A mentira dos cigarros eletrónicos

«O tabaco é o único produto que mata metade dos seus consumidores», diz a Organização Mundial de Saúde num dos posts mais recentemente publicados nas suas redes sociais.

Durante muitas décadas a indústria tabaqueira incentivou o consumo dos seus produtos, através de campanhas de marketing poderosas e do financiamento de centenas de artigos científicos enviesados.

Foram precisos 50 anos e milhões de mortes até que surgisse um estudo imparcial e de arquitetura irrepreensível da autoria de Richard Doll.

Finalmente o mundo e a comunidade científica acordaram para este assassino silencioso.
Entretanto a estratégia de marketing das tabaqueiras mudou. À boleia da atual onda dos estilos de vida saudáveis, as tabaqueiras travestiram-se de defensoras da Saúde Pública através do comércio dos seus cigarros eletrónicos e da criação de fundações com a suposta missão de combater o tabagismo.

Os cigarros eletrónicos são publicitados como um bom substituto do tabaco convencional ou como uma forma de vir a deixar de fumar. No entanto, tal como se previa, não são apenas usados por quem já fumava. Graças à propaganda da indústria tabaqueira, os cigarros eletrónicos começam a ser a primeira forma de contacto dos jovens com o vício de fumar.

Quem os vende omite quaisquer efeitos prejudiciais para a saúde individual e social que possam advir do seu consumo. Supostamente, eliminam quaisquer riscos para os fumadores passivos. Adicionalmente, libertam aromas para todos os gostos e apetites. Caso para dizer, para quê comprar um ambientador de casa se agora podemos fumar um?

É precisamente em toda a gama de químicos que esses aromas incluem que reside um dos principais riscos desta nova tecnologia.

Dos cerca de 20 estudos científicos existentes, mais de metade foram pagos pela indústria tabaqueira. Mesmo assim os indícios dos seus efeitos destruidores destes «cigarros da moda» surgiram.

Fazer mais mal do que o tabaco convencional seria praticamente impossível. Ainda assim foram associadas aos cigarros eletrónicos consequências lesivas da exposição à nicotina e aos seus compostos.

Os efeitos mais alarmantes dizem respeito à exposição aos químicos usados para dar sabor aos líquidos destes cigarros. Inflamam e danificam os órgãos através do stress oxidativo que provocam. Além disso, muitas destas substâncias químicas podem causar morte celular significativa e mutações no ADN.

Praticamente todos os estudos científicos concluem o mesmo: dada a história recente da introdução dos cigarros eletrónicos no mercado, é ainda impossível passar dos indícios para conclusões fortes sobre os seus efeitos na saúde a médio e longo prazo.

Faz, portanto, sentido aprendermos com a história do tabaco convencional e aplicar o conceito da precaução. Portugal foi dos primeiros países a fazê-lo na última atualização à lei do tabaco, equiparando os cigarros eletrónicos aos outros tipos de tabaco.

E você? Vai querer correr o risco de viver uns anos a menos, na companhia dos seus filhos e família, por causa de umas passas com sabor a baunilha?