Não são só elas. Eles também fingem orgasmos

A cena tem quase trinta anos. A personagem de Meg Ryan no filme When Harry Met Sally finge um orgasmo na perfeição, numa mesa de café, deixando a personagem de Billy Crystal completamente estupefacta. Estava imortalizada a ideia de que as mulheres fingem regularmente o clímax. Mudou muita coisa desde a estreia do filme? E os homens, afinal também fingem?

Texto de Ana Patrícia Cardoso | Fotografia de Istock

Um estudo publicado no Journal of Sexual Medicine analisou a perceção do orgasmo de 1683 casais heterossexuais recém-casados e chegou à conclusão de que 87 por cento dos maridos chegavam constantemente ao clímax, em contraste com apenas 49 por cento das mulheres.

E ainda, se apenas metade chegava ao orgasmo, 43 por cento dos seus parceiros não sabiam dizer quando acontecia. A sexóloga Ana Garcia afirma que «é relativamente fácil perceber quando uma mulher sente prazer porque a resposta fisiológica não engana: contrações, espasmos, ereção do clitóris». Ainda assim, há homens que não conseguem detetar.

Esta falta de noção do outro pode justificar-se porque «está demasiado concentrado no seu momento de prazer ou nem lhe passa pela cabeça que a parceira não esteja a sentir o mesmo», diz a sexóloga. E acrescenta ainda que «se os homens se preocupassem em perceber qual a resposta fisiológica ao orgasmo da mulher, saberiam quando, e se, acontece».

21,2 por cento dos homens admitiu ter fingido pelo menos uma vez um orgasmo

Os números falam por si e as mulheres tendem a ter menos prazer que os homens. No entanto, estes também sabem fingir. A Bijoux Indiscrets, uma marca de produtos eróticos, fez a pergunta a 1400 pessoas e a resposta foi inesperada: 21,2 por cento dos homens admitiram ter fingido pelo menos uma vez um orgasmo (a percentagem das mulheres continua a ser maior, 52,1 por cento).

Mais significativa ainda é a percentagem quase igual de pessoas que admitiram fingir numa base regular: 8,4 por cento de homens para 11,8 por cento de mulheres. Com estes dados, concluíram que o ser humano é, no fundo, um crédulo sexual: apenas 10,4 por cento das mulheres e 15,6 por cento dos homens acreditavam que o parceiro fingia os orgasmos.

Para Ana Garcia, a principal razão de os homens fingirem é a «vergonha de não conseguirem atingir o orgasmo, uma vez que a sociedade impõe que eles queiram e consigam sempre».

No entanto, é importante distinguir entre fingir pontualmente, por qualquer motivo – é normal -, ou a sistematização da mentira entre o casal. Tornar-se rotina entre ambos tem consequências. «Quanto menos prazer tens numa relação sexual, menos vontade tens de repeti-la. Este cenário, repetido vezes sem conta, acarreta problemas conjugais», explica a sexóloga.

E ainda existe a questão da ansiedade. Se, por algum motivo, o homem tem de fingir uma vez, a pressão aumenta para que, na vez seguinte, tudo corra bem. «A ansiedade é o inimigo número um das relações sexuais.» Reduz substancialmente a probabilidade de que as coisas corram bem para os dois.

O passo a dar para contornar a situação é deixar de fingir. «Fomentar a comunicação entre o casal, dar a entender que os dois têm igual direito ao prazer e que devem atingi-lo em conjunto é o mais importante», diz Ana Garcia.