Na Amareleja, cuida-se de quem se ama

A crónica de hoje é escrita em jeito de homenagem. Homenagem às gentes da Amareleja, terra de onde descendo. Sim, a mesma Amareleja de que fala o Herman José nos seus programas de humor, e também aquela que abre os noticiários quando a temperatura sobe até valores nunca antes vistos. E é nessas alturas que a Amareleja, perdida em terras alentejanas coladas a Espanha, aparece no mapa.

Queria que aparecesse no mapa também por outros motivos. Pela bondade das pessoas que lá vivem, para quem a generosidade e a partilha são dados adquiridos. No café do Sérgio, por exemplo, bebe-se café, mas, acima de tudo, bebe-se vida. Discutem-se receitas antigas de bolo podre, dão-se ovos do campo para que o bolo seja feito ainda hoje, tiram-se rifas com chocolates, partilham-se fotografias de netos e netas, ouvem-se os suspiros de saudades dos que estão longe. Lá longe, na grande Lisboa.

Na Amareleja também se cuida de quem se ama. Como tantos milhares de outras pessoas, um homem dedica a sua vida a cuidar da mulher que ama, a quem há muito o Alzheimer levou. Que doença esta, que deixa ao nosso lado quem lá não está. Que doença esta, que permite presente quem, na verdade, está ausente. Que doença esta, que é estar e não estar.

A magia de quem ama é que vê para além daquilo que é visível. As palavras são o menos importante. As memórias? Essas permanecem, e basta que um deles as tenha para que sejam reais.

Eu penso por ti, falo por ti, recordo-me por ti. E assim vivemos os dois.

Vivemos com perguntas que permanecem sem resposta. Mas fazemos de conta que as ouvimos e anuímos, em sinal de concordância.

Vivemos em monólogos constantes. Mas fazemos de conta que são diálogos.

Em boa verdade, vivemos com elefantes na sala, monstros que tentamos não ver. Talvez se os ignorarmos eles se tornem invisíveis. Se nos esforçarmos muito, talvez deixemos mesmo de ouvir os seus gritos mudos que ensurdecem. Talvez.

Os cuidadores informais são também um pouco de tudo. Enfermeiros e nutricionistas, médicos e psicólogos, fisioterapeutas e confidentes.

Os cuidadores informais, ainda à espera de um verdadeiro reconhecimento e valorização, valem muito para além daquilo que possa parecer. São pessoas que dão tudo de si, por inteiro. Dão o que têm e o que não têm, o que são e o que tentam ser.

Os cuidadores informais são também um pouco de tudo. Enfermeiros e nutricionistas, médicos e psicólogos, fisioterapeutas e confidentes. Em todas as horas do dia, em todos os dias da semana, em todas as semanas do ano. Sempre.

São pessoas que abdicam e prescindem de algo a toda a hora, em prol de um bem maior. Mesmo quando esse bem não é devidamente reconhecido, nem mesmo por quem é cuidado. Porque não sabe, não percebe ou já se esqueceu.

Cuidar de quem se ama, nestas circunstâncias, é a prova de um amor maior.