Mandar os miúdos pela janela não é opção!

Fechados em casa com os filhos, muitos pais estão já à beira de um (ou vários) ataques de nervos! Conciliar o teletrabalho com a escola em casa, as compras e as tarefas domésticas, está a revelar-se um desafio muito mais exigente do que alguma vez poderíamos imaginar. Especialmente desafiante quando existe mais do que uma criança, com idades diferentes e que requerem, necessariamente, cuidados diferenciados.

Olhamos para trás e pensamos que, ainda há cerca de um mês, fazíamos planos e calendários todos bonitinhos, com horários para isto e para aquilo, tudo muito organizado e planificado. Acho que há um mês, quando estávamos numa fase inicial, pensávamos que teríamos as competências de super-pais e de super-mães, sempre sorridentes e bem-dispostos, quais polvos a fazer trinta mil tarefas ao mesmo tempo.

Pois é. Não existem super-pais nem super-mães. Existem adultos que têm, naturalmente, as suas dificuldades e limitações. Têm dias em que são inundados de energia e fazem bolos, ginástica e um sem número de outras actividades. Existem ainda os dias em que só lhes apetece gritar e fugir (nem que seja para a casa-de-banho… mas até aí os miúdos os descobrem!) e outros em que ficar escondido debaixo dos lençóis parece mesmo ser a melhor opção…

Penso que os pais e as mães que se identificam com esta situação precisam ouvir, de uma forma clara e inequívoca, que têm o direito de não conseguir acumular tarefas. A esquecer-se de coisas, a perder a paciência e a pensar, por vezes, que atirar os miúdos pela janela poderia ser a melhor opção. Quem é que nunca teve pensamentos desta natureza?

São apenas pensamentos, espontâneos e muito rápidos, que imediatamente desaparecem. Não significa que se deseje tal coisa ou que alguma vez venha a fazer-se algo sequer parecido. Por isso, se alguma vez teve este tipo de pensamentos, não se martirize nem auto-flagele. É resultado do stress acumulado e um sinal de alerta de que precisa fazer alguma coisa.

Precisa relaxar. Pensar em si. Mimar-se. Tirar algum tempo para fazer algo que lhe dê prazer e satisfação. E pedir ajuda especializada, se for necessário. Que é como quem diz, encher o depósito de energia e afectos positivos que sejam depois partilhados com os filhos. Porque também estes andam mais irritados, ansiosos e irrequietos. Correm, saltam e gritam e parece que nada os esgota… e ainda bem, pois é sinal de que estão saudáveis. Crianças paradas são crianças doentes. Do corpo ou do coração.

Reveja os horários e os objectivos irrealistas que definiu e diminua o nível de exigência, para consigo e para com as crianças. Adeque as expectativas à fase que atravessamos e aceite com tranquilidade que é normal sentir emoções agradáveis e desagradáveis e não andar sempre feliz. Temos o direito a estar tristes e a sentir medo. E zanga. E todas as emoções do mundo. Apenas temos depois de as saber gerir e controlar para que não tomem conta de nós e assumam proporções desajustadas.

Para ajudar pais e filhos, de uma forma descontraída e com muito humor, escrevi o Manual de Primeiros Socorros para Pais e Filhos, desafiando as famílias a construir as suas caixas de primeiros socorros com objectos caseiros para lidar com diversas problemáticas, com as birras, os medos, os pesadelos ou a tristeza. Os pais vão também encontrar alguns exercícios práticos para preservarem a sua saúde mental. Espero que se divirtam com este desafio!

Hoje é também lançado o meu canal de Youtube, onde estes e muitos outros temas são abordados com vídeos curtos e descontraídos dirigidos a crianças e jovens, famílias e profissionais. Espero por todos!