Monty Python e o politicamente correto: ninguém espera a Inquisição espanhola

Eric Idle, John Cleese, Graham Chapman (de pé) e Michael Palin e Terry Jones (sentados) nas gravações de Educação Sexual, um dos capítulos de O Sentido da Vida.

Os Monty Python – Graham Chapman, John Cleese, Michael Palin, Eric Idle, Terry Jones e Terry Gilliam – talvez a esperassem, mas nunca a temeram ou sequer se ralaram com ela. Limites eram coisa ignorada pelos seis fabulosos, que há 50 anos revolucionaram o humor, o qual, defendem, está hoje a ser morto pelos “fundamentalismos” do “politicamente correto”. E não é de rir, como acontecia a quem ouvia a piada mais engraçada (e letal) do mundo.

Texto de Catarina Pires | Fotografia de Getty Images

De cada vez que alguém, em resposta a uma crítica, usa ironicamente a expressão “não esperava a Inquisição espanhola”, Michael Palin e dois acólitos em vestes cardinalícias vermelhas irrompem pela sala, gritando: “Ninguém espera a Inquisição espanhola.” Piada que se repete ao longo de todo um episódio da série Flying Circus (Os Malucos do Circo), que esteve no ar entre 1969 e 1974, na BBC.

É um dos míticos sketches da trupe de humoristas britânicos que tinha um americano pelo meio e vem inevitavelmente à cabeça quando nos questionamos se as piadas dos Monty Python passariam hoje no crivo do politicamente correto.

“O politicamente correto é um pouco como a avozinha ou a tia chata que chega a uma festa onde toda a gente está a divertir-se”, diz John Cleese.

Há uns anos que esta pergunta tem vindo a ser feita, até aos próprios, com alguma insistência. Em 2016, numa entrevista à australiana ABC, John Cleese e Eric Idle foram questionados sobre se seria possível hoje o que fizeram há 50 anos e eles – que já contaram a história de como os executivos da BBC lhes deram carta-branca para um programa de 13 episódios sem saberem (nem os executivos nem eles próprios) o que estava para vir – responderam que provavelmente não.

“Até nós, no Live at O2 [em 2014], cortámos uma piada por causa do politicamente correto”, lembra Eric Idle na mesma entrevista. “Qual?”, pergunta John Cleese. “A da corrida de cem metros para surdos que ficam parados quando o árbitro dispara o bang de partida. Era uma piada que teve graça no seu tempo, mas achámos que era rir de uma deficiência. Não era justo. Não era uma piada que as pessoas surdas pudessem apreciar”, diz Idle. “Eu gostei e sou surdo”, responde Cleese. “Mas tu escreveste-a, f****”, diz Idle, concluindo que há piadas que eles próprios repensariam hoje.

John Cleese, sempre mais aguerrido quando se trata de defender a sua dama e mais crítico da evolução atual do conceito de politicamente correto, não está tão certo disso.

“Não quero magoar as pessoas. Teria de avaliar caso a caso. Mas o politicamente correto é um pouco como a avozinha ou a tia chata que chega a uma festa onde toda a gente está a divertir-se e faz que de repente fiquem todos muito direitos e autoconscientes e a portar-se como deve ser. Tem de haver liberdade e espontaneidade no humor e isso implica gozarmos uns com os outros. Não se trata de maldade, o gozo maldoso corta-se. Há certas piadas racistas que eu não diria, porque são apenas más e não têm graça”, diz Cleese.

Michael Palin chegou a pedir desculpa a Carol Cleveland, que diz sempre ter sido tratada como igual pelo bando, por não lhe terem sido dados melhores papéis.

Racismo não é uma das principais queixas contra os Monty Python, apesar de se fartarem de gozar com franceses, alemães, escoceses, irlandeses e por aí fora. Talvez porque, antes de mais, sempre tenham gozado consigo próprios, ingleses.

Mulheres com pouca roupa e homens vestidos (e também despidos) de mulheres. Sexismo é uma das acusações de que os Monty Python são alvo hoje.

Já da acusação de sexismo não se livram. As mulheres, sobretudo nos primeiros anos do Flying Circus, encarnadas quase sempre por Carol Cleveland (que é considerada por muitos, incluindo os próprios, como a sétima Monty Python), eram todas bombas sexuais, ninfomaníacas, coquetes, de minissaia e decote generoso. Ou isso ou eles, vestidos de mulher (Eric Idle devia ganhar o prémio de melhor travesti e Terry Jones de melhor matrafona), sempre, mas sempre com voz esganiçada. Se não fosse cómico seria trágico.

Talvez seja o aspeto mais datado do humor pythonesco e Michael Palin chegou a pedir desculpa a Carol Cleveland, que diz sempre ter sido tratada como igual pelo bando, por não lhe terem sido dados melhores papéis.

Mas se virmos com atenção, os homens também não são bem tratados pelos Monty Phyton. Terry Gilliam, o americano do grupo e responsável pelas ilustrações e animações que se tornaram imagem de marca da série e dos filmes, é capaz de involuntariamente ter explicado isso, ao comentar a questão do politicamente correto no humor, numa entrevista ao The Wall Street Journal.

Terry Gilliam confessou estar cansado de ser, como homem branco, culpado por tudo o que está errado no mundo. “Por isso, quero que, a partir de agora, me chamem Loretta. Sou uma mulher negra e lésbica em transição.”

“Sempre achei que os britânicos eram ótimos a rir-se de si próprios; os americanos são melhores a rir-se dos outros. Continuo a pensar que é verdade, mas isto está a mudar porque agora não podemos rir-nos de ninguém, tudo é motivo de ofensa.”

O realizador reagia a uma polémica criada em 2017, quando Shane Allen, responsável pela programação de comédia da BBC, disse que hoje os Monty Python “não seriam seis tipos brancos de Oxford, porque seria exigida uma diversidade de pessoas que refletisse o mundo moderno.” Graham Chapman não pôde reagir, porque está morto há trinta anos, tão-pouco Terry Jones pôde fazê-lo, porque sofre de demência, mas Gilliam, Cleese, Palin e Idle não perderam a oportunidade de responder, alguns de forma politicamente incorreta.

Terry Gilliam confessou estar cansado de ser, como homem branco, culpado por tudo o que está errado no mundo. “Por isso, quero que, a partir de agora, me chamem Loretta. Sou uma mulher negra e lésbica em transição.”

Quem não se lembra do momento, em A Vida de Brian, em que Stan (Eric Idle) declara querer ser uma mulher e que lhe chamem Loretta, reclamando o direito a ter útero e dar à luz?

John Cleese diz que aquilo que começou por ser uma boa ideia, contra a crueldade e em defesa dos que não podem defender-se, assume hoje contornos de fundamentalismo e condescendência que está a matar o humor.

À mesma polémica, John Cleese respondeu provocador no Twitter: “Injusto! Nós éramos extraordinariamente diversos para O NOSSO TEMPO. Tínhamos um maricas [poof, no original. Graham Chapman era homossexual assumido num tempo em que a homossexualidade tinha acabado de ser legalizada – leu bem, legalizada – em Inglaterra] e o Gilliam, que apesar de não ser propriamente negro, era um ianque. E nenhum dono-de-escravos”.

A diatribe de Cleese contra o politicamente correto parece ter-se acentuado depois desta polémica. Em várias entrevistas diz que aquilo que começou por ser uma boa ideia, contra a crueldade e em defesa dos que não podem defender-se, assume hoje contornos de fundamentalismo e condescendência que está a matar a liberdade e a criatividade inerentes ao humor, que do seu ponto de vista é sempre crítico.

Vendo ou revendo dezenas de sketches de Os Malucos do Circo, A Vida de Brian, O Cálice Sagrado ou O Sentido da Vida, mais do que as cenas datadas, que hoje provocam mais incómodo do que gargalhadas, sobressaem aquelas que são muito à frente.

Michael Palin, entrevistado por Ricardo Araújo Pereira em Viseu, em dezembro de 2017, concordou com o companheiro de trupe. “Acho que [o politicamente correto] está a impedir o desenvolvimento da comédia. Estamos todos a fazer coisas de que temos vergonha e a comédia é uma forma ótima de falar sobre essas coisas e de lidar com elas. São tempos diferentes daqueles quando escrevíamos comédia em 1969, em que tudo era um alvo em aberto. Olhando para os Python hoje, há provavelmente todo o tipo de coisas que seriam totalmente politicamente incorretas. O que é estranho é que as pessoas ainda se riem delas, ainda veem os programas, e não houve nenhuma insurreição civil, nenhuma grande religião encerrou por causa disso”, disse, citado pelo Público.

A verdade é que, vendo ou revendo dezenas de sketches de Os Malucos do Circo, A Vida de Brian, O Cálice Sagrado ou O Sentido da Vida, mais do que as cenas datadas, que hoje provocam mais incómodo do que gargalhadas, sobressaem aquelas que são muito à frente (e que há 50 anos eram inconvenientes e incómodas).

O problema do rato [The Mouse Problem], em que um homem conta como descobriu que gostava de ser vestir de rato e comer queijo e como isso foi difícil e que pode ser interpretada como uma crítica à homofobia vigente (então e ainda).

A cena final do parto, que é em si uma sátira à prática médica, em O Sentido da Vida, quando a mulher pergunta se é menino ou menina e o médico [Graham Chapman] responde: “Não comece já a condicionar a criatura”.

O pai de não sei quantas centenas de filhos, que depois de perder o emprego na fábrica chega a casa e diz que tem de os vender para experiências científicas e começam todos a cantar uma das melhores canções dos Monty Python – Every Sperm Is Sacred -, criticando o facto de a Igreja Católica não permitir o uso de preservativos.

A aula de educação sexual com sexo ao vivo ou o transplante de fígado de pessoas vivas, também em O Sentido da Vida.

Os camponeses anarcossindicalistas que enfrentam e questionam o rei Artur sobre a monarquia, a democracia e a liberdade numa hilariante cena do filme Monty Python e o Cálice Sagrado.

Podia continuar, porque de falta de produtividade não se pode acusar este bando, mas não há espaço. Quem puder, reveja. E pense. Mas sem morrer de rir.