Moçambique e as crianças

Moçambique vive uma tragédia que não deixa ninguém indiferente. São centenas de mortos e milhares de desaparecidos, numa imagem de dor, destruição e impotência que nos assola a todos. Sim, a todos.

Moçambique está lá longe, mas apenas do ponto de vista geográfico. Porque todos nós sentimos que é aqui ao lado, que podia ser a nossa casa, os nossos filhos, as nossas vidas. Imaginamos como seria se fosse connosco e, ao fazer este exercício imagético, empatizamos.

Empatizar com o outro é fundamental para activarmos processos de ajuda. Mobilizamo-nos com acções de voluntariado e recolha de bens e sentimos uma gratidão profunda pelas instituições e empresas que fazem donativos.

E as crianças? Devemos protegê-las desta realidade? Terão elas recursos para lidar com algo assim?

Apesar de esta ser uma realidade muito dolorosa, é a realidade. E as crianças devem crescer com a noção da realidade. Ou queremos crianças que acreditam que a vida é cor-de-rosa? Queremos crianças que acreditam que o mundo é sempre justo? Queremos crianças que acreditam que os problemas se resolvem por magia?

Por mais que os pais pensem que protegem os seus filhos, a verdade é que crescer em redomas de vidro não garante qualquer tipo de protecção. É uma falsa protecção, que ilude quem nela acredita. Mais cedo ou mais tarde, estas crianças terão de abandonar a sua redoma e fazer-se à vida, deparando-se, então, com a ausência de ferramentas para enfrentar as adversidades.

Por outo lado, sabemos que a exposição a uma realidade assim, ainda que à distância, pode assumir contornos de uma vivência traumática. A chamada traumatização vicariante das vítimas indirectas, por observação e exposição ao evento.

Como conseguir, então, um equilíbrio entre estas duas questões? Explicar a realidade às crianças, por mais negativa que possa ser, sem que esta se transforme numa vivência traumática?

Em primeiro lugar, as crianças devem receber uma explicação adequada à sua idade e nível de desenvolvimento, ao mesmo tempo que se filtram as imagens a que são expostas. Ver imagens de corpos a boiar num rio, cadáveres uns em cima dos outros ou crianças aos gritos, desesperadas por ajuda, em nada contribui para que a criança compreenda a realidade de uma forma ajustada.

Sabemos também que tomar conhecimento destas catástrofes tende a aumentar a ansiedade e os sentimentos de impotência, diminuindo a sensação de controlo. Afinal de contas, uma catástrofe natural pode ser completamente imprevisível, e esta imprevisibilidade é assustadora. Confesso que já chorei em frente à televisão.

Neste contexto, ajudar as crianças a identificar estratégias de ajuda parece ser uma boa opção. No fundo, “fazer alguma coisa” é algo que podemos controlar. Perante uma realidade que não se pode controlar no passado.

Assim sendo, façamos nós e incentivemos as nossas crianças a fazer alguma coisa.

O quê? Deixo à consideração de cada um.

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