De Taiwan a Portugal: a história da migrante Jeny Chen

Taiwanesa de nascimento, brasileira de coração e portuguesa por convicção, Jeny Chen dá graças pelas oportunidades que lhe trouxe a sua vida de nómada, sempre com um pé aqui, outro acolá e pessoas a apoiá-la. Se a vida nos dá limões, façamos uma boa limonada, defende.

Texto de Ana Pago

Para a taiwanesa Jeny Chen, é impossível uma pessoa aborrecer-se num mundo vasto como o nosso, tão cheio de aventura e encontros estrambólicos. Desde os 5 anos que sabe como eliminar apegos desnecessários, carregando o essencial para onde for.

“Quando penso na minha infância em Taiwan sou incapaz de recordar grande coisa. Acho que perdi muito em termos de raízes, até mesmo da língua chinesa”, admite aos 58 anos. Ainda assim, não há mais nenhuma história que quisesse contar além desta, porque então ela não seria ela, e talvez não se consolasse tanto com a ideia de que a abundância está sempre ao alcance da nossa mão. Daqui até à China.

“Parti para São Paulo em 1965, antes de fazer 6 anos. À época os homens serviam o exército chinês e o meu pai, que era muito nacionalista, não queria os filhos a militar pelo comunismo”, conta Jeny Chen, a mais nova de três raparigas e três rapazes, nascidos de dois em dois anos até vir ela.

Jeny Chen, 58 anos, saiu da sua terra natal aos 5 anos, rumo ao Brasil, onde ficou 22 anos. Até voltar a partir. (Fotografia de Orlando Almeida/Global Imagens).

“O meu pai pesquisou, indagou, concluiu que o Brasil estava muito aberto a gente do Oriente como nós, por isso saiu levando consigo os meus irmãos.” A mãe, as irmãs e Jeny seguiram-nos mais tarde, sem que ela tivesse chegado a ir à escola em Taiwan ou aprendido a falar mandarim (duas coisas que apenas os três mais velhos fizeram).

“Falo taiwanês, claro. Tenho tias e tios em Taiwan, ligações fortes à comunidade. Mas o mandarim foi uma falha grave por ser o idioma-padrão da língua chinesa e eu não saber falá-lo”, lamenta. Só não fica mais triste porque percebe ter sido uma espécie de rebelião do pai, a pretender o melhor para os filhos. “Em contrapartida, mal chegámos a São Paulo, a primeira coisa que ele fez foi contratar uma professora a tempo inteiro para morar connosco, a fim de agilizar a aprendizagem do português e nos adaptarmos à nova realidade o mais depressa possível”, diz. Tal como fez questão de que as filhas fossem batizadas e frequentassem a igreja, embora a mãe nunca largasse realmente o confucionismo, acreditando que os protegia a todos.

“Era suposto a integração ser total e foi, sem dúvida. Viver 22 anos num país é muito tempo”, observa Jeny Chen, com um sotaque paulistano perfeito. Em tantas voltas que deu, nunca perdeu essa influência fundamental no seu carácter: “Devo ser a única chinesa e a única taiwanesa que cumprimenta as pessoas de braços abertos, o que é um gesto muito brasileiro”, nota, calorosa. Os mais conservadores olham-na de lado, a acharem que não é normal, mas ela não se importa. “Agora que a vida se tornou mais calma à minha volta, chego à conclusão de que por mais anos que tenha passado noutros lugares estive sempre ali.” E também aqui, em Portugal, onde já mora há 29 anos, a sua casa. Mas vamos por partes.

Jeny Chen é a mais nova de três raparigas e três rapazes, nascidos de dois em dois anos até vir ela.

Ainda em São Paulo, Jeny formou-se em Contabilidade não por aspirar a altos cargos – estudar não era com ela – e sim porque o pai repetia que filhos seus tinham de fazer uma licenciatura, no mínimo. “Ele falava que eu devia saber gerir meu património, então praticamente escolheu o curso por mim”, diz, mais pacificada agora do que na altura, em que acatou de dentes cerrados. “Nunca repeti na universidade, mas tirava sempre tudo rente, a passar com alguma pendência.” Escusado será dizer que hoje em dia é ela a primeira a insistir que os jovens não podem andar por aí sem estudos se não quiserem ser cilindrados. Ao menos uma licenciatura. Que vão para fora estudar línguas.

Adriana está a ajudar a reescrever a história dos refugiados

“A viver no estrangeiro a gente aprende a se virar num instante. Aconteceu comigo, não há que ter medo”, adianta Jeny Chen, habituada ao improviso. A sua última vez à nora com uma língua estranha foi quando ponderou voltar a Taiwan, depois de 22 anos no Brasil, e acabou a morar em Nova Iorque. “Em 1988 o meu pai sugeriu essa parada, dizendo que a cidade era parecida com São Paulo mas mais organizada, moderna, linda. Podia ir lá espreitar, ficar com uns amigos dele, e daí seguir para uma temporada maior em Taiwan como tinha planeado”, recorda a migrante. Quando deu por si estava a trabalhar num restaurante japonês e metida em três cursos de inglês em simultâneo para aprender a falar. Ainda hoje está para perceber como um stop de poucas semanas virou residência por dois anos.

“Na verdade, adorei Nova Iorque e acabei ficando, ficando, ficando”, diz. Só saiu em 1990 porque o marido (então namorado) foi convidado a trabalhar numa multinacional de consultoria em Lisboa. “Ele veio na frente por seis meses, com emprego, casa, carro da empresa.” A dada altura, ou ele renunciava a tudo para ir ter com ela ou vinha Jeny para cá. Óbvio que quis logo conhecer Portugal, não sabe se por feitio se por força das circunstâncias. “De novo não planeámos muito as coisas: aconteceram. Entretanto o meu voo foi cancelado, atrasou-se dois dias e calhou eu chegar exatamente na passagem de ano”, ri-se.

Diziam que o meu currículo era muito acima do cargo de secretária que eu estava pedindo – que era o que já tinha feito antes em Nova Iorque e no Brasil, estava à vontade -, então demorei uns quatro meses a arranjar trabalho.”

Foi mais uma coincidência, como tudo na sua vida. Nesse mesmo 1991, após os embates linguísticos de Nova Iorque e São Paulo, Jeny sentiu que a adaptação ao país foi quase pecado. “Andava pela Câmara de Cascais a resolver questões de residência, vendo tantos imigrantes sem conseguirem comunicar, e descobri que apesar das diferenças de sotaque entendia perfeitamente os portugueses”, recorda a taiwanesa. A grande dificuldade que teve foi conseguir o primeiro emprego: “Diziam que o meu currículo era muito acima do cargo de secretária que eu estava pedindo – que era o que já tinha feito antes em Nova Iorque e no Brasil, estava à vontade -, então demorei uns quatro meses a arranjar trabalho.”

“Costumo dizer que sou uma ucraniana portuguesa. Nunca me senti estrangeira aqui.”

Acabou por ser um colega do marido a ver no jornal um anúncio de um consórcio de construção civil, em que uma das empresas era brasileira, a pedir uma pessoa com as características dela: falante de português e inglês, com experiência no estrangeiro e o Brasil no coração. “Tornei-me tão viciada no trabalho que sinto não ter estado presente como gostaria para o meu filho mais velho, hoje com 21 anos e a tirar Engenharia na Escócia”, confessa. Ao nascer-lhe o segundo rapaz (já com os 17 e a ponderar também ir estudar fora), Jeny retirou-se aos poucos para cuidar deles. Uma pessoa está sempre a aprender a ser feliz.

“Podemos falar das migrações como um fenómeno, mas não são simplesmente um fenómeno. Dizem respeito a seres humanos”, aponta Luís António Tagle, arcebispo de Manila e presidente da Caritas Internationalis. Por ele, é sempre melhor falar-se de migrantes – gente igual a nós – em vez de migrações – um mero conceito: “Como pessoa, cada migrante tem uma história, sonhos, desejos, aspirações para os filhos e a própria vida”, diz.

“Acho que alguns imigrantes são mal recebidos por desconhecimento. Muda tudo quando nos pomos do lugar do outro”, afirma a taiwanesa

A sua presença é um convite, de facto, a recuperarmos algumas dimensões essenciais da nossa humanidade entorpecida, sublinhava o Papa Francisco na celebração anual da Jornada do Migrante e Refugiado 2019: “Cuidando deles, todos crescemos. Escutando-os, damos voz àquela parte de nós que talvez mantenhamos escondida por não ser bem-vista.” Daí Jeny Chen aceitar escrever para o livro Mala da Partilha – Testemunhos de Vida de Migrantes (Cáritas 2019), no âmbito da campanha da Caritas Internationalis Partilhar a Viagem. Há muita beleza nesta sensação de estar em casa na Parede, com a família, a ver o mar da janela do quarto e a morrer de saudades se as férias no Brasil se prolongam demasiado.

“Acho que alguns imigrantes são mal recebidos por desconhecimento. Muda tudo quando nos pomos do lugar do outro”, afirma a taiwanesa, sempre pronta a ajudar gente em apuros: “O meu marido diz que tenho a mania de pegar problemas alheios, mas se um dia essa pessoa socorrer alguém aflito, o mundo anda.” Pelo caminho, Jeny faz ainda a sua parte como voluntária da Cáritas, num lar perto de casa nos Jardins da Parede, levando os idosos a passear ou às consultas no médico. “Também gosto muito de crianças, mas aos mais velhos não se dá tanta atenção e acabam indefesos, que é algo que ninguém devia sentir.” Para planeta sem atmosfera bem basta Mercúrio, não vamos nós piorar.

 

Mala da Partilha

Por Filipa Abecassis (coordenadora do livro Mala de Partilha)

No âmbito da Campanha da Caritas Internationalis Partilhar a Viagem, lançada pelo Papa Francisco em 2017, sob o mote de acolher, proteger, promover e integrar os migrantes e refugiados, foram promovidas diversas atividades a nível nacional. Estas pretendiam criar oportunidades para o diálogo e para uma cultura do encontro entre pessoas e organizações. A Cáritas Portuguesa, em parceria com a Obra Católica Portuguesa de Migrações, convidou Cáritas diocesanas, secretariados diocesanos de migrações, entidades públicas, autarquias, organizações da sociedade civil, associações de migrantes, empresas, universidades e escolas a participarem ativamente nesta promoção do encontro.

Nesta viagem, e para criar pontes de diálogo entre várias entidades, colaboradores e voluntários e fomentando a proximidade com migrantes e refugiados, a Partilhar a Viagem apelou à partilha de testemunhos sobre a viagem migratória.

Desta iniciativa nasceu o livro Mala da Partilha – Histórias de Vida, publicado em 2019, no sentido de continuar a promover o envolvimento das comunidades locais e migrantes, através da partilha de histórias de vida. Dando voz aos migrantes, que dão a conhecer as experiências migratórias pessoais, de imigração e de emigração, procurou-se de forma ativa combater a globalização da indiferença com a globalização do encontro.

No livro, embarcamos nesta viagem e percorremos o país com a Mala da Partilha, através de 71 testemunhos pessoais de vida de emigrantes, imigrantes e refugiados de todas as idades, cinco dos quais pode nos próximos dias na edição online do Diário de Notícias.