Nuno Graciano: «Há pais que não nasceram para ser pais»

Nuno Graciano vai lançar um livro sobre parentalidade e a DN Life esteve à conversa com o autor, ex-apresentador de televisão e empresário da marca Tio Careca. Não Me Chamem Bom Pai chega às livrarias a 3 de outubro

Texto de Alexandra Pedro | Fotografia Nuno Pinto Fernandes/Global Imagens

Depois de deixar a televisão, Nuno Graciano dedicou-se à produção de queijos da Serra da Estrela e criou a sua própria marca, Tio Careca. Depois de se afirmar na indústria dos produtos regionais, decidiu agora lançar um livro sobre paternidade. Porquê? Porque tem quatro filhos e queria partilhar a sua experiência.

Em entrevista à DN Life garante que este pode ser um livro incómodo para os «progenitores» (nome que dá a quem considera que não sabe o que é ser pai) pois não irão rever-se naquilo que escreve e, sem «medo de colocar o dedo na ferida», diz o que pensa sobre as relações familiares de hoje.

Não Me Chamem Bom Pai será publicado a 3 de outubro e apresentado no mesmo dia no Jardim Zoológico de Lisboa. Antes disso, leia a entrevista com o autor, que diz querer falar mais sobre a paternidade.

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«O que terá este tipo a dizer sobre paternidade?» A pergunta é sua.
Imenso. Mais que não seja por ser pai de quatro filhos [Gonçalo (21), Tomás (17), Matilde (13) e Maria (9)] e todos com idades muito diferentes. Este livro tem muito a ver com o facto de ter vivido uma carreira muito longa na televisão – de 20 e tal anos – e ter percebido que a maior parte dos pais não se comporta como pais.

Como assim?
Para mim a palavra «pai» já engloba tudo. Significa excelência, amar e educar incondicionalmente. Os que não são pais são apenas progenitores. Existem muitos progenitores que estão lá por casa e não assumem as suas funções de pai. Porque não querem, porque não têm gosto e porque acham que têm de ser as mulheres a tomar conta dos filhos. São uma cambada de egoístas que só olham para o seu umbigo.

«Os pais têm uma espécie de capa invisível para a eternidade com os filhos. queremos protegê-los mas também deixá-los voar»

Por que acha que acontece isso… pais que se demitem de ser pais?
Há pessoas que não nasceram simplesmente para ser pais. E quando os casais se separam ainda é mais notório. E, mais uma vez, acho que tenho muita legitimidade para falar sobre isso. Eu separei-me da Patrícia, a mãe dos meus filhos, há 14 anos e neste período vi-os todos os dias.

O nome do livro [Não Me Chamem Bom Pai] pode ser um pouco controverso. Quer explicá-lo melhor?
Tem sido muito engraçado ver a reação das pessoas. Mas está relacionado com o facto de eu considerar a palavra pai já por si um adjetivo, que engloba ser-se bom.

Um amor por um filho tem de ser incondicional e eterno?
Nós temos uma espécie de capa invisível para a eternidade com os filhos. Queremos protegê-los, mas também deixá-los voar – se bem que se virmos que o voo é perigoso também somos a rede por baixo. E isso não é desresponsabilizarmo-nos deles. Mas muita gente não se responsabiliza pelos filhos. Não se responsabiliza sequer para os educar. Já nem falo de amar – que é só o mais importante.

Mas acha que a maioria dos pais é despreocupado e desligado dos filhos?
Sinceramente, acho.

«Detesto ‘paizinhos’ que permitem que as crianças batam aos pais e detesto ‘paizinhos’ que permitem que as crianças andem aos guinchos e a correr nos restaurantes»

De que forma é que a mudança de vida e de organização financeira afetaram a relação com os seus filhos?
Foi o suficiente para eles perceberem que a vida prega-nos partidas e que nós temos que ter a mestria e a segurança para saber mudar. Eu mudei de vida aos 46 anos, quando tinha um ordenado óptimo numa estação de televisão. Mas, a certa altura, achei que nada daquilo fazia sentido.

E mudou…
De repente, comecei a produzir queijo da Serra da Estrela. E eles [os filhos] tiveram que perceber que a realidade pode mudar e que podemos ser felizes de diversas formas.

Que regras são preponderantes na sua casa?
Existem várias e começam desde cedo. Detesto «paizinhos» que permitem que as crianças batam aos pais, por exemplo. Detesto «paizinhos» que permitem que as crianças andem aos guinchos e a correr nos restaurantes. Os meus filhos sempre foram comigo a restaurantes e desde pequenos que eu sei que, precisamente por serem crianças, não vão às nove horas da noite. Vão às sete porque assim às oito horas vão estar a sair. Primeiro, porque não querem lá estar tanto tempo e depois porque é a hora a que começam a chegar outras pessoas. Na minha casa, as coisas também só se dizem uma vez. Quando digo «vai tomar banho», eles vão tomar banho. Quando digo «vão para a mesa», eles vão para a mesa.

Não há birras?
O que é isso das birras? Se a criança não vai é porque está mal-educada. Os meus filhos são crianças muito felizes e fazem os maiores disparates do mundo, mas isso é diferente de incomodarem as pessoas. Vou dar-lhe outro exemplo: os meus filhos estão proibidos desde pequenos de chamarem nomes uns aos outros. Detesto irmãos que se tratam por «estúpido» ou «parva». Não existe isso em minha casa. Não têm que faltar ao respeito a ninguém, muito menos aos irmãos.

«Eu, que nunca fico nervoso em televisão, quando recebia pessoas mais velhas, muitos deles desprezados por estes atrasados mentais destes putos novos, ficava nervoso»

Acha que está a dar um bom exemplo para eles serem bons pais no futuro também?
Acho que sim, acho que estão a ter um bom exemplo. Mas há outras coisas em que fui péssimo. Mas quando sou mau, peço-lhes desculpa.

No livro, diz que as suas características de pai se devem ao neto que foi. De que forma é que os seus avós o influenciaram?
Tive a sorte de crescer e viver a minha infância junto dos meus avós. Adoro cabelos brancos e acho que eles têm sempre muito para nos ensinar. Eu, que nunca fico nervoso em televisão, quando recebia pessoas mais velhas, muitos deles desprezados por estes atrasados mentais destes putos novos, ficava nervoso. Se fosse o Nicolau Breyner, Raul Solnado ou o António Fagundes tinha muito respeito.

No livro são expostos alguns exemplos de interações que teve em directo sobre parentalidade.
Passo a vida em tribunal por causa disso.

Como assim?
Não consigo reconhecer valor a uma pessoa que não tem filhos mas que opina imenso sobre os filhos dos outros. Isto pode ser politicamente muito incorreto mas acho que quando as pessoas não têm filhos, no mínimo, devem ter a humildade de ouvir quem tem. Podem estudar muito, mas a experiência do dia a dia é diferente. Isto para dizer que havia uma senhora que palpitava imenso sobre filhos – sem ter filhos – e um dia vai ao meu programa dar imensas dicas. Irritei-me com a mulher em direto. Mais tarde, teve um programa de televisão, que foi um «flop» total. Teve dois ou três episódios. Da mesma forma que me irrito quando os pais que se separam utilizam os filhos como arma de arremesso. São umas bestas. Numa separação, os filhos devem ter ainda mais atenção. É também por situações dessas que acabei por escrever o meu livro.

«Para mim, os filhos que maltratam os pais, no mínimo, prisão perpétua. Os pais que sodomizam os filhos, no mínimo, pena de morte. Sou radical nestas situações»

Considera que o papel de mãe e pai são muito distintos?
Essa pergunta pode ser facilmente confundida com machismo ou feminismo. Mas acho que sim. Não é o mesmo papel. A mãe tem a vantagem gigante de transportar nove meses um ser que gerou dentro de si. Portanto, nós [homens] temos de pedalar muito para chegar aos calcanhares das mães.

O Nuno pedalou muito?
Sim. Assim que eles nasceram – e fiz isto com os quatro – fiquei logo a tomar conta deles. Nos primeiros três meses, tentei sempre dar os banhos, mudar as fraldas e colocar os cremes. Foi a forma que arranjei de eles se ligarem mais a mim.

Surgem em abundância notícias sobre agressões entre pais e filhos ou até situações mais gravosas. O que acha que motiva estas relações mais difíceis?
Não sei se deva responder. Para mim, os filhos que maltratam os pais, nomeadamente os pais que já são idosos, no mínimo, prisão perpétua. Os pais que sodomizam os filhos, no mínimo, pena de morte. Sou radical nestas situações. Não há o direito de violar uma criança porque isto marca pelo menos três gerações.

«Aos 50 anos, os filtros já foram todos»

Não tem medo que as suas opiniões, «radicais» como adjetivou, o coloquem em situações complicadas?
Com 50 anos? Os filtros já foram todos e sempre tive poucos. É apenas a minha opinião.

Tem e expõe ideias muito concretas também sobre o amor entre casais, nomeadamente afirmando que não acredita que exista amor para a vida toda.
Essa é outra questão que tem gerado polémica no livro. Tem a ver com a monogamia. Eu acho que os seres humanos, de uma forma geral, não nasceram monogâmicos. E, portanto, enganamo-nos todos uns aos outros. A nossa natureza é olhar para o lado. É achar o colega do trabalho giro ou aquela senhora engraçada. Tudo isto, pode levar à infidelidade e aí coloca-se outra questão: «onde começa a infidelidade?». Começa no pensamento ou no ato? É que eu talvez prefira que a minha companheira dê uma cambalhota com alguém do que ande quatro ou cinco meses a pensar no colega do lado.

Desde que deixou a televisão em 2016, fundou uma marca de produtos regionais Tio Careca e agora lançou o seu primeiro livro. O que podemos esperar do Nuno nos próximos tempos?
Não sei. Nunca sei. Sei apenas que não gosto de estar sem fazer nada e que vou falar e escrever mais sobre paternidade.

Não Me Chamem Bom Pai, de Nuno Graciano, vai ser apresentando a 3 de outubro no Jardim Zoológico de Lisboa

Leia aqui alguns excertos do livro de Nuno Graciano: Não Me Chamem Bom Pai