Medo, incertezas e dúvidas. A gravidez em tempos de coronavírus

Foto por Reinaldo Rodrigues/Global Imagens

Sem chás de bebé. Sem certezas de nada. Sem saber se podem contar com mães e sogras a ajudá-las. A gravidez é sempre recheada de expectativas e medos, mas ainda mais para as grávidas nestes tempos de coronavírus.

Texto de Ana Pago

Mãe que é mãe preocupa-se com um filho ainda antes de ele nascer, como se medos que até aí mal a beliscavam se amplificassem a um grau de potência inimaginável. E se falhar redondamente? E se deprimir? E se não for a mãe de que o seu bebé precisa? E se?
É difícil pensar que sobraria espaço para mais temores, porém um novo insinua-se na cabeça de todas as grávidas, em tortura lenta: como pode uma mulher levar a gravidez normalmente entre hormonas descontroladas e esta pandemia da covid-19?

“Sem dúvida que as grávidas andam muito mais receosas, com tanta coisa a acontecer ao mesmo tempo”, confirma a enfermeira Carmen Ferreira, especialista em saúde materna e obstétrica. Se há momentos de incerteza na vida de uma pessoa é durante a gravidez, o parto, os meses que se seguem. “Algumas mudanças nas grávidas são graduais, outras nem por isso, pelo que é natural que sintam preocupações por si só”, diz. Quando de repente a equação envolve um vírus imprevisível, desconhecido e potencialmente letal, ninguém lhes leva a mal que se exaltem.

“Estou num grupo fechado de Facebook, de mulheres que como eu vão ser mães em setembro, e muitas delas estão em pânico com tudo isto”, conta Maria Cano, acabada de entrar nas 20 semanas de gravidez. Ela própria estaria se fosse ter a filha agora. Custa-lhe muito pensar no futuro, mesmo tentando não entrar em carambola: “Vou ao supermercado uma vez por semana com precaução, saio para caminhar à volta de casa todos os dias e troquei a hidroginástica por uns exercícios que saco da internet, a ver se não ganho 300 mil quilos”, ri-se. Seja como for, tanta incerteza arrasa os nervos de qualquer pessoa.

“Mais do que nunca, faz sentido as mulheres estarem bem informadas sobre a saúde, o seu corpo e o bebé, atendendo a que é mais difícil chegar aos profissionais que antes as viam a qualquer hora”, sublinha Carmen Ferreira. Na falta de tantas idas ao médico ou às consultas de acompanhamento no centro de saúde, tem havido um reforço no sentido de se dar maior autonomia às grávidas de baixo risco, esclarecendo-as quanto àquilo por que vão passar na gravidez, no parto e mais tarde, ao chegarem a casa com um recém-nascido nos braços.

“Uma vez que podem não ter respostas com a rapidez e frequência que teriam antes da pandemia, é importantíssimo que saibam o que se está a passar com elas e quais os sinais de alarme”, sustenta a enfermeira, habituada a ensinar às futuras mamãs como contarem os movimentos fetais dos bebés, como é o líquido amniótico, como detetarem a rutura da bolsa e o que fazer se perderem sangue, sentirem desconforto pélvico ou dores que não passam com repouso.

“Falamos disto com as grávidas nas consultas que vão mantendo, nos cursos de preparação online entretanto criados. Nas linhas de apoio que as maternidades abriram para que os pais tenham algum suporte sem terem de ir às unidades”, explica. Se à partida estiver tudo bem dentro e fora da barriga, idas ao hospital só mesmo se houver emergências, consultas e exames obrigatórios (da mãe ou do bebé, incluindo o teste do pezinho), queixas alarmantes e vacinação, crucial com ou sem covid-19.

“Há mais doenças que precisamos de combater além do coronavírus. Não podemos deixá-las ganhar força nesta fase”, justifica a especialista. Pela parte que lhe toca, escreveu Estamos Grávidos! E Agora? (da Manuscrito) para ajudar os pais com as questões práticas da gravidez, transversais a todos. À distância, através do seu blogue Bebé Saudável vai ainda chegando às mães mais aflitas que precisam dela. Não é o caso de Maria Cano, determinada a manter a calma.

“Às vezes a minha médica adia consultas, aproveitando que tenho de lá ir para algum exame dias depois. Fora isso tenho feito tudo nas datas certas”, afirma a gestante, a ser seguida no privado. Nunca passou por salas de espera lotadas, nem esteve horas em centros de saúde: “Não tive problemas desses, felizmente, embora saiba de grávidas a quem desmarcaram ecografias importantes, foi-lhes dada uma lista de sítios onde podiam fazê-las e derraparam por só haver vagas dali a imenso tempo.”

Outra questão que a tira do sério é não deixarem o pai assistir às consultas e demais exames memoráveis numa gravidez, como se para ele fosse menos importante ver o filho mexer-se, ou saber se é saudável, ou ouvir em primeira mão se é menino ou menina. “Eles são os pais. Têm direito a estar presentes independentemente do vírus”, indigna-se a pré-mamã, mais nervosa sempre que entra numa sala sozinha. O apoio do companheiro é imprescindível, nem que seja para lhe dar a mão.

E sim, agora é mesmo tudo a dobrar. A começar pelas aflições

“Quem teve ou está para ter um filho sabe que as suas escolhas influenciam não apenas a própria saúde como a do bebé, então os níveis de ansiedade das grávidas disparam neste contexto de pandemia”, nota Carmen Ferreira. Um medo comum é o de que venham a estar infetadas com coronavírus na altura do parto e não as deixem amamentar ou manter o contacto pele a pele, o que poderia comprometer o sistema imunitário do recém-nascido e o vínculo deste à mãe.

“As dúvidas delas têm rondado muito por aí nesta fase: como é que eu consigo proteger-me, proteger o meu bebé e garantir um começo de vida igualmente saudável neste cenário em que até sair de casa dá medo?”, resume a enfermeira obstétrica, ciente de que o pior ainda é desconhecermos quase tudo acerca do vírus: “Até à data sabemos que não existe no líquido amniótico ou no leite materno, e que o contágio não tem sido mais grave em gestantes.” Pesquisas recentes confirmam não haver medidas preventivas diferentes para quem está grávida, mas quem arrisca?

“Se tivesse a minha filha amanhã ficaria em casa durante uns bons tempos, apenas com visitas virtuais”, garante Maria Cano, considerando que o pós-parto é já uma espécie de quarentena, de algum modo. Não pondera fazer baby shower, nem festas, nada que facilite uma infeção. O próprio parto tanto pode ser em Lisboa como em Beja: “Caso as coisas acalmem até setembro, tenho-a no Alentejo e fico uma temporada com os meus pais.” É algo que não prevê a esta distância, diz. A pandemia trouxe-nos isto de não planear demasiado a vida. De ir improvisando a cada dia. O que para quem se prepara para receber um bebé pode nem ser uma lição assim tão má.