem que partilhamos 99 por cento da sequência genética com chimpanzés e bonobos, o que indica haver um antepassado comum. Comportamentos como estes que lhe mostramos na fotogaleria não são pura coincidência.

OS ESPECIALISTAS CONSULTADOS

RICARDO DE OLIVEIRA-SOUZA
Neurologista e neuropsiquiatra natural do Rio de Janeiro, Brasil, é formado em medicina e estuda psicopatia há 30 anos. É investigador do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR) e da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Trabalha desde 2004 com o psicólogo canadiano Robert Hare, da Universidade da Columbia Britânica, considerado o maior especialista mundial em psicopatia.

VÍTOR COTOVIO
Médico psiquiatra e psicoterapeuta, é diretor clínico do Hospital Psiquiátrico (Casa de Saúde do Telhal) e responsável do Departamento Clínico do Instituto S. João de Deus. Membro do Conselho Nacional de Saúde Mental, fez parte da comissão nacional técnico-científica para a reestruturação dos Serviços de Saúde Mental em Portugal. Formador e conferencista, aborda temas ligados aos comportamentos e emoções.

HERNÂNI CARVALHO
Formado em psicologia forense, é jornalista especializado em atualidade criminal. Integrou a equipa do Histórias da Noite (RTP) e assinou crónicas policiais em programas da TVI e SIC, onde apresentou Nas Ruas e ainda apresenta o Linha Aberta. Autor d’O Índice da Maldade (Guerra & Paz, 2017), Terroristas (Matéria-Prima, 2016), Morrer em Times Square (Guerra & Paz, 2011), Justiça e Delinquência (Fronteira do Caos, 2009) e Maddie 129 (Prime Books, 2007).

VÍTOR RODRIGUES
Psicoterapeuta e psicólogo clínico doutorado pela Universidade de Lisboa, recorre à Psicologia da Consciência com uso de terapia regressiva, meditação e outras. A trabalhar mais recentemente o seu próprio modelo psicoterapêutico, Awakening Transpersonal Psychotherapy. Autor de 12 livros e diversos artigos científicos, conduz cursos e workshops em Portugal e no estrangeiro.

EMÍDIO CARVALHO
Formador e terapeuta de educação emocional, com vários cursos de crescimento pessoal tirados nos EUA (modelos de Debbie Ford, Byron Katie, Jean Monbourquette e outros). Trabalha segundo o princípio de que não é sua função alterar o sistema de crenças de ninguém, apenas questionar e mostrar pelo exemplo. Um filósofo que reflete bastante sobre a maldade (contra si mesmo e os outros) numa ótica transformadora.