Eles entraram no mercado de trabalho antes do diploma. “São cada vez mais”

Leonel de Castro/Global Imagens

Um engenheiro eletrotécnico, uma assessora de comunicação e um informático. Sentem-se a exceção à regra, mas os especialistas garantem que atualmente já são mesmo a norma. Mesmo em áreas em que a empregabilidade é, à partida, mais baixa.

Texto de Catarina Reis
Fotografias de Leonel de Castro/Global Imagens

Em 2017, mais de 77 mil pessoas formaram-se no ensino superior. Milhares de jovens para quem o passo seguinte é, muitas vezes, incerto. Mas pode começar com participações em feiras de empregabilidade, como o Rodrigo Passos fez. Estar de olhos postos em qualquer oportunidade, como a Rita Cardoso. Ou até mesmo ser proativo quanto às candidaturas espontâneas, como o André Silva. Daqui, todos eles colheram frutos. Fazem parte da franja de jovens portugueses que iniciou a vida profissional para a qual estudou mesmo antes de se licenciar. São o reflexo de uma era onde “cada vez mais” os universitários são contratados prematuramente, diz Vasco Salgueiro, recrutador na Michael Page, uma das maiores multinacionais de recursos humanos.

Vasco costuma estar do lado de lá do processo. É atualmente recrutador, contratado por várias empresas para escolher os seus novos profissionais. Conhece este mundo por dentro e não tem dúvidas de que aumentou o número de jovens recrutados aquando da licenciatura.

Mas na altura em que ele mesmo era estudante “já acontecia com frequência”. Ele próprio é um desses exemplos, contratado por uma empresa ainda numa fase final do curso de Gestão de Empresas, na Universidade de Évora, depois de uma apresentação da mesma na faculdade.

“Começam a sinalizar os alunos no primeiro e segundo ano de licenciatura, para no terceiro ou quarto ano já os recrutarem”

Corrida aos estudantes

A diferença é que hoje as empresas estão predispostas a rastrear quem está nas universidades de forma bem mais prematura. Segundo o recrutador da Michael Page, fruto da concorrência atual entre empresas. Até já “começam a sinalizar os alunos no primeiro e segundo ano de licenciatura, para no terceiro ou quarto ano já os recrutarem”.

Uma estratégia, diz, que “faz a diferença, porque há um fosso entre a vida académica e o mercado laboral”. As próprias instituições de ensino “começam a ter programas e cadeiras em que possibilitam as experiências em empresas”.

Mas Rodrigo Passos, 24 anos, não acredita na tendência. Fala mesmo em “sorte”. “Não sou o reflexo de uma sociedade nem de uma geração.” Aos 24 anos, está a meses de terminar o curso em Engenharia Eletrotécnica na Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto e também de dar início a um contrato de trabalho numa multinacional.

Leonel de Castro/Global Imagens

Em março, numa feira de emprego organizada pela sua faculdade, que acontece duas vezes por ano, contactou com algumas empresas lá presentes, entre elas aquela que dois meses depois o contrataria. “Fizeram uma primeira entrevista rápida e ficaram com o meu contacto”, recorda. Entretanto, foi chamado para outras etapas de recrutamento, até que há duas semanas recebeu a boa nova.

Vários futuros engenheiros encontram, neste mesmo evento, o primeiro contacto com as empresas do mercado laboral e a possibilidade de integrarem os seus quadros. Desde “estágios de verão, oportunidades de apoio à dissertação (recorrendo à empresa como caso de estudo) e ainda contratos para aqueles que estão a terminar o curso, bem como para aqueles que já estão no mundo empresarial e querem ingressar numa nova empresa.” Dali, Rodrigo recebeu “uma única proposta efetiva” e outras “cerca de seis abordagens” – empresas que “disseram que estavam interessados e que tinham uma determinada margem salarial”. Algumas resultantes da feira de emprego, mas outras da sua rede de LinkedIn. Muito por força da sua área de trabalho, confessa.

“Neste mercado, há muita procura para pouca oferta. Reconheço que no curso em que estou tenho uma certa vantagem.” Diz mesmo que “a norma” é os seus colegas “terminarem o curso e passado um mês já terem trabalho”. Aliás, para Rodrigo, o futuro profissional nunca foi uma preocupação, dado os números de empregabilidade. De acordo com os dados da Direção-Geral do Ensino Superior (DGES), dos 761 diplomados neste curso entre 2013 e 2016, apenas 18 estavam registados como desempregados no Instituto de Emprego e Formação Profissional (IEFP) em 2017 – correspondente a 2,3%.

Ainda assim, diz conhecer “poucos” alunos que o consigam antes de terminarem a licenciatura. “No geral, a vida não é assim. E por isso é que me sinto um privilegiado.” Principalmente em comparação com jovens de outras áreas. “Basta ver colegas de direito, design, arquitetura, por exemplo, que têm uma dificuldade tremenda em sequer arranjar uma oportunidade de estágio.”

Segundo os dados disponibilizados no portal Infocursos, o curso de Arquitetura da Universidade de Évora teve uma taxa de desemprego de 30,3% entre os alunos diplomados no ano letivo de 2015/2016, a maior deste período. Embora importe referir que se registou apenas 30 diplomados nesta licenciatura, sendo 10 os inscritos como desempregados no IEFP.

Também os cursos de Comunicação Multimédia e de Educação Ambiental, ministrados nas universidades públicas, apresentam largas taxas de desemprego. Do lado oposto estão os cursos de Medicina e variantes de Engenharia, entre aqueles que registam mesmo desemprego zero.

Profissionais “sem vícios”, empresas felizes

E Rita sabe-o bem. A jovem de 23 anos, licenciada há dois anos em Ciências da Comunicação pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto, sempre soube que estava a entrar num mercado onde as oportunidades, mesmo as piores, são escassas. Por isso, sente-se a exceção à regra, uma vez empregada numa empresa ainda com uma licenciatura por concluir. Ainda assim, considera que casos como este “estão a tornar-se cada vez mais usuais”.

Leonel de Castro/Global Imagens

No último ano do curso, enveredou pela especialização em assessoria de comunicação e foi numa aula com uma empresa convidada que Rita viu a sua oportunidade. Sempre foi a “típica nerd da primeira fila” da sala de aula, confessa, mas naquele dia precisava de ir mais além. “Estava bem na fila da frente e sempre a colocar todas as dúvidas que me lembrasse no momento. Parece que essa postura me trouxe frutos.”

Naquele mesmo dia, é anunciado aos alunos presentes que a empresa está a abrir uma vaga de estágio. Ainda com um currículo que apelida de “despido”, Rita não temeu candidatar-se ao lugar. “Duas semanas depois, a 23 de novembro de 2016 estava eu nervosíssima a entrar no meu primeiro dia de trabalho”, recorda. Entretanto, Rita terminou a licenciatura e atualmente ainda trabalha para a mesma empresa.

Acredita que entrar cedo no mercado de trabalho “é uma relação benéfica para ambos os lados”. Para os estudantes universitários porque “querem ganhar experiência e crescer rapidamente para se distinguirem das centenas e centenas de pessoas que saem todos os anos das faculdades”. Para as empresas porque estão a formar um iniciante com pouco ou nenhum gasto.

Vasco Salgueiro, recrutador da Michael Page, diz mesmo que “a exigência técnica” destes estudantes “ainda não é muito elevada”, mas mais “facilmente adaptam-se à estrutura da empresa”, “verdes” e “sem vícios”.

Pode “acabar por prejudicar a licenciatura”, é certo, mas André garante que compensa o risco

Arriscar o curso pelo mercado de trabalho

Era com informática que André Silva sonhava, por isso, ingressou em Engenharia Informática no Instituto Politécnico do Porto. Mas a rotina académica foi uma desilusão. “Sendo a área bastante abrangente, tentam abordar de tudo um pouco e senti-me perdido”, recorda o jovem de 26 anos. Um pedaço de sonho que desmoronava-se ali todos os dias, entre as folhas de teoria académica e a vontade de a praticar. “Digamos que eu só aprendi a gostar mesmo da profissão quando comecei a trabalhar.”

Outros colegas podem ter-se conformado com a rotina, mas não André. No segundo ano de faculdade, candidatou-se para uma vaga de emprego em programação numa pequena empresa em Espinho. Durou apenas um ano, mas deu-lhe calo para o mercado e uma experiência para o currículo.

Quase a findar a sua licenciatura, a situação inverteu-se e foi ele quem foi procurado. Desta vez, por uma empresa maior, com desafios maiores também. No último ano de licenciatura, através de um programa de estágio curricular, no qual várias empresas se dirigem à instituição para procurar profissionais com determinado perfil, André avançou para uma nova aventura no mercado laboral.

Acabaria por deixar cair o curso da sua lista de prioridades, o que o fez com que deixasse parte do último ano por concluir. Só após meio ano nesta empresa, que entretanto acabou por lhe oferecer um contrato efetivo, é que decidiu gerir a vida de forma a terminá-lo. “Saía às 18h30 e entrava às 19h30 na faculdade, para voltar a casa já perto da meia-noite”, lembra.

No seu tom não moram quaisquer vestígios de arrependimento. Pode “acabar por prejudicar a licenciatura”, é certo, mas compensa o risco, admite. Não pelo receio de, na ausência de sacrifícios precoces, não receber outras oportunidades e trabalho – até porque “nesta área só não arranja emprego quem não quer”. Mas sim pelo crescimento a nível prático.

No caso de recém-licenciados, em grande parte das situações, a média académica pode mesmo ser irrelevante

O que as empresas procuram nos estudantes

Cada decisão faz a diferença. Senão agora, mais tarde. Principalmente quanto à oportunidade de enveredar no mercado de trabalho ainda como estudante. Vasco Salgueiro, da Michael Page, já perdeu a conta ao número de processos de recrutamento que já lhe passaram pelas mãos desde que é recrutador. Mas há fatores de valor num currículo que não mudam com o passar do tempo e a experiência em diferentes empresas é um deles. “Mesmo durante a licenciatura, mesmo experiências de verão (na área ou não), porque mostra vontade de ter autonomia financeira”, explica.

A capacidade empática também é um fator determinante e, muitas vezes, de desempate. “Entre candidatos aparentemente semelhantes é a empatia e a forma como se apresentam que faz a diferença. E, às vezes, no momento em que o candidato entra na sala, sabe-se logo se aquela pessoa é a indicada ou não.” Bem como a inteligência emocional, as experiências internacionais (como Erasmus) e os idiomas que o candidato domina.

No caso de recém-licenciados, em grande parte das situações, a média académica pode mesmo ser irrelevante. Quer Rodrigo, quer Rita, quer André nunca foram questionados pela média. Vasco explica que tal só costuma acontecer em processos de recrutamentos específicos, como “para sociedades de advogados”, em que este costuma ser o único valor palpável no currículo. Contudo, na maioria das áreas profissionais, “não vão optar por não escolher alguém com base neste número”.

Do lado dos jovens, as exigências são diferentes. Rodrigo Passos, por exemplo, admite que, nesta fase inicial, “a dimensão do salário não é uma prioridade”, devido ao suporte familiar. Valoriza mais a experiência em si, a oportunidade de entrar numa empresa de peso. “Sou da geração à rasca”, recorda. Por isso, acima do valor de um contrato, procura um local para crescer rodeado dos bons profissionais.

O recrutador Vasco Salgueiro deixa alguns conselhos para preparar o futuro ainda enquanto estudante universitário:

  • Experiências profissionais diversificadas (não necessariamente na área de formação) durante as férias (ou período pós – aulas);
  • Investimento formativo em idiomas (não só os tradicionais, como inglês e castelhano, mas o alemão, mandarim, italiano, etc.);
  • Integração e participação no Associativismo Académico;
  • Contacto permanente com os Gabinetes de Saídas Profissionais (desde os primeiros anos da Licenciatura);
  • Participação em feiras de empregabilidade;
  • Participação, sempre que possível, em estágios académicos realizados nas empresas;
  • Prática regular de desportos coletivos;
  • Integração em programas europeus de intercâmbio universitário (exemplo Erasmus);
  • Potenciar rede de contactos académicos tendo em vista a otimização de rede de contactos profissionais (no futuro