Morreu um amigo e não podemos abraçar a mulher dele. Nem abraçar-nos uns aos outros

Ele quereria risos mais do que choros. Beijos e abraços. Copos. A celebração da vida e os amigos, que são muitos, todos juntos nela. Mas os tempos que vivemos, fechados em casa, proibidos de tocar, beijar, abraçar, obrigam-nos a adiar um até amanhã como deveria ser. Que adeus é possível nestes tempos de covid-19?
Texto de Catarina Pires | Fotografia de i-Stock

A morte não o apanhou de surpresa, nem a ele nem aos amigos. Mas veio na pior altura, se é que há melhores alturas para morrer. Em vez das centenas de pessoas que certamente se juntariam para lhe dizer até amanhã e fazer um brinde à vida que deixou e ao homem que foi, serão só os mais íntimos dos íntimos a estar lá, menos do que os dedos de uma mão, no momento em que for cremado. A festa – ele aprovaria a palavra festa – fica adiada, mas está prometida. E será cumprida.

O que aconteceu com o meu amigo, cuja morte nada teve que ver com a covid-19, está a acontecer, todos os dias, em todo o país, desde que foram cerradas fileiras contra o novo coronavírus. Para evitar aglomerados e o contacto físico inevitável quando queremos expressar pesar e confortar a dor de quem gostamos, e vice-versa, a bem da saúde pública, os velórios, funerais, enterros e cremações, são, neste momento, cerimónias breves e restritas aos mais próximos, que são aconselhados a manter o distanciamento social.

Mas a psicóloga Ana Moniz considera muito importante que não se prescinda do ritual, apenas se adie. “Seja um almoço de convívio ou uma missa, no caso dos crentes, é fundamental que fique no horizonte, para se fazer quando for possível, porque um luto saudável precisa desse momento de despedida, de sentirmos que acompanhámos a pessoa até ao fim e que estamos acompanhados. Os rituais ajudam-nos a ficar em paz”, diz.

A pandemia de covid-19, que chegou a Portugal no dia 2 de março, levou à declaração do estado de alerta no dia 13 e do estado de emergência no dia 18, e até ao momento (20 de março) soma 1020 infetados e seis mortos, obrigou-nos, na tentativa de a travar, a inúmeras mudanças bruscas de vida – isolamento, fecho de escolas, encerramento de diversos estabelecimentos comerciais, teletrabalho para quem pode trabalhar de casa, etc. E também a mudar a forma como nos despedimos das nossas pessoas quando morrem, do que quer que seja.

Há já duas semanas, de acordo com Vítor Teixeira, presidente da Associação dos Agentes Funerários de Portugal, que velórios e funerais são realizados de acordo com as recomendações da Direção-Geral de Saúde. “Mesmo antes de ter sido declarado o estado de alerta e o estado de emergência, começámos a pedir às famílias que restringissem ao mínimo o número de pessoas presentes e estas têm respondido ao apelo de forma muito cordata e responsável”, diz o dirigente, acrescentando que muitas têm mesmo prescindido do velório.

A covid-19 levou também a Igreja Católica a suspender a celebração de missas, mantendo a realização de funerais, com limitação à participação dos familiares mais próximos. Segundo a agência Ecclesia, a orientação mais comum, no caso dos funerais, é a de reservar um espaço para o velório, apenas no dia do sepultamento, seguindo as normas de proteção individual, sem abertura do caixão e o “rito inclui apenas a Última Encomendação e Despedida (sem Missa) conforme o Ritual das Exéquias, seguindo o féretro para o cemitério, sem o habitual cortejo fúnebre”.

São medidas necessárias, de proteção, mas têm e terão consequências e é fundamental pensar nelas. Em muitos casos, nestas últimas semanas, quando quem morreu estava hospitalizado, por exemplo, é provável que mesmo os mais próximos não tenham podido estar presentes nos últimos dias, visitar, segurar a mão, cuidar, dado que as visitas em hospitais e lares foram restringidas ou mesmo canceladas.

Ana Moniz é psicoterapeuta, especialista em situações de luto.

A psicóloga Ana Moniz não tem dúvidas de que estas limitações têm um impacto em quem tem um luto para fazer.

“Antes de mais é muito importante não deixar que a culpa tome conta das pessoas. Há que fazê-las perceber que são circunstâncias que não dependem delas”, diz, chamando a atenção para outra coisa fundamental nestes tempos estranhos e atípicos, “em que estamos monofocados nesta ameaça, em modo de sobrevivência: não perder a empatia”.

O medo tem uma função adaptativa, que nos leva a fazer o que é preciso fazer para nos preservarmos, mas um estado de alerta constante pode levar-nos a perder de vista o outro e as suas necessidades, explica a psicóloga.

“Há lutos que vão ser adiados porque as pessoas estão como que anestesiadas e isso pode ser perturbador mais à frente. Por outro lado, quando nos morre alguém temos tendência a isolar-nos, mas agora o isolamento é imposto e por isso pode ser mais pesado. Temos que fazer as redes de apoio funcionar. Telefonar. Estar presentes, como pudermos. Levar comida. Cuidar. Não deixar que o outro faça o luto sozinho. Porque isto só se vence se nos mantivermos juntos e não em piloto automático, dominados pelo medo”.