Marian Rojas Estapé: “Não há nada que cure e proteja tanto quanto o amor. E isto é medicina, não é pseudociência”

A psiquiatra espanhola Marian Rojas Estapé estará em Portugal para promover o seu livro "Como Fazer para Acontecerem Coisas Boas".

“Compreenda o seu cérebro, gira as suas emoções, melhore a sua vida”. À primeira vista, o subtítulo do livro Como Fazer Para Acontecerem Coisas Boas [ed. Planeta], da psiquiatra espanhola Marian Rojas Estapé, pode parecer apenas mais um chavão típico de um livro de autoajuda. Mas não é. É mesmo isso que este livro nos ajuda a fazer, se o lermos com atenção. Psicoterapia para ter à mesa-de-cabeceira. Entrevistámos a autora, que estará para a semana em Portugal a promover o seu livro, para perceber como as emoções e os pensamentos influenciam a saúde física e mental e para descobrir o que fazer para acontecerem coisas boas.

Entrevista de Catarina Pires | Fotografia de Asís G. Ayerbe

Como Fazer Para Acontecerem Coisas Boas, da psiquatra espanhola Marian Rojas Estapé, foi lançado no início de janeiro, com a chancela da editorial Planeta [p.v.p. 17,75 euros]
Hoje vivemos uma espécie de ditadura da felicidade. Temos pouca paciência para pessoas tristes, como se dependesse apenas de cada um estar bem. O sofrimento não faz parte da vida?

Não conheço ninguém que não sofra algum tipo de dor na sua vida. Em maior ou menor grau, todos os seres humanos travam uma batalha na vida. A dor é uma escola de força. Quando a aceitamos de maneira “saudável”, ganhamos um domínio interior importante e fundamental para a vida. Isso tem um valor humano e espiritual, enriquece a inteligência, leva-nos a a perceber o significado da nossa vida, das nossas convicções mais profundas e ajuda-nos a aceitar nossas próprias limitações. Após um período de sofrimento, uma pessoa aproxima-se da alma dos outros e aprende a ser feliz.

E a felicidade é o quê, afinal? E como se mantém?

A felicidade não se define, experimenta-se. Trata-se de encontrar um equilíbrio entre o que se deseja alcançar e o que se vai alcançando. Uma ideia importante é que a felicidade não é o que lhe acontece, mas a forma como interpreta o que lhe acontece. Depende do seu olhar perante a realidade. Consiste em relacionar-se de maneira saudável e equilibrada com o presente, superando as feridas do passado e olhando para o futuro com esperança. Não pode ter demasiadas expectativas se quiser ser feliz porque, na realidade, a vida tem uma componente de dor e sofrimento inegável e é a nossa atitude que faz a diferença e determina se somos pessoas felizes ou infelizes.

A solidão (involuntária) mata, sentir-se sozinho mata. A solidão tem um efeito na saúde equivalente ao do tabaco.

Apresenta o amor como o antídoto do sofrimento. É o que basta?

O que marca a vida é o amor pelos outros, não apenas o amor romântico, de casal. É a coisa mais importante nesta vida e o único antídoto para o sofrimento. É a resposta para tudo. Não há nada na história que cure e proteja tanto quanto o amor. Existe um estudo muito importante de Harvard que mostra que o parâmetro que mais condiciona as pessoas a envelhecerem saudáveis e felizes é o amor.

A solidão (involuntária) mata, sentir-se sozinho mata, dizem os estudos, e a solidão tem um efeito na saúde equivalente ao do tabaco. É uma pena que tenhamos que dar uma base científica às coisas mais óbvias para que as pessoas acreditem nelas. Mas sim, é preciso voltar ao amor. E isto é medicina, não é pseudociência. O que acontece é que vivemos numa sociedade em que deitamos fora o que está estragado, em vez de o consertar. Também o amor. A esse respeito, teríamos muito a aprender com os nossos pais e avós.

Segundo a Universidade de Harvard, 60 a 80% das doenças que sofremos têm uma relação direta com emoções tóxicas.

Uma das questões que mais me interessaram no seu livro é como o stress – o cortisol – e as emoções afetam a saúde. Podemos considerar a depressão uma doença inflamatória do cérebro? E como é que a má gestão das emoções pode afetar a saúde física e ser mesmo um fator de risco para o desenvolvimento de cancro?

Muitos dos distúrbios que afetam a sociedade do século XXI estão relacionados com a forma como encaramos o ambiente que nos rodeia, as pessoas à nossa volta e as dificuldades que se nos colocam. Os estados de alerta e stress permanentes fazem-nos produzir e libertar cortisol, a “hormona do stress”, que induz alterações crónicas no corpo: a nível gastrointestinal e neurológico, distúrbios da tiroide, enfraquecimento do sistema imunológico, morte de neurónios no hipocampo (área do cérebro responsável pela memória e pela aprendizagem), cansaço, tristeza, apatia e um grande etecetera. Segundo a Universidade de Harvard, 60 a 80% das doenças que sofremos têm uma relação direta com emoções tóxicas.

Então, como gerir melhor as emoções, para prevenir esses problemas?

Gosto de dar algumas ideias práticas que penso que são muito úteis:

1 – Conhecer-se: concentrar-se nas suas virtudes. Quem não se conhece, não se compreende nem aceita e por isso não pode superar-se e melhorar.

2 – Evitar o excesso de autocrítica e exigência: fugir do perfeccionismo excessivo, pois o perfeccionista é o eterno insatisfeito. Cuidado com o autoboicote. Para o controlar, é essencial aprender a dominar a voz interior. Grandes treinadores de ténis estudaram estas questões: num jogo, se os adversários tiverem o mesmo nível, ganha quem tiver um maior autodomínio. Isto é bem explicado por Timothy Gallwey no seu livro “The Inner Game”.

3 – Estabelecer metas e objetivos: gosto de dizer: “sonhe grande, aja pequeno”. Não tenha medo de deixar seu coração voar, mas faça um plano de ação e delineie uma estratégia. Não fique apenas pelo sonho. Aja em conformidade. É fundamental ser realista nos objetivos que se estabelece. Dizia Séneca: “Não há vento favorável para quem não sabe para onde vai”. Se perdermos de vista os nossos sonhos e objetivos, tornamo-nos escravos do imediato. No ano passado, foi publicado um artigo interessante a este respeito. Pessoas com um objetivo ou propósito na vida têm menor risco de sofrer de doenças cardiovasculares e de morrerem destas.

4 – Trabalhar a vontade. A vontade é a capacidade de adiar a recompensa. Isto adquire-se com treino, tratando de fortalecer um sistema de controlo inteligente. É a força superior da mente que nos permite alcançar um objetivo, não de maneira impulsiva, mas cerebral.

5 – Melhorar a assertividade. Trata-se de encontrar um meio-termo entre aceitar que os outros decidam tudo por nós e não sermos capazes de ter um pensamento objetivo e respeitar as ideias dos outros. “Eu digo sim quando quero dizer não; quando digo não, sinto-me culpado. ”

6 – Treinar a inteligência emocional. Isto significa entender e expressar as minhas emoções, entender e empatizar com as emoções dos outros e controlar as emoções e a impulsividade.

7 – Educar o otimismo. É possível. Qualquer situação pode ser vista em modo problema ou em modo solução. Há que mudar a linguagem e começar a usar palavras que evoquem entusiasmo, alegria, esperança. Rejeitar as palavras tóxicas que nos anulam e alteram a irrigação sanguínea. O otimismo apela à esperança e à paixão e isso tem um efeito direto no cérebro e na neuroplasticidade. Observou-se que em pessoas que praticam otimismo, produz-se uma neurogénese: células-tronco convertem-se em neurónios em três semanas e migram para o hipocampo.

Transformamo-nos no que pensamos. A mente tem um impacto muito importante no nosso organismo. O medo é inevitável, mas o sofrimento que este produz é opcional.

A ansiedade e a depressão são as doenças do século. A primeira tem que ver com o medo do futuro, a segunda com a não superação dos problemas e culpas do passado. Como ultrapassar uma e outra?

Transformamo-nos no que pensamos. A mente tem um impacto muito importante no nosso organismo. O medo é inevitável, mas o sofrimento que este produz é opcional. Os medos curam-se aprendendo a aproveitar a vida, olhando para o futuro com esperança e vivendo o presente de maneira equilibrada e compassiva.

Porque é que é importante aprender a perdoar (os outros e a nós)? Libertar a raiva e não aceitar tudo o que nos acontece não é também importante?

Saber perdoar-nos é importante para fechar as feridas e seguir em frente. Percebermo-nos é aliviar nosso sofrimento. O tempo é a testemunha de nossa existência que ajuda como observador à luta diária.

O neurocientista Richard Davidson, fundador e presidente do Centro para Mentes Saudáveis, encontrou-se uma vez com o Dalai Lama, que lhe perguntou por que é que todos os investigadores da psique se dedicavam a estudar a stress, a ansiedade e a depressão e ninguém prestava atenção à bondade, à compaixão, à empatia, ao perdão… Desde então, Davidson centrou-se na bondade como base de um cérebro saudável.

O meu pai [o psiquiatra Enrique Rojas] tem uma frase que eu uso muito em terapia: “saber olhar – como vejo, como observo, como julgo – é saber ama”. Trabalhar a forma como olhamos os outros influencia positivamente a saúde. Para o perdão é a chave: um coração ressentido não pode ser feliz.

A culpa é o sentimento mais improdutivo? Que papel desempenha e como apaziguá-la?

O sentimento de culpa não ajuda, não faz crescer, não tira a dor nem a angústia. É uma emoção tóxica que impede de seguir em frente. Pode vir de si (dos seus medos, bloqueios ou limitações) e de fora (como os outros a fazem sentir-se).

90% das coisas que nos preocupam nunca acontecem. Todas as emoções são precedidas pelo pensamento, às vezes exagerado ou distorcido, portanto, os pensamentos devem ser educados.

“A realidade muda quando altera a maneira de pensar”, diz no seu livro. Como é que o pensamento influencia a realidade que vivemos? Mudar maneiras de pensar e crenças sobre nós e o mundo não é fácil. O que fazer?

A felicidade depende da atitude que temos em relação à vida. Essa atitude tem muito que ver – como já referi – com a voz interior. Por um lado, parece-me fundamental ter sentido de humor, às vezes levamo-nos demasiado a sério! E, acima de tudo, uma ideia-chave: 90% das coisas que nos preocupam nunca acontecem. Todas as emoções são precedidas pelo pensamento, às vezes exagerado ou distorcido, portanto, os pensamentos devem ser educados.

Outra ideia que considero essencial para melhorar a nossa vida no século XXI é aprender a descansar. O ser humano não está desenhado para viver sempre em modo de alerta ou sobrevivência, há que aprender a desligar e ligar-se à vida real e ao mundo interior. Descansar é recuperar a serenidade e a calma depois das batalhas com as quais todos lidamos no dia-a-dia.

Que se deixa “invadir” por personalidades tóxicas pode acabar com sintomatologia ansioso-depressiva, sentimentos de culpa, de dependência e uma consequente repercussão na autoestima.

Pessoas tóxicas. Eis uma espécie que cada vez está mais presente nas nossas vidas. Como detetá-las? E neutralizá-las?

Existem de todos os tipos: desde instáveis e ciumentos a paranoicos, imaturos ou neuróticos. Têm a capacidade de nos desestabilizar, às vezes em segundos. Muitas vezes somos nós quem permite que pessoas tóxicas, egoístas, imaturas, insensíveis ou orgulhosas entrem no nosso círculo mais próximo.

Eles instalam-se nas nossas vidas, opinando e avaliando constantemente as nossas ações e palavras. Tornam-se espetadores com o direito de comentar tudo o que dizemos ou fazemos e, portanto, é muito difícil criar vínculos saudáveis com eles.

A chave para não ficarmos intoxicados está na atitude e na maneira de combatê-los. Há que conseguir que não invadam nosso mundo interior e não anulem nossa capacidade de tomar decisões. É preciso um exercício intenso para evitar que sejamos dominados pelo seu veneno.

São os chamados “vampiros emocionais”, pela sua capacidade de absorção psicológica, invadindo tempo, pensamentos e emoções. Aqueles que se deixam “invadir” por personalidades tóxicas podem acabar com sintomatologia ansioso-depressiva, sentimentos de culpa, de dependência e uma consequente repercussão na autoestima.

A busca constante pelo controlo leva-nos a não apreciar as coisas boas que estão a acontecer connosco, a esquecer o momento presente, obcecados que estamos com o futuro. A ansiedade é a febre da mente.

Que impacto têm as redes sociais, as apps e os smartphones no nosso bem-estar e saúde mental?

O mundo virtual gera gratificação instantânea, “faíscas” de dopamina que proporcionam momentos de prazer, mas provocam uma desaceleração, uma síndrome de abstinência e uma necessidade constante de consumir mais. A felicidade está em relacionar-se com as pessoas cara a cara e na vida real.

Vejamos como funcionamos com o ecrã: agarramos o dispositivo em dois momentos, de tédio ou de stress. O cérebro vai-se modulando em função da forma como o utilizamos. Se começar a tocar piano agora, no espaço de duas semanas o seu cérebro aumentará de espessura nas zonas que comandam os dedos e a capacidade musical. Se deixar de tocar, volta ao estado inicial. Isto é fundamental: o cérebro adapta-se aos seus hábitos. A isso chama-se neuroplasticidade. E se, quanto está entediada ou stressada, a primeira coisa que faz é agarrar-se ao telefone, não gera mecanismos para lidar com o tédio ou o stress, o que provoca o drama que verificamos hoje nos jovens: tolerância zero à frustração. Ora, a tolerância à frustração é essencial e os ecrãs estão a impedir o seu desenvolvimento.

A identidade dos adolescentes está a ser construída através das redes sociais, é pelo número de likes que eles se sentem gostados ou não… A busca pela identidade, que se desenvolve na adolescência, está completamente em mãos alheias e invisíveis, o que cria uma enorme vulnerabilidade. A vida virtual gera felicidade a golpe de cliques, mas não felicidade estrutural. Tem uma grande componente “fake” e cérebro sabe isso, mas é viciante. Na verdade, a medicação para tratar a adição às tecnologias e redes socais é muito semelhante à da cocaína.

Nesta vida, existem três tipos de pessoas: os que fazem as coisas acontecerem, os que olham para as coisas que acontecem e os que se perguntam o que aconteceu.

A necessidade de se sentir em controlo é uma das principais causas de ansiedade (e produção de cortisol). É possível uma personalidade ansiosa libertar-se desse medo? Como?

Essa busca constante pelo controlo leva-nos a não apreciar as coisas boas que estão a acontecer connosco, a esquecer o momento presente, obcecados que estamos com o futuro. A ansiedade é a febre da mente e da alma, alerta-nos que o ambiente é hostil, que há algo que não estamos a gerir bem e que temos que mudar alguma coisa.

Se a pessoa souber o que se passa consigo, se entende como o cérebro funciona, compreenderá mais facilmente porque é que o seu organismo está cada vez mais doente. A mente e o corpo não distinguem o real do imaginário e, se alguém vive constantemente em alerta, fica doente.

Se conseguirmos ser a “Melhor Versão de Nós Próprios” conseguimos que aconteçam coisas boas, diz no seu livro. O que é preciso fazer para isso?

Nesta vida, existem três tipos de pessoas: os que fazem as coisas acontecerem, os que olham para as coisas que acontecem e os que se perguntam o que aconteceu. As chaves para ser a melhor versão de si mesmo estão no conhecimento, é preciso saber, estudar … para internalizá-lo.

Louis Pasteur disse que “a sorte favorece a mente preparada”. Portanto, treinar, conhecer-se, saber aquilo que quer e de que gosta é muito importante. O talento, a vontade, a ordem, a perseverança também contam… Ou seja, é essencial ter isso exercitado no nosso comportamento. Depois vem o projeto de vida. Quem não sabe o que quer não pode ser feliz. E tudo isso multiplicado por paixão, que melhora tudo. A paixão é o que nos ilumina.