“Não me chamem madrasta, por favor”

As famílias recompostas são uma realidade incontornável e, em todo o lado, vemos situações em que existem ex-maridos e ex-mulheres, ex-companheiros e ex-companheiras, e depois os filhos, os de um, os de outro e os de ambos.

Lidar com um processo de separação ou divórcio envolve sempre algum stress, mesmo para quem deseja e inicia esse processo. Pelas mudanças que acarreta e que não são poucas, sejam emocionais, sociais, económicas ou outras. Chega depois o tempo em que novas relações amorosas surgem, acredita-se novamente no amor e na possibilidade de uma vida a dois. Acontece que, em muitíssimas situações, já não são apenas dois. Existem também os filhos.

Integrar os filhos nas novas relações amorosas dos pais é um processo que exige atenção e sabedoria, pelos ajustamentos necessários que isso implica. Sabemos que os filhos apenas devem ser introduzidos na equação amorosa dos pais quando esta é sentida de uma forma positiva, estável e gratificante, distinguindo-a de eventuais relações mais ou menos casuais e passageiras, cujo prognóstico é, à partida, reservado.

Mas a partir do momento em que as novas relações afectivas são assumidas perante os filhos, surgem novos papéis. Padrastos, madrastas e enteados.

Mas que raio de nomes são estes? Quem os terá inventado? Certamente alguém sem grande bom senso, mais preocupado com questões linguísticas (sejam elas quais forem) do que com questões afectivas.

Estes nomes são frios e desapegados e não encerram em si nada de afectuoso. Temos depois, por outro lado, as histórias infantis que os encheram de conotações negativas, desde a pobre Cinderela com a sua madrasta horrenda, passando ainda pelos padrastos malvados que são sempre retratados como agressivos. Os enteados, esses, sempre vistos como coitadinhos, vítimas inocentes às mãos dos padrastos e madrastas maquiavélicos.

Que coisa esta.

Chega destes nomes e destas conotações péssimas e inventemos, pois, novas designações. Queremos para as madrastas e padrastos nomes que transmitam afecto e ternura, cuidado e protecção. Adultos que, não se substituindo nunca aos pais das crianças, contribuam também para a sua felicidade. E para os enteados, nomes que não estejam associados a fragilidade e coitadice, mas sim a crianças felizes.

Que nomes poderão ser? Pois não faço a mínima ideia.

Resolvi, então, perguntar a quem mais sabe destas coisas. Não, não são os especialistas em língua portuguesa. Quem sabe são as crianças. E questionados sobre isto, recebi as respostas mais doces deste mundo.

“A minha madrasta é boa e, por isso, não é bem uma madrasta”, disse-me a “Maria”, de nove anos.

“A minha mãe tem um namorado, mas não lhe chamo padrasto, chamo-lhe amigo”, completou o “João”, de sete anos.

“E eu não sou enteada, sou semi-filha”, disse-me uma outra menina, de 10 anos.

Bem, então e perante isto, que nomes dar? “Como chamar as madrastas, padrastos e enteados?”, perguntei eu, já a desesperar.

“Não sei”, disse-me uma criança de oito anos. “Só sei que esses nomes são muito complicados e não gosto deles”.

Fiquei na mesma. Não se encontram nomes que possamos utilizar e que transmitam coisas boas?

Já em modo de desespero total, conversei com mais algumas crianças. O meu rosto iluminou-se perante a resposta de um menino de nove anos: “não têm de ter um nome, cada menino chama como quiser, desde que seja um nome bom”.

Andava eu, iludida, à procura de nomes. Não existem nomes que possam aplicar-se a todas as situações, na medida em que cada uma tem as suas especificidades. Mas de uma coisa fiquei certa. Madrastas, padrastos e enteados não são nomes bons.

Não me chamem madrasta, por favor.