Não fumo há 39 dias, 7 horas e 26 minutos

Não foi uma decisão. Aconteceu. Num sábado de manhã, depois de uma noite de copos, conversa e cigarros, acordei e o maço estava vazio. Não fui comprar. Não senti falta. Na segunda, pensei: «Talvez seja de aproveitar.» Aproveitei. E tem sido uma luta.

Texto de Catarina Pires | Fotografia ShutterStock

Não fumava muito. Meio maço por dia, em média. Não tinha de fumar assim que acordava. Às vezes passavam-se horas até fumar o primeiro cigarro. Nunca me senti dependente de nicotina. Mas nos últimos tempos sentia que já estava a fazer-me mal.

No entanto, gostava de fumar, sentia prazer no gesto, quase identitário, e por isso custava-me a ideia de abdicar dele. Na verdade, agora que o deixei, é esse gesto que me faz mais falta. Por exemplo, para escrever este texto. Sou dada a bloqueios de escrita, sobretudo quando os textos pedem um envolvimento mais pessoal. De maneira que, diante de uma página em branco, era sempre o cigarro que me ajudava a desatar o nó e a encontrar o arranque.

Chá, café, rebuçados, a ideia de um cancro do pulmão, um AVC ou um ataque cardíaco, mas sobretudo a imagem da cara de desilusão dos meus filhos caso eu perca esta luta têm sido as minhas armas

Hoje, 39 dias, sete horas e já mais de 26 minutos depois de ter decidido deixar de fumar, consegui começar, sem o cigarro. Mas tem sido uma luta. Passado todo este tempo, o cérebro continua a estrebuchar. O corpo também. Agitam-se os dois. Parece que há um vazio por preencher. Não sei explicar. Só sei que é uma luta e que é comigo própria. Põe à prova a minha resistência e a força de vontade e, sobretudo, desafia a minha honestidade.

«Catarina, podes fumar só um, também não é isso que te vai matar. Só um. Ninguém precisa de saber.» Esta vozinha (rouca, na verdade), sempre lá. A tentar-me. E eu a resistir, apesar de não gostar de pastilhas, recusar antidepressivos e deplorar substitutos de nicotina.

Chá, café, rebuçados, a ideia de um cancro do pulmão, um AVC ou um ataque cardíaco, mas sobretudo a imagem da cara de desilusão dos meus filhos caso eu perca esta luta têm sido as minhas armas. A vitória é difícil, mas é minha

  • Como fazer?

Eu estou a fazer a frio, mas há consultas de cessação tabágica, há acupuntura e pastilhas ou pensos de nicotina e também medicação que ajuda. É consultar o seu médico de família.


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