Morreu um dos nossos. E agora, fica tudo igual?

«JÁ SABES? MORREU A ANA.» Em quarenta anos, pou­cas vezes tive de dizer ou escrever isto. Não sei que voltas são essas que a vida dá, que não me costuma calhar a lo­taria de ser o mensageiro da morte de alguém. Tirando uma vez, que me valeu por todas por ser alguém tão pró­ximo – um dia serei capaz de escrever sobre isso –, creio que me recordo de todas as ocasiões em que dei notícias destas. Normalmente recebo-as.

A ÚLTIMA FOI HÁ UMA SEMANA. Morreu a Ana e fui eu que enviei a mensagem a uma amiga com quem tinha fa­lado sobre ela, a própria Ana, há meia dúzia de dias. Mor­reu a Ana e fui eu que escrevi o sms, depois de saber, pelo grupo fechado que temos no Facebook, só com colegas de faculdade. Morreu a Ana e, naqueles minutos de uma viagem de metro, agarrado ao telemóvel, entre a Baixa–Chiado e o Marquês de Pombal, tentei lembrar-me da úl­tima vez que nos vimos. Tinha sido num desses jantares de curso, regados a vinho e a gargalhadas. Não a via há alguns anos, tal como não via o Gualter, a Cláudia, a Pa­trícia, o Alexandre, a Sofia ou o Nuno. Fizemos conversa de circunstância mas também falámos de coisas sérias. Dos anos que tinham passado, do que fazíamos, de uns que tinham mais quilos e de outros que tinham menos cabelo, deste que espera um filho, daquele que vai a ca­minho do segundo, do outro que já tem três. Falámos de tudo e de nada e, quando os assuntos acabaram, fomos falar de tudo e de nada para outro canto da mesa, com outras pessoas.

A HISTÓRIA É VELHA. A internet está cheia de relatos des­tes. Amigos com quem vamos adiando encontros, irmãos com quem cortámos relações, vizinhos que deixámos de ver, colegas de que sentimos falta. E nada fazemos até ao dia em que sabemos que morreram. E lá vem a chapada, o murro no estômago, o calduço. Lembrei-me disso na manhã do funeral da Ana, à medida que íamos chegando.

EU NÃO ERA ÍNTIMO DA ANA. Há pessoas com quem nos damos mais, outras menos, não é bom nem é mau, é as­sim mesmo. Não temos o mesmo grau de amizade com toda gente que passou pela nossa vida e com a Ana em particular havia quem fosse bem mais próximo dela. E, no entanto, morreu um dos nossos. Morreu uma pessoa com quem crescemos um pouco. Já cá não está, já não po­derá falar dos professores, do emprego, da crise, de tudo e de nada. A Ana já não vai a mais jantares. Não porque vai sair tarde do trabalho. Ou porque tem questões de fa­mília para resolver. Ou porque foi para fora. Ou porque não lhe apetece. A Ana já não está cá. E se isso não nos faz arrepiar caminho, se isso não nos faz pôr os pés à pare­de e pensar que se calhar andamos acelerados de mais – de mais até para matar saudades –, então não sei o que fa­ça. Nem quando Robin Williams, o eterno professor de O Clube dos Poetas Mortos, se suicidou resolvemos desa­celerar. Eu não abrandei. Vocês abrandaram? É que is­so de aproveitar o dia e sugar o tutano da vida é giro mas é uma canseira dos diabos para pôr em prática. Viver ca­da dia como se fosse o último fica bem num post do Face­book foleiro, mas se levamos a coisa à letra não fazemos mais nada. E ainda acabamos despedidos.

AINDA POR CIMA ELE ESTAVA DISTANTE, a América é longe para burro. Mas a Ana… A Ana estava perto. Di­zem que só se morre verdadeiramente quando morrem todas as pessoas que têm memória de nós. No próximo mês, para preservar isso, vamos jantar. Aproveitaremos para celebrar 21 anos do início do curso e, se tudo cor­rer bem, alguns de nós acabarão bêbedos. Outros talvez chorem. E vamos acabar a ter pena de não fazer aquilo mais vezes. Por outros motivos.