Maria do Céu Santo «Até há pouco tempo, muitas mulheres nem sabiam onde era o clitóris»

Não para. Ginecologista e obstetra, com pós-graduações em medicina sexual e anti-envelhecimento, escreve livros, faz palestras, é convidada assídua de programas de televisão e divide-se entre o Hospital de Santa Maria, o Hospital da Luz e os vários consultórios. Anda sempre a correr, mas onde está, está, o resto à volta desaparece. Foi assim que esteve nesta conversa, em que falou de tudo. Principalmente de sexo. Sem tabus. Porque é bom e faz bem e nós todos deveríamos fazê-lo mais e melhor. Não me olhes com esse tom de voz, escrito em parceria com Judite de Sousa, é o seu último livro, a ser lançado no dia 28 de setembro.
Entrevista de Catarina Pires | Fotografias de Gonçalo Villaverde/Global Imagens

É ginecologista e obstetra há mais de 30 anos. Mudou muita coisa nestas décadas?
Imenso. As próprias pacientes mudaram. Estão muito mais informadas. Muitas vezes chegam ao consultório já depois de muita pesquisa no Dr. Google. Nós, os médicos, parece que somos quase uma segunda opinião (ri). Mas um maior acesso à informação nem sempre significa mais conhecimento. Há muita informação falsa e cada vez menos capacidade crítica para distinguir o que é credível e o que não é. Outra diferença é que há muito maior abertura para a área da medicina sexual.

Essa é a maior (r)evolução?
Sim. Desde o aparecimento do viagra começou a haver mais preocupação também com a sexualidade feminina, porque não se pode aumentar a sexualidade masculina e não abordar a feminina. Não conseguimos ainda chegar a um viagra para as mulheres, mas isto levou a maior investigação nessa área. Há também a liberdade sexual que as mulheres foram adquirindo desde a década de sessenta do século passado. E há outra coisa interessante, atualmente os homens começam a ir à consulta de ginecologia sozinhos para perceberem melhor a parceira: saber como aumentar-lhes a líbido e como melhorar o relacionamento sexual. Há cada vez mais casais na consulta de medicina sexual.

Isso é mesmo uma evolução, se pensarmos que até há poucas décadas, havia mulheres que viviam a vida toda, casadas, com uma vida sexual ativa, sem saber o que era um orgasmo. Algumas achariam até que isso era o normal.
Sim. Muitas mulheres, e até diferenciadas, que nem sequer sabiam onde era o clitóris. Os meios de comunicação social levaram à evolução das mentalidades e, nos anos oitenta, algumas telenovelas brasileiras contribuíram para uma abordagem da sexualidade com menos tabus e despertaram as mulheres para a sua sexualidade e prazer.

«Só há um orgasmo, mas o que sabemos é que, se for por estimulação direta do clitóris, é mais intenso e mais rápido. O orgasmo só através do coito e sem contacto com o clitóris é difícil.»

Agora, só lhes falta descobrir o mítico ponto G?
Não sabemos se existe. Há vários trabalhos de investigação nesta área que são contraditórios. Sabemos que o clitóris não é só aquela «bolinha» que se vê, tem uns braços que envolvem o introito (entrada) vaginal e também existem terminações nervosas que vão para a parede anterior da vagina, que parecem corresponder ao dito ponto G.

Portanto, a história do orgasmo clitoriano não é um mito?
Só há um orgasmo, mas o que sabemos é que, se for por estimulação direta do clitóris, é mais intenso e mais rápido. Na relação sexual com penetração tem de haver estimulação direta ou indireta do clitóris para chegar ao orgasmo. O orgasmo só através do coito e sem contacto com o clitóris é difícil.

«A maioria das descobertas na área da sexualidade são, de facto, ao nível do planeamento familiar para as mulheres e do prazer para os homens, mas estamos em fase de mudança.»

É curioso que continue por inventar o viagra feminino e a pílula feminina já tenha quase 60 anos, sobretudo se pensarmos que o viagra masculino já soma duas décadas pelo menos, mas a pílula masculina continua em investigação.
Tem razão. A maioria das descobertas na área da sexualidade são, de facto, ao nível do planeamento familiar para as mulheres e do prazer para os homens, mas estamos em fase de mudança.

Isso tem que ver com uma maior complexidade do prazer feminino ou com algum machismo na área da investigação?
A sexualidade feminina é mais complexa. O cérebro é o nosso maior órgão sexual, tanto para os homens como para as mulheres. Os medicamentos tipo viagra que são vasodilatadores, melhoram a disfunção erétil: fazendo uma vasodilatação ao nível do pénis, conseguindo aumentar a ereção, logo, a performance sexual masculina. Nas mulheres este mecanismo não funciona. Há alguns antidepressivos e também terapêuticas hormonais que têm tido algum efeito no aumento da libido ou desejo, mas não ainda o que desejamos. Estamos em fase de aperfeiçoamento porque só agora é que temos mais conhecimento das várias vertentes da sexualidade feminina.

«No consultório, quando a queixa tem que ver com diminuição do desejo, o diagnóstico que faço, na maioria dos casos, é disfunção de vida. Ninguém pode deitar-se todos os dias à meia-noite, levantar-se às seis, passar o dia todo a trabalhar e pensar em sexo quando chega à cama.»

O que leva à tão falada crise do desejo?
O principal fator é a disfunção de vida que se traduz em falta de tempo, cansaço e rotina. Claro que não podemos ignorar que há doenças que podem provocar disfunções sexuais femininas e masculinas e que as alterações hormonais ao longo da vida de um homem e de uma mulher levam também a mudanças na forma como se vive a sexualidade. Muitas vezes iniciam-se os preliminares, ou seja, o jogo erótico como atualmente costumamos referir, e o desejo só surge após a excitação. Se tivermos esta noção a vida sexual fica mais satisfatória e menos problemática. A reter: o desejo pode surgir só após a excitação. As mulheres funcionam por vários mecanismos. No consultório, quando a queixa tem que ver com diminuição do desejo, o diagnóstico que faço, na maioria dos casos, é disfunção de vida. Ninguém pode deitar-se todos os dias à meia-noite ou à uma da manhã e levantar-se às seis e passar o dia todo a trabalhar e ainda ter a casa e os filhos e pensar em fazer amor porque sexo é energia.

A ideia de que os homens têm mais desejo do que as mulheres não está já ultrapassada?
Sim, mas não completamente, porque, como a testosterona, que é a hormona do desejo, é mais elevada nos homens, estes têm mais desejo, em geral. As mulheres ovulam uma vez por mês, os homens produzem esperma todos os dias. Não podemos esquecer que algumas terapêuticas, como os antidepressivos e as próprias pílulas anovulatórias (além da sobrecarga de trabalho, entre família e profissão, que continua a ser maior para as mulheres) também podem contribuir para diminuírem o desejo feminino. Nós somos como os animais e na fase da ovulação é que nos apetece mais fazer amor, é na fase em que engravidamos. Quando tomamos pílulas contracetivas as hormonas ficam mais niveladas, sem grandes picos. O que acontece quando estamos apaixonadas, e mesmo que se tomem pílulas, é que há outros mecanismos que promovem o desejo.

«A relação é uma sociedade a dois, se um abrir falência, o outro também fica mal, eu tenho de me preocupar em fazer o meu parceiro feliz. E vice-versa.»

Mas se a paixão, como diz, tem um prazo de validade, como se resolve a coisa?
A paixão dura em média de seis meses a dois anos se for correspondida e depois vira amor ou pesadelo. O amor constrói-se. Amor e desejo não são a mesma coisa. Muitas vezes deseja-se intensamente o que não se tem e quando se consegue, o desejo diminui. É preciso não esquecer de continuar a investir sempre na relação – seduzindo e tentando evitar a rotina.

As pessoas esquecem-se muito disso?
Sim. Muitas vezes, as pacientes chegam ao consultório e queixam-se do marido e eu pergunto: então, e o marido está feliz? A reação é logo: mas porque é que me está a perguntar isso? Uma grande percentagem nem sabe. A questão é que – e isto vale tanto para homens como para as mulheres -, quando o outro está feliz, geralmente dá retorno. A relação é uma sociedade a dois, se um abrir falência, o outro também fica mal, eu tenho de me preocupar em fazer o meu parceiro feliz. E vice-versa. Claro que não se deve fazer o que viola, mas as pessoas vão evoluindo e mudando e a sexualidade tem uma componente importante que é de descoberta.

É importante que se fale sobre o que se gosta ou não se gosta? Não tira espontaneidade?
Isso tem muito que ver com a forma como se diz ou se faz perceber. Deve-se usar a teoria de Pavlov com a pessoa com quem se está. Se ele ou ela tem uma atitude de que gosto, tenho de dar a perceber que foi ótimo e certamente o parceiro irá repetir. Quando não gostamos, não reagimos ou damos a entender subtilmente que não é por ali. Isto vale tanto para as mulheres como para os homens.

«A masturbação é uma forma de se conhecer e descobrir as zonas erógenas. No entanto é um dos tabus ainda para as mulheres: admitir que se masturbam.»

Que tabus persistem ainda hoje relativamente à sexualidade?
A masturbação é o principal. Muitas mulheres têm dificuldade em abordar este tema. Hoje já é uma prática corrente, mas continua a ser mais frequente nos homens. É uma maneira de descoberta do corpo. Muitas mulheres têm dificuldade em chegar ao orgasmo com o parceiro, mas masturbando-se conseguem, o que prova que não têm qualquer disfunção sexual mas sim inibição ou erro na estimulação. A masturbação é uma forma de se conhecer e descobrir as zonas erógenas. No entanto é um dos tabus ainda para as mulheres: admitir que se masturbam.

Elegeu a sexualidade como uma das suas áreas de estudo e de intervenção. Porquê?
Porque percebi que havia uma falha nesta área. A sexualidade era apenas tratada pelos psiquiatras e psicólogos, mas é essencial excluir se há lesão orgânica, ou seja, doença física. Verifiquei que havia mulheres que não conseguiam fazer a penetração ou mesmo introduzir um tampão e não era por problema psíquico mas sim porque tinham uma mal formação vaginal ou mais frequentemente, um septo no hímen, de fácil resolução, o que impossibilitava a relação. Os ginecologistas não tinham formação nesta área. Sou atualmente a coordenadora do Núcleo de Medicina Sexual da Sociedade Portuguesa de Ginecologia e tenho a competência em Sexologia Clínica pela Ordem dos Médicos. Ainda este ano, em junho, fizemos uma formação em Medicina Sexual, no Congresso Nacional de Ginecologia, que estava cheio, não havia uma vaga, o que quer dizer que os ginecologistas estão interessados nesta área. A Medicina Sexual ainda não faz parte da formação dos ginecologistas.

«Somos ensinados a seduzir, mas ninguém é ensinado a fazer amor. E a informação sobre algumas técnicas ajudam as pessoas a ter outra qualidade de vida e uma sexualidade mais satisfatória.»

E é tão importante porquê?
Os problemas sexuais podem ser, direta ou indiretamente, uma das principais causas de insatisfação e de divórcio e são uma das principais queixas das doentes quando vêm à consulta, em todas as faixas etárias: adolescentes que dizem que têm dor, falta de lubrificação ou dificuldade de chegar ao orgasmo. Mulheres em idade fértil com diminuição da líbido. Mulheres em menopausa, que, além da diminuição da líbido, referem dor, diminuição da excitação e dificuldade no orgasmo. Somos ensinados a seduzir, mas ninguém é ensinado a fazer amor. E a informação sobre algumas técnicas ajudam as pessoas a ter outra qualidade de vida e uma sexualidade mais satisfatória.

Tem sido muito importante na questão da divulgação e da transmissão de conhecimentos sobre esta matéria, assim como no desfazer de tabus tanto através dos livros que escreve como dos programas de televisão. Como encarou essa exposição?
No início, não foi fácil, sobretudo tendo conta a área que é: medicina sexual. É um equilíbrio difícil de fazer. Eu sou médica e há uma barreira para além da qual não posso ir, sob pena de cair na vulgaridade, mas, se for muito técnica, as pessoas não percebem. Portanto, tive que encontrar o meio da ponte: passar informação relevante e tecnicamente correta de forma simples para ajudar as pessoas a ter qualidade de vida.

Tem conseguido.
Tenho-me esforçado. E o feedback tem sido positivo, mesmo das pacientes e das pessoas que vou encontrando, o que me dá muita satisfação.

Sim, a rotina e as crianças são o maior teste à estabilidade do casal. É fundamental tirar um dia ou um fim de semana, deixar as crianças com os avós ou com amigos, e namorar.

Hoje nascem quase metade dos bebés que nasciam nos anos oitenta, quando começou a sua prática clínica.
Mas eu acho que isso está a mudar, costumo classificar a relação das pessoas em três grupos (a frase é minha, por isso pode usar à vontade): primeiro grupo – AC e DC, Antes do Casamento e Depois do Casamento – antes, as pessoas fazem amor em qualquer lugar e até no carro e depois até o travão de mão estorva; segundo grupo – AC e DC, antes das crianças e depois das crianças, porque choram, é preciso dar banho, mudar fraldas, pôr a chucha, noites em branco, e o casal fica para segundo plano; e o terceiro grupo, que responde à sua questão, porque é o atual, AC e DC, Antes do Costa e Depois do Costa, porque acreditam que a crise acabou e muitas estão a ter o terceiro filho e os nascimentos estão a aumentar outra vez.

Fotografia de Getty Images

Tem ideia de quantos bebés já trouxe ao mundo?
Não sei precisar, não anotei, mas são muitos. O nascimento é um acto de felicidade não só para os pais e família mas também para o obstetra. É o contrário de doença que é negativo.

De cada vez que isso acontece é uma emoção?
É sempre uma emoção, claro, mas é diferente com aquelas que já conheço e que acompanho ao longo da vida. Tenho uma história engraçada, que foi há uns anos, em agosto. Tinha acabado de chegar ao Algarve com o meu marido, fomos aos anos de um amigo e quando estava a entrar em casa (temos casa lá), seriam umas duas da manhã, tocou o telemóvel e era uma doente daquelas que tinha sido difícil engravidar e uma gravidez complicada. Tinha rompido a bolsa de águas, olhei para o meu marido e disse: quero ir para Lisboa. E ele: às duas da manhã? E eu: sim. Porque eu tinha investido tanto naquela gravidez. E viemos diretos. E quando chegámos, o casal ficou tão feliz que até o meu marido, que vinha cansado de conduzir aquela hora, se sentiu compensado.

«Quando as coisas nos dão prazer, queremos sempre voltar lá, mas com a sexualidade feminina, a verdade é que muitas vezes temos “preguicite” de começar. Eu costumo dizer muitas vezes às mulheres que só custa começar, comece, que depois vai ver que é óptimo.»

Não é fácil ser marido de uma médica apaixonada pelo trabalho?
Não. Mas é mais difícil se a tiver conhecido tardiamente, já especialista, porque se for namorado da faculdade, que é o caso do meu marido, fez o crescimento em conjunto e percebe algumas situações que são mais complicadas em termos familiares, principalmente quando há filhos, como sair da cama durante a noite para fazer um parto ou ter fins de semana de urgência. É mais fácil quando os dois elementos do casal «crescem» juntos.

As crianças são um abanão na vida romântica e sexual do casal.
Sim, a rotina e as crianças são o maior teste à estabilidade do casal. É fundamental tirar um dia ou um fim de semana, deixar as crianças com os avós ou com amigos, e namorar. Quando temos filhos, passamos a ser pais e mães, mas tem de haver tempo para o casal, não pode ser a última prioridade se sobrar algum tempo. A sexualidade não pode ser deixada sempre para o fim do dia quando já não temos força nem para puxar o lençol. Porque, na verdade, o melhor que podemos dar aos filhos é manter os pais equilibrados e que não andem sempre em discussão e uma boa vida sexual é essencial para isso. Ora, as mulheres, sobretudo após serem mães, são quem resiste mais a fazer amor. É das poucas coisas em que o reflexo pavloviano não funciona. Quando as coisas nos dão prazer, queremos sempre voltar lá, mas com a sexualidade feminina não, pode ser fantástico, mas temos «preguicite» de começar. Eu costumo dizer muitas vezes às mulheres que só custa começar, comece, que depois vai ver que é óptimo.

Esse seu conselho é controverso: dizer às mulheres para terem sexo mesmo quando não lhes apetece. Não seria mais importante perceber porque é que não lhes apetece?
A maioria das vezes a diminuição do desejo é por rotina e disfunção de vida. No geral, hoje, como já referi, na maioria das relações de longa duração, o desejo está diminuído. Nas mulheres, sobretudo, o desejo pode só surgir após a excitação, ou seja, só depois de começarem é que ficam com vontade. Como muitas vezes a pessoa não tem o desejo inicial, nem sequer deixa chegar à excitação, porque está cansada e não tem disponibilidade. Enquanto namora é a prioridade, depois passa para segundo ou terceiro plano. Tem que se combater isso.

«Santa Maria, para mim, não é só um local de trabalho, é um lugar de afetos. Somos poucos, trabalhamos muito, mas temos bom ambiente de trabalho. Chego lá de manhã e sou feliz.»

É esse o segredo para um casamento de décadas, com dois filhos e vidas muito exigentes do ponto de vista profissional, tanto a sua como a do seu marido?
Comecei a namorar com o meu marido aos 18 anos e temos partilhado a vida, sem nos bloquearmos, mas ajudando no percurso de cada um. O meu marido tem-me ajudado imenso. É muito crítico em relação aos trabalhos que faço, lê, partilha, dá opinião. Ele próprio tem feito uma trajetória cheia de desafios: é engenheiro civil, foi Secretário de Estado da Justiça e Bastonário da Ordem dos Engenheiros. Os dois filhos já estão crescidos, um em Nova Iorque e o outro na Cidade do México. De vez em quando, vamos visitá-los e fazemos workshops, como eu digo, para nos atualizarmos no que respeita às novas tecnologias e aos desafios das novas gerações. Obrigam-nos a uma atualização permanente.

Como foi quando eram miúdos?
Tivemos um apoio muito importante dos meus pais, da minha avó e da São, a empregada que tem sido também um apoio fulcral. Penso que, como o sonho da minha mãe era ser médica, ela apoiou-me ainda mais. Quando estive a fazer estágios em Barcelona, Bélgica e depois em Paris, os meus filhos ficaram cá com os meus pais e o meu marido.

Está em Santa Maria desde os 18 anos. Como é a vida num hospital daquela dimensão?
Santa Maria, para mim, não é só um local de trabalho, é um lugar de afetos. Somos poucos, trabalhamos muito, mas temos bom ambiente de trabalho. Chego lá de manhã e sou feliz.

Maria do Céu Santo
Maria do Céu Santo está no Hospital de Santa Maria, em Lisboa, desde os 18 anos. Hoje divide-se entre este, o Hospital da Luz e o consultório privado.

Trabalha também no Hospital da Luz e tem consultório em várias clínicas. A sua vida é uma correria?
A questão é gerir o tempo e estabelecer prioridades. Sou muito ativa, mas tranquila, controlo bem o stress, nunca tomei antidepressivos, até ver, e não sou uma pessoa ansiosa de base, mas tenho padrões de urgência e funciono por itens. Por exemplo, tenho o consultório cheio e de repente uma grávida entra em trabalho de parto, não posso protelar o parto e não ando a correr do consultório para o hospital, ou estou num sítio ou estou noutro. Tenho uma enorme capacidade de me focar, estou sempre no sítio onde estou, se estou aqui, agora, apaga-se o resto à volta, como dizer que nasci mindfulness. O que acontece é que, por vezes, tenho de desmarcar o consultório em cima da hora. Às vezes é complicado, mas não ando a correr de um lado para o outro. Funciono por prioridades.

E nunca desliga o telemóvel?
Não. Agora até tenho um iWatch e isto melhorou-me a qualidade de vida porque toca aqui [aponta para o pulso] e mesmo que esteja de luvas e não possa atender, vejo logo quem é e ligo de volta assim que posso. Claro que no bloco operatório não tenho relógio.

«Tenho a noção de que a vida é limitada, a única certeza que temos é a da morte, por isso há que viver o melhor possível. A função do médico é adiar o inevitável, com boa qualidade de vida.»

Medicina porquê?
Desde miúda que ouvia a minha mãe a dizer que o sonho dela era ter sido médica e isso pode ter tido influência. Inicialmente, queria seguir Psiquiatria, porque gostava muito de análise e da parte comportamental, mas, no primeiro ano, fui fazer voluntariado durante as férias para um hospital psiquiátrico e percebi que não era a especialidade que queria. Escolhi Ginecologia e Obstetrícia, depois de fazer os estágios, porque nesta especialidade o que não tratava medicamente podia tratar cirurgicamente – é uma especialidade médico-cirúrgica. Além disso, a obstetrícia é também medicina interna e o nascimento é sempre uma alegria, é sinal de vida e não de doença ou de morte.

É uma otimista. Como lida com o lado difícil do seu trabalho: a doença, a morte, as situações em que as coisas correm pior?
Tento sempre relativizar e ver a luz ao fundo do túnel. Procuro sempre alguma coisa de positivo. Tenho a noção de que a vida é limitada, a única certeza que temos é a da morte, por isso há que viver o melhor possível. A função do médico é adiar o inevitável, com boa qualidade de vida.

Como tem sido, para si, confrontar as expectativas da vida com a sua carreira?
A minha carreira tem superado as minhas expectativas e as pessoas envelhecem quando deixam de ter sonhos e sonhos podemos ter em qualquer fase da vida. O meu marido está sempre a dizer que eu não paro, porque estou sempre a inventar projetos novos e novas atividades para fazer. É verdade. Gosto da adrenalina dos novos projetos e de desafios