No dia em que tudo acabar, porta-te em condições

Devia ser ensinado nas escolas. Devia ser explicado pelos pais. Devia ser considerado uma missão de educação dos irmãos mais velhos. Mas não, nada disso. As crianças aprendem nas aulas o que é a educação sexual, uma professora explicará como se fazem os bebés, um primo ou prima mais velhos (no meu caso foi uma vizinha) ensiná-los-á, no momento do primeiro beijo em condições, a colocar os lábios, o que fazer com a língua, onde encaixar as mãos…

Mas nada, ninguém, situação nenhuma prepara os amantes do futuro para lidar com as ex-namoradas e ex-namorados. As relações que terminam – o facto de as relações terminarem – entram no capítulo das coisas que aprenderemos a fazer num futuro longínquo. «Um dia, filho, quando for preciso, quando passares por isso, logo verás como te vias portar.» Um dia, mais tarde. Agora não.

Não é exatamente novidade o facto de não prepararmos os pequenos para lidar com as emoções. A inteligência emocional também se educa, mas convencionámos que há um enorme leque de desafios por que temos obrigatoriamente de passar e que não se podem prever. Não se podem ensinar. E nem vale a pena falar muito deles, para não criar mais ansiedade nos pequenos. É pena. Se ganhássemos coragem para abordar isso, se conseguíssemos ter os tomates para aceitar que a primeira vez que lhes vão partir o coração ou a primeira vez que dirão a alguém «já não gosto de ti» são tão importantes como a primeira vez que vão jogar ao «Bate Pé», talvez assim evitássemos muitas situações que ficarão por resolver no futuro. E muito dinheiro que muita gente terá de gastar em terapia.

Hoje, que há workshops para tudo, e para o que não há temos a internet, com fontes mais ou menos fidedignas, ou mesmo os artigos de comportamento das revistas femininas, não há desculpa para não sabermos como nos devemos comportar com o maior nível no dia em que nos mandarem pastar. Ou como devemos estar à altura dos acontecimentos, quanto tivermos de olhar alguém nos olhos para dizer que nos vamos pôr ao fresco. Mas será que sabemos traduzir isso em linguagem acessível para explicar aos nossos filhos como devem ser uns perfeitos teminadores de relações?

Eu sou suspeito para falar de ex-namoradas. Não mantenho contacto com nenhuma delas. E, sinceramente, tirando alguns defeitos que elas possam ter (ó p”ra mim a ser diplomático, educado e bem resolvido), não me parece que a culpa disto seja inteiramente delas. Acredito mais que a responsabilidade disto recaia sobre o fator comum a todas: eu. Não é que eu tenha grande vontade de reatar contacto com elas, mas penso nisto de tempos a tempos. Das três relações longas que tive no passado, eu terminei uma, nas outras duas fui descontinuado. Em nenhum dos casos lidei bem com isso. Numa situação porque acho que fiz tudo mal – a falta de sinceridade dos homens no momento do fim é uma coisa estupidamente épica -, nos outros porque demorei muito tempo a perceber o que tinha acontecido. Tudo normal, portanto.

Nos casos de relações mais curtas, ainda mantenho alguns contactos. Possivelmente porque as namoradas que estiveram comigo menos de seis meses não tiveram tempo suficiente para perceber que eu devo ser um palerma na reta final.

Sinceramente, não sei como teria sido se tivesse aprendido, quando era mais novo, a lidar com coisas destas. Nem sei como se aprende isso. Mas, agora, que sou pai, isto vem-me à cabeça de vez em quando. Ainda falta muito tempo para a minha filha de um ano aprender a dar beijos com língua e deve faltar ainda mais para ela ter vontade de acabar relações. Pode ser que até lá eu lhe possa explicar algumas coisas que fui aprendendo. Ou não.

[27-10-2013]