Monja Coen: «Buda, se fosse vivo, estaria nas redes sociais»

Tem 71 anos e uma gargalhada sonora. Toda ela é energia positiva, alguma impaciência, que ainda não conseguiu domar, e tranquila sabedoria. Nasceu Cláudia Dias Baptista de Souza, em São Paulo, numa família católica com ascendentes portugueses, estudou em colégio de freiras, casou com 14 anos, foi mãe aos 17, divorciou-se, fez-se jornalista, rebelou-se, viveu os anos de chumbo da ditadura brasileira. Assentou, foi funcionária do Banco do Brasil em Los Angeles e pelo caminho encontrou o budismo e a meditação, que a levaram ao Japão, já ordenada Monja Coen [círculo perfeito]. Esteve oito anos no Mosteiro Feminino de Nagoya e mais uns quantos no país onde nasce o sol. Voltou ao Brasil e ficou à frente do Templo Busshinji, até sair em 2001. Hoje, mãe, avó e bisavó, dirige uma comunidade Zazen, em São Paulo, tem um canal no YouTube, escreve livros e faz palestras em todo o mundo, sobre como a meditação e o budismo podem ajudar a enfrentar a viver melhor.

Entrevista de Catarina Pires | Fotografia de Paulo Spranger/Global Imagens

O título do seu último livro é O Sofrimento é Opcional. É mesmo? Ou faz parte da vida?
A dor existe, a insatisfação existe. O ensinamento de Buda começa pelas quatro nobres verdades e a primeira é dukkha, a insatisfação. Há causas para a insatisfação, mas existe um estado, chamado Nirvana, de paz e tranquilidade, e há um caminho de prática que nos leva a esse estado. O que eu digo é que a dor existe, mas não se pode ficar mergulhado nela. A vida nos dá flechadas, mas você não pode ficar espetando mais flechas na ferida, ficar só se queixando de como dói. Isso é ego, é o que Freud chamou de ego. Tem uma senhora em São Paulo, cuja filha morreu, com um tumor no cérebro – claro que é doloroso – e ela me diz: «Monja, eu não posso esquecer minha filha, como posso sorrir e viver a minha vida se minha filha morreu?». E eu respondo: «sua filha morreu, mas a senhora tem marido e filho, enterra a sua filha que morreu, agradece os anos que viveu com ela, e deixa ela ir para o lugar de luz e não fica puxando ela, porque tem saudade, porque não vive sem ela, isso é egoísmo».

Não é fácil.
Não. A dor existe: a dor de perder um filho, de um diagnóstico grave, de um amigo que é um traidor, de no seu local de trabalho não ter reconhecimento ou ter abusos, mas você não fica se lamentando, tem que perceber o que fazer para que seja diferente, como é que atua no mundo, como é que muda as coisas, sem ódio, sem raiva e sem afundar na tristeza. Problemas existem, dificuldades existem, mas ficar sofrendo por isso é extra. Você pode fazer essa opção: eu não vou sofrer. Sente a dor, percebe como ela é, mas se questiona como a transforma.

Depressão é uma doença, que pode ser tratada. E a meditação pode ajudar a pessoa a perceber o estado em que está. Às vezes é preciso tomar um salzinho, o cérebro está precisando de um salzinho, temporariamente até levantar de novo.

E como é que se faz isso?
Respiração consciente é a primeira coisa a fazer. Tudo o que mexe connosco e nos comove altera o processo respiratório. Alegrias e tristezas fazem-nos respirar aqui em cima. Tem que começar a trabalhar o seu corpo e a sua respiração e procurar ajuda. Quando uma pessoa está triste por mais de uma semana, ela precisa de ajuda, disse-me recentemente um psicólogo. Se começa a isolar-se, a fechar-se em casa, a não querer ir para a escola ou para o trabalho, precisa de ajuda antes que entre nesse vórtice depressivo e não consiga sair. Tem que procurar ajuda profissional, e não é a família dizer que está com preguiça, não é preguiça, depressão é uma doença, que pode ser tratada. E a meditação pode ajudar a pessoa a perceber o estado em que está. Às vezes é preciso tomar um salzinho, o cérebro está precisando de um salzinho, temporariamente até levantar de novo. Tem fases que tem que se atravessar. O processo meditativo ajuda a perceber os sintomas e a procurar ajuda antes de cair no abismo mais profundo. Se praticar meditação, torna-se presente no seu corpo, sentir o corpo e as sensações, respirar conscientemente, tomar consciência de si é essencial.

Não apresenta a meditação e o budismo como remédio para todos os males, portanto.
Não, não é um milagre. A meditação não cura doenças, não cura a depressão. Isso é muito importante dizer. Não é um remédio. E tem que ter orientação. Mas ajuda a encontrar o caminho para uma vida mais plena.

Nosso tempo de vida é tão curto – 100 anos, no máximo – e o que você faz com isso? Por que é que não aprecia? Por que é que reclama, xinga, grita, cria tantos desafetos, em vez de apreciar a vida?

Quais são os ensinamentos do budismo e da prática meditativa?
Que nós somos um só corpo, uma só vida, com tudo o que existe. E temos que cuidar. Somos corresponsáveis pela realidade em que vivemos. Não é culpar o outro ou o passado ou o futuro, é o que fazemos, porque nós somos a trama da existência. O que nós dizemos, fazemos e pensamos mexe na trama da nossa vida e que é a vida de todos nós. Então, cada um de nós que desperta – seja qual for a tradição espiritual – e veja a verdade como ela é, os ensinamentos verdadeiros, é alguém que não vai fazer o mal, que não vai querer matar ninguém, destruir nada, pelo contrário, vai pensar: como é que eu facilito para que o maior número de seres desperte, fique bem, seja feliz. Nosso tempo de vida é tão curto – 100 anos, no máximo – e o que você faz com isso? Por que é que não aprecia? Por que é que reclama, xinga, grita, cria tantos desafetos, em vez de apreciar a vida?

É tão claro isso. Como é que tanta gente não percebe?
Sim. Então, a minha mensagem é aprecie a sua vida, viva com plenitude, faça o seu melhor, seja excelente no que faz, aumente a sua potência como ser humano sendo excelente. Fazer mais ou menos não serve, deixar para amanhã não serve, é no agora que você se manifesta, seja qual for a sua função, numa empresa, na casa, na família, seja excelente. «Amanhã faço melhor». Não, não tem amanhã, não sabemos se temos amanhã, então a pessoa tem que procurar a presença absoluta, estar inteiro onde está, não estar dividido… Estou falando com você e vendo televisão e olhando o telemóvel, isso não dá certo, não funciona. Tem que treinar foco, isso é tudo treino da mente humana. Conhecer a mente para poder usá-la melhor, para escolher o que você quer treinar.

Recentemente, Monja Coen visitou Lula da Silva na prisão. «Fiquei uma hora inteirinha com ele, meditei com ele. Mas as pessoas ficaram furiosas comigo, me xingando. Nem liguei.»

Tem um canal no YouTube, faz palestras pelo mundo, escreve livros. Consegue passar a mensagem?
É isso que procuro fazer. Não é para ficar quietinha no seu canto meditando. Se Buda estivesse vivo, estaria nas redes sociais. Porque ele caminhava para divulgar a sua mensagem, as pessoas chamavam, as pessoas queriam ouvir. Não se trata de evangelização, as pessoas chamavam Buda, como eu sou chamada. Eu nunca escrevi um livro para propor a uma editora, é o contrário, a editora é que me pede. Isso faz toda a diferença. Eu nunca vou numa empresa e peço para fazer uma palestra. São eles que me chamam… O que eu percebo, e que é mais ou menos o caminho do budismo, é que quando há necessidade ele é chamado.

Eu tenho encontrado pessoas que chegam para mim e me dizem: «Monja, a senhora me salvou. Eu estava em depressão e saí por sua causa» ou «eu ia-me matar e não matei por sua causa».

As novas tecnologias e as redes sociais facilitam a transmissão da mensagem, mas não acentuam também a falta de foco, o egocentrismo, a superficialidade?
Ela funciona dos dois lados, é uma faca de dois gumes. Eu tenho encontrado pessoas que chegam para mim e me dizem: «Monja, a senhora me salvou. Eu estava em depressão e saí por sua causa» ou «eu ia-me matar e não matei por sua causa». Conheci um homem que me disse: «eu ia matar uma pessoa e não matei por sua causa». Então, temos uma rede social que está trabalhando de forma diferente, está trazendo consciência e perceção, mas também tem as redes sociais que levam jovens a cometer suicídio, que estimulam o ódio e a raiva entre as pessoas e levam ao extremar de posições, como está acontecendo agora no Brasil. Por isso, eu penso que as redes sociais são neutras, nem negativas, nem positivas. Tem a ver com a forma como as utilizamos.

Hoje é dia de eleições no Brasil. Como vê este momento do seu país?
Eu visitei o presidente Lula na prisão, porque toda a segunda-feira um líder religioso é convidado a visitá-lo na prisão. Foi uma alegria. Para mim é um herói, uma pessoa que nasceu numa zona de tanta pobreza e é tão inteligente, tão capaz. Fiquei uma hora inteirinha com ele, meditei com ele. Mas as pessoas ficaram furiosas comigo, me xingando. Eu fiquei nem aí.

Bolsonaro representa um grupo de pessoas, ele é um pensamento que estava escondido e que as pessoas agora estão revelando. Que pena, não é? A gente pensava que estava indo tudo tão bem, que as pessoas estavam desenvolvendo uma consciência mais ampla, de si e do mundo.

Viveu a ditadura militar, como vê a possibilidade de eleição de um homem que defende a ditadura militar, que é racista, homofóbico, misógino, machista e por aí fora?
É lastimável. Mas eu acho que tudo no mundo tem um vem e vai. Me parece que, neste momento, não é só o Brasil que está passando por isso, é o mundo todo. Há o ressurgimento do militarismo, do nacionalismo, do fascismo, o neo-nazismo, mas porquê? Porque a democracia liberal não cumpriu com aquilo que se esperava e então houve um desapontamento e, quando aparecem estes discursos radicais, ganham terreno. Ontem uma senhora brasileira aqui em Portugal dizia que ia votar Bolsonaro porque ele não era corrupto. Ai que medo. Que ilusão. Ele que falou tantas coisas feias, insultou mulheres, indígenas, negros, homossexuais, é um homem tão cheio de preconceitos e discriminações e violência. Ele representa um grupo de pessoas, ele é um pensamento que estava escondido e que as pessoas agora estão revelando. Que pena, não é? A gente pensava que estava indo tudo tão bem, que as pessoas estavam desenvolvendo uma consciência mais ampla, de si e do mundo, uma inclusão maior, e de repente vem uma força contrária e que é muito poderosa porque tem um grande número de seguidores e significa o quê? Que estão muito insatisfeitos consigo mesmos. Porque o Brasil no tempo do presidente Lula foi um período maravilhoso, só cresceu e eles ficaram com muita raiva e então começaram a falar mal e interessou a alguns isso, a destruição de um homem que estava a fazer a diferença em termos sociais no Brasil.

Há famílias, no Brasil, com empregados internos, que dormem lá e têm meia folga por semana, é uma autêntica escravatura e era com isso que o presidente Lula estava acabando, tem que ter férias, não pode trabalhar mais do que oito horas por dia, tem que ter 13º mês.

Lula era também um pensamento. Uma ideia diferente de Brasil?
Sim, e eu tenho mais afinidade com o presidente Lula e um pensamento social do que com um pensamento elitista. Minha mãe trabalhava fora, era pedagoga, e com isso eu ficava em casa com as moças que trabalhavam lá, mulheres simples, e criei uma relação de grande afeto com essa classe trabalhadora e explorada, que não pode ser tratada como é. Há famílias com empregados internos, que dormem lá e têm meia folga por semana, é uma autêntica escravatura e era com isso que o presidente Lula estava acabando, tem que ter férias, não pode trabalhar mais do que oito horas por dia, tem que ter 13º mês, e tudo isso para mim é muito importante. [Aparece Haddad, o candidato do PT, na televisão] Esse daí foi um grande prefeito de São Paulo. É um educador. Um homem de uma inteligência e bondade enormes e estão sempre colocando mentiras sobre ele.

Eu não acredito em luta, eu acredito em construção e transformação. Nós não estamos lutando por alguma coisa, estamos construindo uma cultura de não violência.

Não tem medo do que pode acontecer?
Medo porquê? Não. Tudo se transforma. Nada é permanente. Nós tivemos aquela ditadura tão medonha. Muitos amigos meus foram presos, torturados, mortos. Vim a saber depois de um grande amigo meu, que foi até namoradinho, que era daqueles que não delatava (agora delação é bonito, mas naquela altura era feio), quebraram-lhe as duas pernas, deram-lhe tantos choques na língua que ele não aguentou mais e quando ele morreu puseram o corpo dele em frente das celas dos colegas para eles verem o que os esperava. Foi muito horrível. A própria Dilma Roussef foi torturada. Então, eu não sou a favor de nenhum governo ditatorial nem de direita nem de esquerda nem de lado nenhum.

Como se luta contra isso?
Eu não acredito em luta, eu acredito em construção e transformação. Nós não estamos lutando por alguma coisa, estamos construindo uma cultura de não violência, não vou lutar contra a violência, porque assim estou sendo tão violento como… Por isso, acho que devíamos deixar de sair de mãos fechadas e sair de mãos abertas. As manifestações públicas têm que ser mais de mãos abertas.

Qual é o papel do budismo neste campo?
Criar a perceção do que está acontecendo e de como você atua para minimizar a dor e o sofrimento. Fazer que as pessoas percebam, não sejam manipuladas, fazer que despertem e desenvolvam a sua capacidade de discernimento correto, do que está acontecendo, do que está por detrás disso.

Estamos num momento de crise política, depois de outro que parecia muito auspicioso. Estávamos tendo uma expansão de consciência e de repente veio a reação, mas a reação é pequena face à grandeza da maioria. A reação é a minoria, apesar de ter a sua voz amplificada. É na maioria que temos que nos concentrar.

O que dá a meditação?
Respiração consciente. Perceber que é um ser iluminado e a prática de um ser iluminado é fazer Zazen, é fazer meditação, é observar a si mesmo, é fazer escolhas, nas suas falas, nos seus pensamentos, nos seus gestos, que possam levar você a ficar bem e outros a ficar bem. É a mente conhecendo a própria mente, você é que analisa você mesmo. É perceber que somos o vento lá fora, somos a planta que se move ao vento, é sair do eu menor e perceber que você é tudo o que existe, vocé é a vida do todo, o todo manifesta-se em inúmeras formas, você não é parte do todo, é o todo manifesto, porque se o todo não se estiver manifestando como é, nós não existimos. Existe um equilíbrio mágico nisto que faz que a gente seja o que é neste momento, mas a coisa maravilhosa humana é que tem, segundo os neurocientistas, cinco por cento de livre arbítrio e que nós podemos fazer pequenas escolhas, mas que são muito significativas para o nosso bem-estar e para o bem-estar coletivo. Estamos vivendo um momento de crise política no mundo, depois de outro que parecia muito auspicioso. Estávamos tendo uma expansão de consciência e de repente veio a reação, mas a reação é pequena face à grandeza da maioria. A reação é a minoria, apesar de ter a sua voz amplificada. É na maioria que temos que nos concentrar.

Monja Coen prefere falar de construção em vez de luta. «Acho que devíamos deixar de sair de mãos fechadas e sair de mãos abertas. As manifestações públicas têm que ser mais de mãos abertas.»

A vida enquanto monja budista é muito diferente da do comum dos mortais?
Eu acabo sendo um arquétipo, represento alguma coisa para as pessoas. Mas quando querem me pôr no pedestal eu recuso. Sou uma pessoa normal, que vai no supermercado, que passeia o cachorro, que limpa o cocó do cachorro, que limpa o chão, que faz comida, que briga com a monja com quem vive. Eu não vivo no mosteiro, vivo num templo, que é uma casa, dou aulas de budismo, estudo budismo e medito, fora isso, faço as coisas que as pessoas fazem. A diferença é o compromisso com os meus votos e o meu voto é prestar atenção em mim para não ser um elemento de violência ou agressão no mundo, que as pessoas possam confiar em mim que eu não vou revelar os seus segredos e que posso tentar ajudá-la a fazer escolhas conscientes, a encontrar o caminho que elas querem seguir e não o que eu quero que elas sigam e para isso tenho que estar muito bem centrada em mim. O meu trabalho é orientar pessoas nas práticas meditativas e nos estudos do budismo para que tenham uma vida mais plena. Nem é para que se tornem budistas, isso é mostrar serviço.

A primeira coisa que Buda fez quando saiu do castelo foi raspar a cabeça, para não ser identificado com a casta em que nasceu, porque não queria ser diferenciado. Esse é o princípio.

Porque é que os monges budistas rapam a cabeça?
Porque Buda rapava. Buda era um príncipe e o cabelo era um símbolo da casta (o cabelo comprido com rabo de cavalo simbolizava a casta dos nobres) e a primeira coisa que fez quando saiu do castelo foi raspar a cabeça, para não ser identificado com a casta em que nasceu, porque não queria ser diferenciado. Esse é o princípio. É o voto do desapego. (Eu usava um sabonete mais simples para raspar o cabelo até um aluno me dar um sabonete especial, ai que pecado, mas é tão cheirosinho. Passei a usar esse, que é um pouco mais caro. Então, são esses os meus mimos, isso e algumas comidas).

A sua impaciência é conhecida. Ainda não conseguiu domá-la?
Vai melhorando, a idade ajuda. Não adianta perder a paciência, porque não vai mudar nada, não vale a pena querermos que seja do nosso jeito e já. Só vai acontecer, quando o outro estiver preparado. A gente aprende a respirar e a aguardar. Mas ainda sou agitada e impaciente. São aspetos que tenho que estar sempre trabalhando.

Quando você abre a mão nela cabe todo o universo, se você se apega a alguma coisa fica preso, limitado.

Sente que muda a vida das pessoas?
Sinto. E isso eu não posso abandonar nunca. Já podia estar reformada, mas estou no meio da carreira (ri). A minha missão é fazer que as pessoas acordem, despertem, vejam quem são e o que é a realidade e como você atua para ser melhor, não melhor porque é mais confortável para mim só, mas mais confortável para todos. Se eu pensar primeiro em mim, não vai dar certo. E ainda há muita gente que pensa isso – eu, eu, eu – e esses vão sofrer muito. Quando abre mão do eu, tudo flui. Havia um monge que dizia isso que eu gosto muito: quando você abre a mão nela cabe todo o universo, se você se apega a alguma coisa fica preso, limitado.