“Sopram ventos de mudança em África”, diz Guterres sobre Nobel da Paz

Primeiro-ministro da Etiópia, Abiy Ahmed, numa conferência de imprensa em Adis Abeba, a 1 de agosto deste ano © REUTERS/Tiksa Negeri

O premiado com o Nobel da Paz de 2019 é o primeiro-ministro da Etiópia Abiy Ahmed. No poder desde abril de 2018, o laureado, de 43 anos, foi destacado pelos acordos de paz com a vizinha Eritreia.

Filomena Naves e Patrícia Viegas

O premiado com o Nobel da Paz de 2019 é o primeiro-ministro da Etiópia Abiy Ahmed, foi esta sexta-feira anunciado em Oslo, na Noruega.​​​​​​ O prémio, que será entregue a 10 de dezembro, vale nove milhões de coroas suecas, ou seja, cerca de 830 mil euros.

“O primeiro-ministro Abiy Ahmed Ali foi galardoado com o Prémio Nobel da Paz deste ano pelos seus esforços em prol da paz e da cooperação internacional, em particular pela sua iniciativa decisiva de resolver o conflito fronteiriço com a vizinha Eritreia”, indicou a presidente do Comité Nobel, Berit Reiss-Andersen.

Decidido à porta fechada por um comité de cinco pessoas nomeadas pelo Parlamento norueguês, este era um dos prémios aguardados com maior expetativa desta temporada Nobel, face às especulações sobre o eventual vencedor.

O primeiro-ministro etíope era, nalgumas apostas, o segundo entre os favoritos para vencer o Nobel da Paz. Em causa está o seu trabalho para reforçar a democracia na Etiópia desde que tomou posse, em abril de 2018, com a libertação de presos políticos e a nomeação de um governo paritário, assim como a assinatura dos acordos de paz com a vizinha Eritreia (pondo fim a um conflito de 20 anos que fez mais de 70 mil mortos).

Na carta de nomeação de Abiy Ahmed, divulgada pelos jornais locais, lê-se que o político de 43 anos é “um símbolo de paz e justiça numa região onde os líderes políticos têm governado pela violência, tirania e violação dos direitos humanos” e por ser “um líder transformacional em equidade e direitos humanos dentro da Etiópia”.

Filho de mãe cristã e de pai muçulmano, Abiy Ahmed, chegou ao poder em fevereiro de 2018, após a demissão de Hailemariam Desalegn, no contexto de uma profunda crise política. Converteu-se no líder mais jovem de África. Chegado ao poder, tentou conter os confrontos, libertou centenas de presos políticas, retirou o estado de emergência e permitiu o regresso à Etiópia de figuras destacadas da oposição que se tinham exilado.

Reagindo ao prémio, através do Twitter, o gabinete do chefe do governo da Etiópia declarou: “Expressamos o nosso orgulho na escolha do primeiro-ministro da Etiópia para Prémio Nobel da Paz de 2019. Este reconhecimento é um testemunho dos ideias da unidade, da cooperação e da coexistência mútua, que o primeiro-ministro tem vindo consistentemente a defender”.

“A paz não surge das ações de uma das partes apenas. Quando o primeiro-ministro Abity estendeu a mão do presidente Afwerki, este agarrou-a e ajudou a formalizar o processo de paz entre os dois países. O Comité Nobel Norueguês espera que este acordo de paz traga mudanças positivas para todas as populações da Etiópia e da Eritreia (…) Sem dúvida, algumas pessoas acharão que este prémio está a ser atribuído demasiado cedo. O Comité Nobel Norueguês acredita que os esforços de Ahmed Abiy merecem reconhecimento e precisam de ser encorajados”, disse aos jornalistas em Oslo a presidente daquele comité.

No passado, críticas surgiram sobre o Nobel da paz atribuído ao ex-presidente dos EUA Barack Obama, há precisamente dez anos. Algumas vozes consideraram essa atribuição precipitada e alguns chamaram-lhe mesmo o Nobel da Paz preventivo. Questionada pelos jornalistas presentes em Oslo esta sexta-feira sobre se, precisamente, o prémio não foi precipitado, uma vez que o jovem líder etíope ainda tem que introduzir reformas democráticas, a presidente do comité respondeu: “Reconhecemos as suas intenções de levar a cabo eleições democráticas no próximo ano e não concordo com a premissa da sua pergunta, porque, definitivamente, há muito que já foi conseguido em termos de fazer reformas democráticas na Etiópia, mas há ainda um longo caminho a percorrer. Roma não foi feita num dia e a paz e o desenvolvimento democrático também não são atingidos num curto espaço de tempo”.

Primeiro-ministro etíope, Abiy Ahmed Ali, brinda com o presidente eritreu, Isaias Afwerki, à reabertura da embaixada da Eritreia em Adis Abeba, em julho de 2018 © EPA/STRINGER

A favorita nas apostas era a jovem sueca de 16 anos Greta Thunberg, ativista em defesa do clima, mas acabou por não ser escolhida pelo comité Nobel. Entre os nomes falados estava também o da chefe do governo neo-zelandês, Jacinda Ardern, pela sua resposta ao atentado terrorista contra as mesquitas de Christchurch. E o de organizações como a Repórteres Sem Fronteiras ou o Comité para a Proteção dos Jornalistas.

Questionada sobre se o primeiro-ministro da Etiópia era um nome mais consensual – do que por exemplo o da jovem sueca Thunberg – e sobre quando é que o comité pensa regressar às questões ambientais na hora de decidir o prémio, a presidente do comité norueguês afirmou: “No dia em que anunciamos o prémio, não fazemos comentários sobre quem não recebeu o prémio e sobre quem poderia ter recebido o prémio. Portanto, não faço comentários sobre isso”.

Em 2004, o Nobel da Paz foi para uma ambientalista queniana, Wangarĩ Muta Maathai (entretanto falecida em 2011), a primeira mulher africana a receber este galardão. Maathai ficou conhecida pela sua luta pela conservação das florestas e do meio ambiente. Ativista, fundou o movimento Cinturão Verde, ainda nos anos 1970, no Quénia, uma iniciativa no âmbito da qual foram plantadas 30 milhões de árvores. Antes de morrer, em 2011, estava a ajudar a ONU no projeto de plantar mil milhões de árvores.

Ao ser laureado o primeiro-ministro da Etiópia, esta é a 24.ª vez que o Nobel da Paz vai para África. Os líderes africanos e árabes, como o presidente da Somália, foram dos primeiros a congratular-se, no Twitter, com a atribuição do Nobel a Abiy Ahmed. Na mesma rede social, a Amnistia Internacional instou o líder etíope a aproveitar a distinção para respeitar os direitos humanos. “O primeiro-ministro da Etiópia recebeu o Prémio Nobel da Paz, este prémio deve servir para motivá-lo a fazer face aos grandes desafios de direitos humanos que possam reverter os ganhos feitos até agora”.

O secretário-geral da ONU, António Guterres, emitiu um comunicado a saudar o chefe de governo da Etiópia. “Eu disse várias vezes que os ventos de mudança sopram por toda a África. O primeiro-ministro Abiy Ahmed é uma das razões. A sua visão ajudou a Etiópia e a Eritreia a chegarem a um entendimento histórico e sinto-me honrado em testemunhar a assinatura do acordo de paz no ano passado. Isto abriu oportunidades para a região tirar partido da paz e da segurança e a liderança do primeiro-ministro Ahmed é um magnífico exemplo para os outros e para além de África, no sentido de se ultrapassar a resistência causada pelo passado e de pôr as pessoas em primeiro lugar”.

Também a Comissão Europeia reagiu, no Twitter, à distinção do chefe do governo etíope. “Congratulamos o vencedor do Prémio Nobel da Paz, o primeiro-ministro etíope Abiy Ahmed Ali. Com a sua coragem, ele constrói pontes na região, recomeçando as conversações de paz depois de 20 anos de impasse com a Eritreia. Estamos ao lado da Etiópia na sua caminhada para a democracia e a paz”.

Em maio deste ano, Abiy Ahmed já tinha sido laureado com o Prémio de Paz Félix Houphouët-Boigny, da UNESCO. O prémio recebeu o nome do homem que foi presidente da Costa do Marfim entre 1960 e 1993 e pretende honrar “pessoas vivas, instituições ou organismos públicos ou privados em atividadem, que tenham contribuído de maneira significativa para a promoção, busca, salvaguarda ou manutenção da paz em conformidade com a Carta das Nações Unidas e a Constituição da UNESCO”.

"Sopram ventos de mudança em África", diz Guterres sobre Nobel da Paz
Primeiro-ministro da Etiópia, Abiy Ahmed Ali, no Fórum Económico Mundial, em janeiro deste ano © EPA/LAURENT GILLIERON

Ao ser laureado agora com o Prémio Nobel da Paz 2019, o primeiro-ministro da Etiópia sucede aos premiados com o Nobel da Paz em 2018: o médico Denis Mukwege, que dedicou sua vida à defesa de vítimas de violência sexual em tempo de guerra no seu país, a República Democrática do Congo; e a Nadia Murad, a yazidi que foi vítima de violência sexual por parte do Estado Islâmico no Iraque. Nadia Murad conseguiu fugir e denunciou ao mundo as atrocidades sofridas – por ela própria e por muitos outros jovens e mulheres da sua etnia.

Na segunda-feira, 14 de outubro será conhecido o vencedor – ou vencedores – na área da Economia, o último Nobel desta temporada.

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