Mudar de vida: Nunca é tarde para um pastel de natal

Quem vai a Évora dificilmente escapa a uma visita à Fábrica dos Pastéis, negócio de Inácia Junça. Para esta antiga educadora de infância, os dias agora são passados entre os seus famosos pastéis de nata. E com fornadas de até mil por dia.

Texto de Ana Patrícia Cardoso | Fotografias de Sara Matos/Global Imagens

O entusiasmo é contagiante e nota-se que Inácia Junça está onde tem de estar. Com 61 anos, não existe vontade de guardar o avental, pelo menos para já. «Estou numa procura constante por fazer melhor, sempre a procurar estratégias para consolidar o negócio. Estamos no bom caminho, com uma equipa de oito pessoas que fabricam, em média, mil pastéis de nata por dia na Fábrica dos Pastéis.»

Se lhe tivessem dito há quarenta anos que estaria onde está hoje, provavelmente teria soltado uma gargalhada. Nessa altura, a cabeça – e todo o investimento – estava nas crianças. E tudo por causa de um sonho. «Sonhei que tinha crianças à minha guarda. Simples assim. Quando acordei, pensei que devia ir em frente com o sonho, ele tinha acontecido por uma razão. Era muito naïf». E nova, também. Tinha 21 anos esta menina do Alentejo, com um sonho por realizar.

Quando tudo parecia correr de feição, o impensável aconteceu. «O meu marido morreu à minha frente e dos quatro filhos. E agora como vai ser?» Inácia reequacionou tudo. E mudou de vida

Conseguiu o dinheiro através do empréstimo de um amigo. «Comprei o trespasse do colégio por 500 contos. Uma fortuna, naquela altura.» Casou dois anos depois e o dinheiro dos presentes saldou a dívida. Voltou à escola para estudar Educação de Infância porque «sabia pouco e não estava preparada», mas já tinha uma filha e um negócio para gerir. E ainda a procissão ia no adro.

O edifício antigo tornou-se insuficiente para a ambição desta mulher. Pois bem, construiu um novo. Foi uma saga ir para a frente com a empreitada, mas entre empréstimos e um financiamento ganho num programa de fundos comunitários lá se fez o colégio.

«Um edifício de raiz com todas as condições, onde trabalhei com uma paixão desmedida durante mais de vinte anos. E funcionava que dava gosto. Era considerado por muita gente o melhor jardim-de-infância da cidade», diz Inácia.

Quando tudo parecia correr de feição, o impensável aconteceu. «O meu marido morreu à minha frente e dos quatro filhos. Foi há treze anos. Eu casei aos 23, com uma daquelas paixões que são “para a vida toda”. Fiquei com uma sensação de abismo à minha frente, “e agora como vai ser?”»

Não é o fim do mundo se as coisas não dão certo à primeira.» O mundo pode até tornar-se mais doce

Nada estava igual. «Sentia que um ciclo se fechou e eu tinha de o encerrar de vez para começar outro. Tudo isto se passava quando a crise financeira rebentava em Portugal e eu não fui exceção.» Fechou o colégio sem saber o que viria a seguir.

Foi numa tarde de descanso que reparou num livro de receitas antigo que uma tia lhe tinha oferecido. «Na altura, não entendi, cozinhar não era uma paixão.» Mas, de repente, estava a recriar a receita dos pastéis de nata. Com a ajuda de um amigo pasteleiro, aperfeiçoou a mão, pediu um forno emprestado e estava todos os dias na cozinha. Sem conseguir explicar como nem porquê, Inácia tinha um sonho renovado.

De vender trinta pastéis de nata por dia a um hotel em Évora passou para uma aventura em Espanha que correu bem, durante um ano, mas à qual os filhos não se adaptaram. Era tempo de regressar.

Em maio de 2015, Inácia abriu a Fábrica dos Pastéis

Voltou a casa com a vontade de ter um espaço seu. Já os pastéis de nata da dona Inácia tinham fama própria quando, em maio de 2015, abria a Fábrica dos Pastéis. É lá que passa todos os dias, de sorriso no rosto. E com a certeza de que, na vida, nada é certo. «Hoje não valorizo nada do que pensava ser importante. Fiz a travessia do meu deserto.

Estou e sou uma pessoa mais preparada. Não é o fim do mundo se as coisas não dão certo à primeira.» O mundo pode até tornar-se mais doce