Microtraição: sabe o que é? (E que pode estar a arruinar a sua relação?)

Tempos houve em que a infidelidade se podia medir por uma mancha de batom no colarinho (nos homens) ou um cheiro inesperado a aftershave (no pescoço delas). Mas quando a coisa mete SMS, aplicativos de namoro e afins, a microtraição ganha novos contornos.

Texto de Ana Pago | Fotografias da Shutterstock

Fala-se em trair o parceiro e o que vem à ideia são romances tórridos em motéis de beira de estrada, mas e se não houver sexo? E se nunca chegar a envolver-se fisicamente com alguém, embora só pense nessa pessoa? E se lhe manda mensagens quando quer partilhar algo? Pode muito bem estar a cometer microtraição, avisa Martin Graff, psicólogo da Universidade de South Wales, Reino Unido. Sobretudo nesta era digital em que até um like pode sugerir que estamos disponíveis, quando não estamos.

A comunicação na internet só veio tornar as relações mais ambíguas.

«O facto de comunicarmos na internet veio tornar as relações ainda mais ambíguas do que já eram», explica o professor, que inventou o termo micro-cheating para designar uma das realidades mais antigas da história – em que alguém casado tirava a aliança para sair à noite, por exemplo.

«No século XVIII, as pessoas namoriscavam com cartas impróprias ou confiavam pensamentos indevidos aos seus diários.» O que mudou foi que agora temos smartphones, apps, redes sociais.

Smartphones, apps e redes sociais facilitam a microtraição ao torná-la mais subtil.

«São tudo ferramentas que facilitam a microtraição ao torná-la mais subtil», adianta Graff, ciente de que um SMS ou um emoji já podem ser considerados como tal – a par de seguir regularmente o perfil de alguém nas redes sociais, ou pedir-lhe o contacto porque temos sentido vontade de mandar mensagem.

No fundo, trata-se de comportamentos que parecem inofensivos, mas mostram que estamos interessados numa pessoa fora da relação que já temos com outra pessoa, resume o especialista britânico, para quem trair «apenas um bocadinho» é possível. Em última análise, diz, uma simples conversa pode ser traição se por acaso o interlocutor mostrar intenção de omiti-la ao parceiro.

Uma simples conversa pode ser traição se houver intenção de omiti-la ao parceiro.

E que ninguém aqui pense ser à prova de infidelidade, sublinha a psicóloga Cláudia Morais, que escreveu O Amor e o Facebook (ed. Oficina do Livro) para explicar como a vida sentimental pode ser afetada pela tecnologia quando deixamos de nos saber pôr na pele do outro.

«Sendo o Facebook a plataforma que mais facilmente nos coloca em linha direta com ex-namorados, ex-amantes, ex-paixonetas e amigos de outros tempos, é uma via que facilita a aproximação a pessoas que nos dizem algo do ponto de vista afetivo», alerta a terapeuta familiar.

E, sim, é fácil ceder a um affair quando a pessoa se sente especial para outra, desejada como há muito não sentia, viva. Por isso na dúvida sobre se isso que tem andado a fazer é microtraição, confira na fotogaleria algumas das situações em que pode estar a pisar o risco.