Marias sangrentas, filmes de terror e afins

Crianças de todas as idades falam-nos de vídeos e filmes cujos conteúdos não são, seguramente, apropriados para a sua faixa etária. A Maria Sangrenta, que sai de um espelho quando o seu nome é pronunciado três vezes e mata pessoas, a boneca assombrada Annabelle, que invoca o mal e pratica diversas atrocidades, o It, que conta a história de uma entidade do mal que comete assassínios e obriga a enfrentar os próprios medos, … apenas três exemplos de lendas e filmes de terror que circulam pela internet e pelo cinema, aos quais as crianças têm livre acesso. Sim, livre acesso.

Por um lado, livre acesso aos tablets, telemóveis e televisão, onde veem tudo e mais alguma coisa sem que os pais sequer se apercebam. Por outro lado, mentem na idade ou vão acompanhados com miúdos mais velhos ao cinema e conseguem ver filmes classificados para maiores de 12, 14 ou mesmo 16 anos de idade. Quem vende os bilhetes faz de conta que não percebe. Pois é.

Então, e os critérios de classificação das actividades em função da idade das crianças? Andamos nós, adultos, a ignorar estes critérios?

A classificação etária aconselha a idade a partir da qual se considera que o conteúdo de algo não é suscetível de provocar qualquer dano prejudicial ao desenvolvimento psíquico ou de influenciar negativamente na formação da personalidade das crianças ou jovens em causa. Esta classificação existe, assim, por motivos óbvios e, em teoria, penso que todos a defendemos. Mas na prática, fechamos muitas vezes os olhos a estes critérios.

O nível de ansiedade aumenta, facilitando medos e fobias, enurese, sonolência diurna, menor atenção e concentração na escola, entre outras perturbações, com um natural impacto negativo no bem-estar da criança e da família.

Que impacto tem isto nos miúdos? Pois bem, temos crianças com alterações nos padrões de sono associadas ao visionamento destes conteúdos. Receiam adormecer, choram, pedem a presença dos pais e acordam a meio da noite aos gritos devido aos pesadelos. Outras crianças manifestam preocupações obsessivas e comportamentos compulsivos, como fechar a porta da casa de banho e verificar vezes sem conta que está bem fechada, com medo daquilo que de lá possa surgir. O nível de ansiedade aumenta, facilitando medos e fobias, enurese, sonolência diurna, menor atenção e concentração na escola, entre outras perturbações, com um natural impacto negativo no bem-estar da criança e da família.

Os miúdos insistem que querem ver os vídeos e os filmes porque os colegas e amigos também já viram, e sentem-se excluídos se não o fizerem. Percebemos a enorme pressão social que eles sentem por parte dos seus pares, mas que isso não nos faça vacilar e ceder. Pelo contrário, aproveitemos este tipo de situações para educar, que é como quem diz, explicar as razões porque determinados conteúdos apenas devem ser acessíveis a partir de uma certa idade. Não porque alguém, um dia, do nada, se lembrou de definir estes critérios, mas sim porque alguns conteúdos mais violentos ou sexuais têm, efectivamente, um impacto negativo em crianças mais novas.

As crianças têm pressa de crescer e tornar-se adolescentes. Por sua vez, os adolescentes têm pressa de crescer e tornar-se adultos. Cabe-nos a nós, verdadeiros adultos, refrear esta pressa e permitir que as coisas aconteçam no tempo certo. Ou, pelo menos, no tempo mais próximo daquele que é o certo.