Não existem brinquedos de menina ou de menino. Existem brinquedos.

Pensava eu, ingenuamente, que isto de dividir os brinquedos por secções cor-de-rosa e azul já fazia parte do passado. Deparei-me hoje com uma grande loja de brinquedos que ainda o faz, à moda antiga (e desinformada).

A secção cor-de-rosa estava cheia de bonecas, biberons, princesas, sereias, unicórnios, adornos de cabeleireiro e afins. Tudo muito fofinho e apelativo. Apetecia mesmo mergulhar naquele universo encantado e brincar desenfreadamente.

Por outro lado, a secção azul transbordava de piratas, pistas de carros, cavalos, cowboys, armas e armaduras. Toda ela remetia para um universo mais escuro e, diria eu, até mesmo agressivo. Os meninos gritavam que nem loucos enquanto exploravam aqueles brinquedos!

Perante esta realidade que, acredito, não seja exclusiva daquela loja em particular, há uma questão que se impõe. Até quando vamos continuar a pensar que existem «brinquedos de menina» e «brinquedos de menino»? Até quando vamos continuar a ver as lojas e zonas comerciais divididas por cores, as tão estereotipadas cor-de-rosa e azul?

Pior. Até quando vamos censurar as meninas que gostam de jogar à bola e brincar com carrinhos e os meninos que gostam de bonecas e princesas? Pior ainda. Até quando vamos rotular essas mesmas meninas de «maria-rapaz» e esses mesmos meninos de «maricas»?

Centremo-nos então naquilo que é verdadeiramente importante. Qual é a função do brincar?

Brincar não é apenas uma forma que as crianças têm de ocuparem o seu tempo. Uma actividade tola e desprovida de significado que entretém as crianças enquanto estas ainda não sabem fazer coisas mais importantes.

Não. Brincar é talvez uma das formas mais importantes de aprender e crescer. Ao longo do desenvolvimento, é através da actividade lúdica que a criança apreende e aprende, que interage com os outros e com o mundo. Representa de forma simbólica aquilo que a rodeia e projecta-se também nessa brincadeira, transpondo para a mesma tanto de si.

Mais tarde, ao brincar com os seus pares, desenvolve competências tão importantes como a empatia, a capacidade de descentração e a tolerância à frustração. Aprende ainda a comunicar e a resolver problemas.

É através da brincadeira, também, que a criança comunica aquilo que pensa e sente. Que se relaciona com os outros e, ao mesmo tempo, que se organiza dentro de si própria.

Brincar é uma coisa muito séria. Séria demais para que possa ser levada a brincar. E se brincar é assim tão importante, mais importante é que a criança possa diversificar as suas brincadeiras.

Que possa brincar com o que quiser, da forma que quiser, quando e como quiser, sem amarras ao que a sociedade (tão toscamente) considera adequado.

Que se sinta livre para escolher as suas brincadeiras de acordo com aquilo que é a sua vontade e necessidade, sem receio de comentários jocosos ou críticas culpabilizantes.

Que não tenha que brincar com o que gosta às escondidas, procurando corresponder às expectativas que os outros têm de si.

E que os pais possam, também, viver esta realidade sem medo, vergonha ou culpa. Que aprendam a aceitar, com a naturalidade que se impõe, que brincar é isso mesmo. Brincar. E que é a brincar que se aprende e que se cresce. E que saibam também brincar com os seus filhos, baixando as expectativas e deixando de lado os estereótipos.

O meu filho mais novo andou durante muito tempo literalmente agarrado ao peluche da Estrunfina. Ou Smurfina, como se diz agora. Em casa e na rua, aquele peluche azul de longos cabelos louros era quase um prolongamento de si mesmo. Ouvi comentários absurdos, sim, é verdade. E tão bem que soube ignorá-los com um sorriso. O tempo do peluche passou, vieram outros brinquedos e aventuras. E a cada um, seguramente, novas aprendizagens.

A brincadeira de que eu mais sinto saudades, quando penso na minha própria infância? Das cidades de soldadinhos que construía pela casa fora, com a minha irmã, invadindo todas as divisões, numa verdadeira batalha de Aljubarrota!