“Nunca se deve considerar que uma tentativa de suicídio é apenas uma chamada de atenção”

O suicídio é uma das principais causas de morte entre os mais jovens. Porquê? Quais são os sinais? Como deve a família agir e reagir? Como prevenir? No Dia Mundial de Prevenção do Suicídio fomos à procura de respostas, com a ajuda da pedopsiquiatra Paula Vieira de Medeiros.

Entrevista de Catarina Pires | Fotografia de iStock

O suicídio é uma das principais causas de morte nos jovens. De que números estamos a falar em Portugal?

Em Portugal, a taxa de suicídio adolescente dos 15 aos 24 anos é de 3/100.000, sendo maior no género masculino do que no feminino. É a segunda causa de morte nos jovens em Portugal, dos 15 aos 19 anos. O mesmo se passa no resto da Europa e nos EUA (a primeira causa de morte são os acidentes de viação).

As raparigas apresentam maior tendência para realizar tentativas de suicídio do que os rapazes, mas estes apresentam um maior número de suicídios consumados. Relativamente aos comportamentos auto-lesivos, em que não há intenção de morrer, mas que traduzem um dano infligido a si próprio (auto-mutilações como cortes ou queimaduras) e que ao longo do tempo podem agravar-se no sentido do comportamento suicida, em Portugal, os estudos indicam uma prevalência de 7% e 16% dos adolescentes, sendo que entre 10 a 18% irão ter pelo menos um episódio.

Os comportamentos auto-lesivos, mais frequentes no género feminino, estão associados a um aumento significativo do risco de suicídio na adolescência e vida adulta. É importante ter em conta que a maior parte das taxas estão subestimadas, quer por erro de diagnóstico (por vezes o suicídio é confundido com acidente ou morte por causa indeterminada), quer por preconceito religioso, social, cultural. Há um estigma ainda muito grande relativamente ao suicídio.

Cerca de 90% dos jovens que cometem suicídio evidencia uma perturbação psiquiátrica, habitualmente depressão.

O que pode levar um jovem a chegar ao ponto de cometer suicídio?

Os jovens que cometem suicídio estão num sofrimento psíquico intolerável, sentindo-se desesperados e sem vislumbrar alternativa.

Muitas vezes fazem-no em momentos de enorme impulsividade. Nalguns casos, porém, existe uma premeditação cuidada. Estes jovens têm habitualmente dificuldades na forma como lidam com a família, escola ou meio social. A maioria encontra-se num estado de isolamento acentuado, conduzindo a uma solidão angustiante.

Estão sempre associados problemas de saúde mental ou um acontecimento ou circunstância pode levar a essa atitude extrema?

Cerca de 90% dos jovens que cometem suicídio evidencia uma perturbação psiquiátrica, habitualmente depressão. No entanto, pode existir outra doença psiquiátrica, como perturbação de ansiedade, perturbação bipolar, perturbação estado-limite da personalidade (patologia “Borderline”). Pode existir abuso/dependência de álcool ou drogas.

O que torna estes adolescentes diferentes é de um modo geral o sentimento de fracasso no seu desenvolvimento individual, familiar e social. Um acontecimento de vida negativo pode ser precipitante do comportamento suicida, em jovens vulneráveis.

Paula Vieira de Medeiros é pedopsiquiatra no Centro da Criança e do Adolescente do Hospital CUF Descobertas

Quais são os fatores de risco?

Há os de longo prazo, que têm que ver com características de background ou vulnerabilidades subjacentes que aumentam o risco de suicídio nalguma fase da vida, como uma perturbação psiquiátrica (depressão, ansiedade, perturbação “borderline”, doença bipolar), história familiar de suicídio (quer consumado, quer tentativa), estudos em gémeos revelam concordância para suicídio em monozigóticos de 14,9% (vs 0,7% em dizigóticos), anteriores tentativas de suicídio.

Há os proximais, de curto prazo, que são os que aumentam o risco eminente de suicídio, como uma rutura afetiva recente ou intoxicação por álcool ou drogas.

Há os fatores precipitantes, como a facilidade de acesso ao método ou um evento de vida humilhante ou desesperante.

Há os fatores de risco demográficos e sócio-culturais como a idade (final da adolescência e idosos), o género (feminino para ideação suicida e comportamentos autolesivos e masculino para suicídio consumado), a orientação sexual (20 a 40% dos jovens homossexuais fazem tentativas de suicídio entre os 15 e 17 anos), pertença a minorias étnicas, isolamento social, baixo nível socio-económico, insucesso ou abandono escolar, contágio social (contacto direto ou indireto com tentativas de suicídio ou comportamentos autolesivos, através dos media ou da internet, por exemplo, barreiras no acesso aos cuidados de saúde primários e sobretudo cuidados de saúde mental, estigma.

E há os fatores de risco contextuais (acontecimentos de vida negativos) e familiares como perda relacional ou social, experiências adversas na infância, história de abuso físico ou sexual, bullying, doença física incapacitante, dolorosa, estigmatizante, facilidade de acesso a meios letais, estrutura familiar disfuncional, negligência familiar e doença mental parental ou história familiar de comportamentos suicidas

É preciso ter em atenção que nenhum fator de risco é em si mesmo o responsável. A gravidade do risco é multidimensional e dinâmica, dependente da mudança dos fatores de risco e dos fatores protetores. A avaliação implica a intervenção em três níveis: individual, familiar e social

A transição de um estado de risco crónico para agudo pode ser gradual ou muito rápida. A avaliação é um processo, não um acontecimento.

Quais são os sinais a que os pais devem estar atentos?

Tristeza, baixa auto-estima; irritabilidade, falta de preocupação ou até “desleixo”com a aparência física, dificuldades de adaptação à mudança, dependência, falta de objetivos, impulsividade, hostilidade, anedonia (falta de prazer e de interesses, de um modo geral), baixa da motivação e do rendimento escolar, escassez de diálogo e partilha de emoções, comportamentos autolesivos, isolamento social.

A adolescência é uma fase em que se pode estar mais vulnerável a influências externas, já que ainda não se possui uma identidade coesa e consistente.

Nestas idades, o chamado “efeito de Werther” ou imitação tem mais preponderância?

Na adolescência há uma intensa procura de um caminho próprio. Surgem variadíssimas questões às quais os adolescentes vão procurando dar resposta, de acordo com a sua maturação psíquica, inerente a esta fase do desenvolvimento. É uma fase em que existem muitas incertezas e inseguranças, os chamados conflitos internos da adolescência.

Assim, nesta construção passo a passo de uma estrutura psíquica mais autónoma, os adolescentes vão tendo vários modelos de identificação, não só os parentais, mas também os seus professores, os pares, ídolos, etc. Portanto, é uma fase em que se pode estar mais vulnerável a influências externas, já que ainda não se possui uma identidade coesa e consistente.

Jovens mais fragilizados do ponto de vista emocional ou com menos modelos de identificação protetores, estão mais em risco de seguir estes comportamentos de imitação do suicídio (efeito de Werther).

Quando, por exemplo, numa escola ou no círculo próximo um acontecimento destes se dá, o que devem os adultos responsáveis fazer?

Numa escola, deve dar-se formação pessoal e cívica, social, para além de académica. Assim, deve existir informação dada aos estudantes, com enquadramento em sessões, que podem decorrer em contexto de sala de aula ou fora dele, sobre este tipo de fenómenos. Um debate assertivo e responsável será muito construtivo e dará referências fundamentais aos alunos.

Os professores devem estar atentos aos alunos que apresentam mais fatores de risco, bem como aos que solicitem ajuda, mesmo que esses fatores não tenham sido identificados.

Deve ser tomada a iniciativa de contacto com as famílias desses jovens e o aconselhamento para uma avaliação e acompanhamento em saúde mental.

Em casa, os pais desses jovens, para além de diálogo, atenção, tempo de qualidade na relação e vigilância acrescida junto dos filhos, devem procurar ajuda em consultas de saúde mental.

Está documentado que após a notícia de um suicídio de alguém conhecido, a taxa de indivíduos que se suicidam aumenta em cerca de 12%.

Por causa do tal efeito de Werther convencionou-se, por exemplo, na comunicação social não noticiar suicídios (ou fazê-lo de forma subtil). Fazer deste assunto um assunto tabu pode ser contraproducente?

A comunicação social pode ser muito útil na divulgação de informação assertiva, com background científico, desta temática do suicídio em jovens. Pode facilitar a difusão de informação médica e científica à população em geral, de modo a alertar todos e poder criar uma rede de prevenção mais eficaz.

Os jovens podem ficar devidamente informados e os adultos, nomeadamente pais e outros familiares, bem como professores, podem ficar mais atentos e detetar mais facilmente sinais de alarme, no sentido de poder ajudar jovens em risco.

Isso é diferente da divulgação de casos objetivos de suicídio, que de facto para além de poder alarmar a população, sobretudo se as notícias forem recebidas de forma sensacionalista, corre o risco de ter efeitos negativos em jovens que possam ser vulneráveis, a ponto de iniciar comportamentos de imitação.

Está documentado que após a notícia de um suicídio de alguém conhecido, a taxa de indivíduos que se suicidam aumenta em cerca de 12%.

É este fenómeno que se designa de Efeito de Werther, que consiste no efeito imitativo do comportamento suicida. O nome advém da obra de Goethe “Os sofrimentos do jovem Werther”, na qual a personagem principal se suicida após uma rutura amorosa. Aquando da sua publicação em 1774, cerca de 40 jovens imitaram o comportamento suicida do protagonista. Esta situação levou inclusive à proibição da obra em alguns países europeus.

As redes sociais e a internet vieram agravar o fenómeno do suicídio adolescente? Em que medida e porquê?

As redes sociais e a internet de um modo geral têm muitos aspetos positivos, mas infelizmente também negativos. Está descrita, por exemplo, a “depressão Facebook”, que afeta jovens vulneráveis. Estes ficam sistematicamente num registo de comparação da sua vida com a que está documentada nalguns perfis sociais, sentindo-se inferiorizados e impossibilitados de competir com o que consideram “o fabuloso e perfeito mundo virtual”.

Tudo começa com a falsa sensação de participação na vida dos outros, criação de laços superficiais, afastamento das pessoas do mundo real. Vai-se agravando a dificuldade em lidar com a frustração e acaba por se instalar um quadro de depressão.

Ter em atenção que a tecnologia não pode ser responsabilizada diretamente pela mudança de comportamentos ou valores.

A tecnologia não é um dispositivo neutro que surge num contexto em branco. Os contextos individuais, familiares, escolares e sociais diferentes modelam as condições para a utilização e incorporação da internet pelos adolescentes. São mais vulneráveis jovens com inibição, comunicação pobre, extrema sensibilidade à rejeição ou falha, dificuldades na regulação emocional e na socialização.

Está descrito o cyberbulling, que consiste na divulgação online de informações embaraçosas e hostis sobre outros. O cyberbulling é um fator de risco para depressão e suicídio. Deve fazer-se queixa às autoridades competentes, nos casos que o justifiquem.

Fenómenos como o Momo ou a Baleia Azul têm impacto porquê? Que fragilidades exploram? Que tipo de miúdos influenciam?

As crianças e jovens mais fragilizados em termos de autoestima, deprimidos, mais isolados no seu sofrimento psíquico, com menos proteção familiar e social, são os que estão mais em risco de valorizar este tipo de mundo virtual e de se deixarem “comandar” cegamente.

Também os que forem menos organizados do ponto de vista psíquico, como por exemplo os adolescentes com patologia da personalidade tipo “borderline” estão mais sujeitos a sofrerem a influência destes jogos que são mórbidos, perigosos, patológicos, e que de algum modo vão ao encontro do seu “mundo interior” confuso, bizarro, angustiante.

O bullying é um dos fatores de risco para o suicídio. Como agir?

Está amplamente documentado que o bullying é um fator de risco para estados de depressão e comportamentos suicidas nos jovens. Os familiares dos jovens vítimas de bullying devem tomar medidas de proteção no círculo próximo, que geralmente é o meio escolar.

Devem pedir ajuda ao corpo docente para serem postas em prática medidas de vigilância e proteção à vítima.

Os agressores na escola podem, por exemplo, ser instados a fazer na turma uma apresentação sobre o tema de bullying em geral. Tal permitirá uma autorreflexão sobre o assunto, que pode ser construtiva no sentido da consciencialização cívica e não repetição do comportamento. Em casos que o justifiquem, estes jovens agressores podem precisar de ajuda em saúde mental.

As vítimas de bullying devem ser acompanhadas em saúde mental. Por um lado, à partida já são habitualmente frágeis do ponto de vista psíquico (e essa fragilidade torna-as alvos fáceis, “selecionados” pelos agressores, que os percebem incapazes de reação), por outro lado essa fragilidade agrava-se significativamente com a existência de comportamentos de bullying e o risco de depressão e suicídio é real.

É possível traçar um perfil psicológico destes jovens com “tendências” suicidas?

Os fatores de risco psicológicos são impulsividade, hostilidade e agressividade, baixa autoestima, dependência, desamparo, sentimento de falta de pertença (ao grupo familiar, escolar, ou social), que conduz a um isolamento gerador de angústia, perfeccionismo e rigidez de funcionamento psíquico, com dificuldades na adaptação à mudança, negativismo, escassos recursos de “coping” (dificuldades em lidar com o stress).

O diálogo, cumplicidade, tempo de qualidade em conjunto, adequada relação pais-filhos, são fatores protetores muito importantes.

Como deve a família reagir?

A família deve procurar estar atenta e vigilante às rotinas do jovem. Deve evitar-se que fiquem isolados, tentar fomentar a ligação também com o seu grupo de amigos.

Tentar que os jovens tenham rotinas saudáveis, que passem por uma alimentação e qualidade do sono adequadas. Devem incentivar-se saídas frequentes para o exterior, sobretudo para locais relaxantes como a natureza ( mar, campo), mas igualmente procurar dinamizar os interesses próprios da adolescência, como idas a concertos, encontros com amigos, prática desportiva, etc.

O diálogo, cumplicidade, tempo de qualidade em conjunto, adequada relação pais-filhos, são fatores protetores muito importantes.

É fundamental a orientação para a consulta de pedopsiquiatria. Estes jovens têm, como referido anteriormente, na maior parte dos casos, uma perturbação psiquiátrica, nomeadamente depressão. Devem ser diagnosticados e tratados o mais precocemente possível: o tratamento implica habitualmente uma abordagem psicoterapêutica, normalmente em combinação com terapêutica farmacológica. Deve ser feita a articulação com a família e geralmente também a escola e se possível meio social.

Muitas vezes desvaloriza-se os sinais ou até os avisos porque se acha que não passa de uma chamada de atenção. Isso pode ser fatal?

Nunca se deve considerar que uma tentativa de suicídio é apenas uma chamada de atenção. Por um lado, porque este tipo de comportamento está associado a um enorme sofrimento psíquico, para o qual existe tratamento. Por outro lado, mesmo que tenha por base um comportamento supostamente manipulador, pode realmente ser fatal.

Os quadros de ansiedade, muitas vezes com somatizações, têm aumentado substancialmente na infância e adolescência. A ansiedade prolongada, não tratada, vai acabar por gerar depressão.

A depressão adolescente é um dos fatores de risco mais importantes para o suicídio. O que pode explicar um aumento da depressão entre adolescentes?

A depressão é uma doença multifatorial. Podem estar envolvidos fatores genéticos e do meio (familiar, escolar e/ou social). Os adolescentes com depressão devem ser diagnosticados e tratados, o mais precocemente possível.

Não há atualmente um estigma tão grande como em épocas passadas, relativamente à ida a consultas de saúde mental. Em parte, esta situação explica um aumento no número de casos reportados de depressão.

Por outro lado, assiste-se em Portugal nos últimos anos a algumas mudanças. Alguns aspetos que podem justificar o elevado número de casos de depressão:

– ritmo frenético na vida de algumas famílias, sem que haja tempo de qualidade na relação pais/filhos

– situações de excessiva pressão académica

– falta de tempo de lazer, por sobrecarga horária, quer letiva, quer extra-curricular (geralmente com desadequação absoluta relativamente à faixa etária)

– os jovens cada vez passam mais tempo fechados em casa, ou a estudar, ou nas tecnologias, em detrimento de atividades ao ar livre

Os quadros de ansiedade, muitas vezes com somatizações, têm aumentado substancialmente na infância e adolescência. A ansiedade prolongada, não tratada, vai acabar por gerar depressão. Esta situação também agrava os números de casos detetados de depressão.

É possível prevenir? Como?

Estar informado sobre os fatores protetores relativamente ao suicídio é importante. São nomeadamente: flexibilidade cognitiva, rede familiar, escolar e social de suporte, inexistência de eventos de vida precipitantes, ausência de perdas, atitude positiva perante a vida, tratamento da perturbação psiquiátrica. A escuta empática, o diálogo, a vigilância construtiva, atenção reforçada aos jovens em risco, por parte dos familiares e outros adultos responsáveis, como os professores, são muito importantes. Deve ser feita a referenciação para consultas de saúde mental.