Natal é quando um homem (e a mulher) quiser

– Já?! Estamos em outubro…

– Eu sei. Mas daqui ao Natal é um pulo. O Natal é amanhã, pá.

– Mas qual pulo… O Natal é em dezembro. Faltam três meses. Anda lá almoçar comigo, fazes isso outro dia.

– Não posso. E faltam dois meses e meio.

– Sim, dois meses e meio… Vai dar ao mesmo.

– E então? Dois meses e meio passam a correr.

– Ouve lá, tu não vens almoçar comigo porque, no início de outubro, vais comprar uma prenda de Natal para a tua mulher. Tem paciência… Não, dois meses e meio não passam a correr. Passam em dois meses e meio. Ainda tens dois meses para descontrair. E mais duas semanas e picos para andar nervoso com as compras. Quanto tempo é que precisas para os presentes de Natal? Não consegues comprar tudo em 15 dias?

– Até consigo comprar em menos tempo. E há sempre os que ficam para a última hora. Mas este ano é diferente. Meti na cabeça que este ano vou comprar o presente da minha mulher com antecedência. Se não, já “tou a ver o filme.

– Eh pá, pensares nisso é boa ideia. Teres uma lista com algumas sugestões já é uma coisa de gajo muito precavido. Agora comprares tanto tempo antes, já me parece uma coisa muito sensível. Queres casar com a minha mulher? Ela ia gostar. Está sempre a clamar que compro as prendas dela em cima da hora.

– Mas julgas que a minha não é assim? Elas são todas iguais. Eu não sou gajo de fazer isto tanto tempo antes, mas este ano vai ser diferente, só para não a ouvir queixar-se.

– Mas queixar-se do quê? Se não ofereceres nada é que ela tem razão para se queixar.

– E se oferecer uma coisa que não é nada do que ela pediu, porque quando fui comprar já não havia, garanto que ela também se vai queixar.

– Tá bem, pá… Mas ela começa a pedir coisas em outubro?

– Não é que ela peça. Até porque combinamos um valor entre os dois e não ultrapassamos isso nos presentes. A vida não “tá para avarias. Mas ela começa a dar dicas em outubro. A soltar para o ar, a ver se eu apanho.

– E tu apanhas?

– Apanho algumas. Ela é muito controlada, e tem sempre tudo planeado. Quando acabam as férias de verão, começa logo a pensar nas compras para o início das aulas dos miúdos. Quando isso “tá despachado e começam as primeiras chuvas, começa a pensar no Natal. O chip muda automaticamente.

– E então? Só porque ela dá dicas, tens de ir a correr comprar? Escreves isso num papelinho, ou num telemóvel, juntas as ideias todas dela e quando fores às compras, em dezembro – quando os gajos normais fazem compras de Natal! – já tens a lista.

– Isso é o que eu costumo fazer nos outros anos. E dá barraca. Ou já está escolhido, ou não há para o tamanho dela, ou tens de encomendar pela net e não chega a tempo do Natal…

– E fazeres uma surpresa, que tal? Comprares uma cena que ela não esteja à espera.

– Já tentei. Não resulta. Faz um sorriso amarelo e pergunta, com um ar enjoado: «Ah, é isto? Estava à espera daquelas botas que te tinha dito.» E mesmo que eu tenha corrido tudo o que é loja à procura daquela coisa que eu acho que ela vai gostar, vou acertar ao lado, por alguma razão.

– E ela não vai trocar?

– Vai, claro. Sempre. Tenho de pedir sempre talões sem preço porque já sei do que a casa gasta. Ou o tamanho está mal, ou a cor não era aquela, ou já tem uma coisa parecida, ou tinha visto outra que é mesmo, mesmo o que ela gosta e o preço é parecido, e assim aproveita… Às vezes até vê outra coisa mais cara e eu é que acabo por pagar a diferença. É presente de Natal, é presente de Natal.

– Olha, a minha não me diz nada. Não me dá dicas. Eu é que tenho de adivinhar.

– Nem sabes a sorte que tens.

[6-10-2013]