Neide é mulher, negra, deficiente, mãe solteira, mestre, e quer um trabalho

Paula Neide.

Passou fome, sofreu e sofre com as distâncias familiares. Esta angolana de 33 anos, imigrada há dez em Vila Real, quer que a avaliem pelo que vale, e não pelas condições que a definem. O que a incapacita é o preconceito e o racismo que sente no acesso ao mercado laboral.

Texto de António Pedro Pereira

Paula Neide Reverendo da Conceição nasceu no Huambo, sul de Angola, em 1986. A 10 de novembro, um dia antes de o país celebrar o 11º aniversário da Independência (11 de novembro de 1975). Neide é mulher, mulata, tem uma deficiência motora (64% de incapacidade), um filho (três, incluindo com graça na prole o irmão um ano mais novo e a prima de 18 anos, que vivem com ela em Vila Real), uma licenciatura, um mestrado (obtidos em regime de estudante-trabalhadora).

Fez e faz mil e uma formações, ações de voluntariado e de valorização profissional, sonha em ser cozinheira. Passou fome durante os anos de chumbo da guerra civil. E só lamenta o tratamento preconceituoso que em Portugal, onde vive há dez anos, lhe dedicam e que considera estar na raiz do único lamento: não consegue um único trabalho, emprego, ganha-pão.

A vida de Neide tem sido crua e dura, mas a capacidade de luta e de resistência, embora com alguns abalos, é o que lhe alimenta a esperança. “Ser mulher, negra e deficiente não ajuda nada. Tenho uma deficiência motora, uma atrofia muscular de tipo 3, provocada por uma doença genética neurológica. Provoca-me dificuldades de locomoção”, explica Neide.

“Sou mãe solteira [o pai do filho abandonou-a grávida] e sofro um pouco com o racismo. O meu filho tem 13 anos e joga futebol. Às vezes, em Murça, ouço: ‘O seu filho é o pretinho?’ Uma professora dele disse-lhe: ‘Leste tão bem, quem te ensinou?’. E na escola: ‘Tão bem vestido, quem te deu a roupa?'”, relata sem rancores esta mestre em Ciências da Comunicação, especialidade em administração escolar, licenciada em Línguas e Relações Empresariais – degraus académicos que galgou na UTAD – Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro.

“Além do racismo, também estou grata. Fui bem recebida, há bons hospitais, o miúdo é bem recebido, de forma geral, na escola”, acrescenta a mulher que já fez todas as formações e atualizações profissionais que lhe aparecem pela frente e estejam ao alcance de um orçamento muito limitado.

“Gostava mesmo era de trabalhar num hospital. Em que pudesse atender as pessoas, porque eu gosto mesmo é de me envolver com as pessoas”, diz.

“Fiz um contrato inserção + com o núcleo de Vila Real da Rede Europeia Antipobreza – a EAPN-Portugal [na sigla inglesa]. Terminou no dia 11 e não sei se o vão renovar, tem de ir ao conselho para ser tomada uma decisão”, explica, pouco antes de partir para casa (Angola), onde vai passar o Natal com familiares e amigos.

“Fui contratada como administrativa. Aprendi algumas coisas que nem sabia, como relatórios mais específicos”, prossegue, antes de exigir que a avaliem pelo que vale no mercado de trabalho, e não pelas condições físicas, de género e sociais. “Gostava mesmo era de trabalhar num hospital. Em que pudesse atender as pessoas, porque eu gosto mesmo é de me envolver com as pessoas. A educação não me desafia. Eu prefiro mesmo é ser inserida no mercado de trabalho, com contrato, subsídio de férias… Quero ter uma vida e um trabalho normais, é importante para mim para mostrar ao meu filho”, diz. Parece simples que uma mulher de 33 anos, licenciada e com um mestrado, que nunca se nega a fazer mais uma ação de formação profissional (“estar parada é que não. É como a atividade física, se se estiver parada, atrofia-se”).

“Eu queria mesmo era estudar marketing. Gosto muito de falar e de me envolver com as pessoas. Quando vim em 2009 para Portugal, tinha um plano para regressar a Angola, mas a educação no meu país é muito precária. Em conversa com os meus pais e a UTAD, decidi fazer o mestrado em políticas educativas, com especialidade em gestão escolar. Tenho um filho e sei que a escola tem problemas. Queria fazer uma aprendizagem para levar para lá o conhecimento. Mas fiquei parada. A tese de mestrado é muito teórica, seria melhor algo mais prático”, disseca Neide.

“Eu não gosto de facilidades, mas um empurrãozinho não fazia mal”, acaba por assumir. Mas por “empurrãozinho”, no fundo, entende uma avaliação isenta e assente no mérito nos trabalhos a que se candidata. “Gostava de ser cozinheira. Cozinho muito bem os pratos da minha terra, faço uma muamba ótima, mas já sei fazer muitos pratos de bacalhau. O meu filho adora bacalhau com natas. Mas não posso trabalhar num restaurante, porque exige andar muito tempo de pé e a minha deficiência não mo permite”, confessa.

“Ao domingo gosto de ir à igreja e acordo mais cedo para preparar o almoço. E olhe que não acordo rabugenta por causa disso. O meu filho pede-me muitas vezes: “Podes fazer lasanha? A tua comida é a melhor do mundo.” E eu fico toda contente”, admite, orgulhosa.

“Comer é uma bênção, eu sei, porque já passei fome. Naqueles anos de guerra [os duros anos 1990], as pessoas quase não saíam à rua. Não havia bens alimentares nas prateleiras. Comíamos o que a natureza nos dava. Abóbora cozida, batata-doce, amendoim, porque Angola é muito fértil”

Porque para quem cresceu distante do pai (é a sua quinta filha), que se divorciou da mãe há 25 anos, quando Neide tinha 8, e lhe seguiu a vida de longe, e com a progenitora, de quem é a primogénita, a ter de fazer longas viagens para a sustentar a ela e ao irmão, quem sentiu a implacável marca da guerra na pele, nunca nada é dado como garantido.

“Comer é uma bênção, eu sei, porque já passei fome. Naqueles anos de guerra [os duros anos 1990], as pessoas quase não saíam à rua. Não havia bens alimentares nas prateleiras. Comíamos o que a natureza nos dava. Abóbora cozida, batata-doce, amendoim, porque Angola é muito fértil”, aprofunda. “Cresci sem leite, praticamente sem manteiga. E chateia-me que o meu filho não goste deste ou daquele fiambre. Eu jantei muitas vezes chá com batata-doce. Quando me levavam um chocolate, era um diamante”, sublinha.

A viver em Vila Real, terra de origem do avô materno, que esteve emigrado em Angola e voltou depois à terra natal, Neide tem o prato cheio de responsabilidades. “O meu irmão, de 32 anos, o meu filho, de 13, e a minha prima, de 18 anos, vivem comigo. E parece que tenho três filhos. Às vezes, estou na piscina na reabilitação e recebo mensagens do meu irmão: “Acabou o gás”; “Não há isto e aquilo””, ri-se Neide, contando a prole com graça e generosidade.

Com tanto trabalho para se especializar através da UTAD, a educação seria um caminho lógico, mas Neide sente que não é essa a vocação. Preferia trabalhar numa unidade de saúde em que o trabalho pudesse aliar a vocação humanista de se ligar permanentemente às pessoas e às suas necessidades. “Mas eu não tenho medo, faço qualquer coisa”, garante.

“Antes, alisava sempre o cabelo. Mas há dois anos achei que chegava. Cortei o meu cabelo todo e deixei que crescesse naturalmente. Ficou todo afro. Este é o meu cabelo”, diz em jeito de definição cultural, de identidade e de vontade de ser quem é. Uma mulher, negra, com uma deficiência motora de 64%, mãe solteira e imigrante. É com estas características que vai continuar a lutar pela igualdade de acesso ao mercado de trabalho. Para conseguir um contrato com os direitos laborais legais que façam jus ao investimento que fez em formação superior e em cursos de atualização. E sempre com a vontade de o fazer num ambiente laboral em que possa estar em contacto permanente, e envolvida, com pessoas. Muitas pessoas a quem possa emprestar a sua experiência de vida para as fazer sorrir.


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“Costumo dizer que sou uma ucraniana portuguesa. Nunca me senti estrangeira aqui.”