Mau hálito: o problema tabu que vai ser desmistificado em Lisboa

Já se cruzou com alguém com um péssimo hálito? Saiba que na origem dessa patologia podem estar doenças ligadas aos sistema metabólico, amigdalites ou infeções nos tecidos de suporte dos dentes. Apesar de afetar muita gente, esta é uma patologia tabu, até mesmo entre especialistas.

Texto de Alexandra Pedro | Fotografia iStock

Afeta mais de 30 por cento da população, mas continua a ser um assunto intocável entre profissionais de saúde, familiares, amigos ou colegas de trabalho. A halitose pode ser uma manifestação de várias doenças ou apenas uma questão fisiológica. A origem, diagnóstico e tratamento do mau hálito vão estar em discussão no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, a 3 de setembro. «O mau hálito tem de ser falado, diagnosticado e tratado» é o mote da iniciativa. Antes disso, falámos com especialistas envolvidos na conferência.

Jonas Nunes, médico dentista e diretor do Instituto del Aliento, em Barcelona, Espanha, é um dos convidados pela Associação da Medicina de Proximidade, organizadora do evento. Em declarações à Life, aquele que é um dos primeiros portugueses a destacar-se internacionalmente no diagnóstico e tratamento da halitose não tem dúvidas de que este continua a ser um assunto sagrado.

«A halitose é desde logo um tema tabu na relação médico-paciente. Muitos dos doentes, por exemplo, pedem para fazer uma limpeza e um check-up dentário, mas não perguntam abertamente as causas do mau hálito», começa por dizer o especialista.

Há pessoas que escondem do seu cônjuge que têm problemas de mau hálito e condicionam a sua vida pessoal e profissional devido a esta patologia.

Segundo ele, o mesmo acontece em sentido inverso: «Num estudo que desenvolvi com alunos finalistas de medicina dentária, eles reconheceram que, caso o paciente apresentasse mau hálito, tinham receio de lhe dizer.» Mais de 70 por cento admitiram mesmo não estar preparados para a abordagem clínica.

«Neste estudo verificou-se que o conhecimento, a atitude e o ensino recebido por parte dos alunos foi insuficiente. O presente trabalho é inédito, não sendo possível por isso comparar os resultados com outros estudos», pode ler-se na pesquisa realizada em 2011.

No entanto, acrescenta o trabalho, considerando o elevado interesse tanto dos alunos como dos pacientes, «é de salientar a importância de uma maior valorização deste tema por parte das faculdades de Medicina Dentária».

José Mário Martins, estomatologista e presidente da Associação de Medicina de Proximidade, entidade que está a organizar a conferência, é mais otimista e considera que «hoje em dia, os profissionais de saúde têm mais hábito de referenciar os seus doentes». Porém, não tem dúvidas de que este é um tema que tem de ser mais debatido e analisado.

A maioria das pessoas com halitose não se apercebe que tem este problema.

Para o diretor da clínica em Barcelona, a questão deve partir das faculdades e também ser desmistificada pela sociedade. «Por um lado, as faculdades têm que dar mais importância ao tema. Questionar: qual o papel do profissional de saúde quando o paciente tem mau hálito? Isto porque a verdade é que a maioria das pessoas nem se apercebe, tem de ser o médico a dizer-lhe», explica Jonas Nunes.

Por outro lado, continua, a sociedade tem de estar informada e perceber que a patologia pode ser uma manifestação de algumas doenças. «Este problema pode provocar um impacto muito severo na qualidade de vida das pessoas. Chega a isolá-las. Há um grande tabu, mesmo nas famílias», diz.

O estigma da vergonha é de tal modo preocupante que Jonas Nunes chega a ter pacientes que vão a consultas às escondidas dos seus cônjuges. E isto quando «97 por cento dos casos têm tratamento», assegura o especialista.

Foi a pensar nas dificuldades que a halitose traz também ao nível psicológico que José Mário Martins, juntamente com a Associação que representa, decidiu convidar profissionais das mais variadas áreas.

«Juntámos psicólogos, farmacêuticos e até figuras como o ex-bastonário da Ordem dos Médicos José Manuel Silva. Este é um problema que mexe muito com a vida das pessoas e todos os profissionais de saúde são muito importantes», justifica o especialista em estomatologia, para quem teria muito significado desfazer o mito da relação entre a halitose e a higiene oral».

A conferência sobre a halitose vai realizar-se a 3 de setembro no Centro Cultural de Belém, em Lisboa.

Jonas Nunes lembra que existem várias doenças que podem estar na origem do mau hálito, que vão de infeções na boca a complicações intestinais. «Pode ser simplesmente uma condição fisiológica: acontece, por exemplo, quando se está muito tempo sem comer, ou quando se ingere certo tipo de alimentos como alho ou cebola. Contudo, pode estar também associada a fisiopatologias», diz.

Na boca, as doenças mais frequentes são a gengivite, a periodontite [infeção dos tecidos de suporte dos dentes] e também a saburra lingual [também conhecida como saburrosa]. «Tudo isto está relacionado com o excesso de bactérias e casos de hiper e hipossalivação (aumento e diminuição da produção de saliva, respetivamente)», menciona o especialista.

A amigdalite, bem como a rinossinusite, também podem provocar halitose, acrescenta Jonas Nunes, não se esquecendo de sublinhar as doenças como diabetes ou problemas hepáticos.

Jonas Nunes, diretor do Instituto del Aliento, em Barcelona, tem pacientes em todo o mundo com problemas de halitose.

De resto, o diretor do Instituto del Aliento, já com um livro publicado sobre este tema (O Mundo do Hálito a Descoberto, ed. Gadiva), diz que se interessou pela área num congresso em Chicago, EUA, que despertou a sua curiosidade.

«Senti necessidade de dar uma resposta a estes doentes, que muitas vezes têm uma higiene oral exemplar», conta. Hoje trata pacientes em países como a Rússia, Nova Zelândia ou Argentina, através do recurso a novas tecnologias que identificam a causa dos problemas.