Em terra de gordos quem sabe escolher é magro

De acordo com os dados mais recentes do Ministério da Saúde, mais de metade dos portugueses têm excesso de peso.

A taxa de obesidade da população portuguesa tem aumentado ao longo dos últimos anos e corresponde atualmente a 16,1% da população total. Portugal posiciona-se, assim, um ponto acima da média europeia, ou seja, também somos campeões europeus mas da obesidade.

A obesidade é, por si só, uma doença. No entanto, é também um fator de risco para o desenvolvimento de outras doenças crónicas como a hipertensão, diabetes ou cancro que representam 86% da carga de doença no sistema de saúde. Ou seja, se o nosso Serviço Nacional de Saúde está cada vez mais congestionado, a esta epidemia de doenças crónicas o deve.

Na base deste ciclo vicioso estão os hábitos alimentares inadequados.

A alimentação dos portugueses é caracterizada pelo consumo excessivo de sal, açúcar e gorduras. Mas, aqui o leitor concordará comigo, na maior parte das vezes que cometemos pecados alimentares fazemo-lo sem zelo.

Na verdade, a evidência científica disponível sugere que os consumidores têm dificuldades na interpretação da informação presente nos rótulos nutricionais dos alimentos. Curiosamente, a obesidade é mais prevalente entre as pessoas que não se interessam ou não conseguem entender os rótulos. Apesar da maioria dos portugueses admitir a consulta dos rótulos no momento de compra, cerca de 40% não compreendem a informação nutricional básica.

Foi com o objetivo de ajudar os consumidores a fazerem escolhas alimentares mais informadas que a SONAE, há 10 anos, se tornou pioneira no uso de um “semáforo nutricional” nos produtos de marca própria.

A onda da alimentação saudável trouxe consigo uma preocupação crescente dos consumidores no que concerne os seus padrões alimentares. De facto, de acordo com os dados da SONAE, os consumidores veem o uso de semáforos nutricionais nos produtos que compram como um sinal de transparência, aumentando a sua confiança.

Por seu lado, a Auchan Portugal anunciou recentemente a adoção do sistema Francês Nutri-Score nos seus produtos a breve trecho.

Caso para dizer não há fome que não dê em fartura. Portanto, se no passado o problema do mercado português era a falta de sistemas interpretativos dos rótulos dos alimentos, agora o problema é que cada marca ou cadeia parece estar a desenvolver um semáforo nutricional à sua medida. Hoje há semáforos nutricionais de praticamente todos os formatos, cores e porções. O mais curioso de todos é um sistema de semáforo nutricional desenvolvido em conjunto pela Coca-Cola, Mars, Nestlé, PepsiCo e Unilever, que graças a uma simples alteração no tamanho das porções consideradas conseguiu que os seus produtos passassem automaticamente de vermelhos (a evitar) a amarelos ou verdes (recomendados).

Sejamos sérios! Pior do que falta de informação é a confusão gerada pela informação em demasia. Por isso, está na hora de o Ministério da Saúde pôr ordem no setor e definir o sistema interpretativo de rotulagem que deverá ser usado por todos os operadores que tenham a genuína motivação de informar mais os seus consumidores sobre aquilo que comem. Esse movimento não poderá ser motivado pelas vendas. Esse movimento terá de visar, em primeiro lugar, a Saúde Pública.

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E se esse for o objetivo, a evidência científica é bastante clara sobre o caminho a seguir. De acordo com parecer técnico da Organização Mundial da Saúde, o futuro virá de França, através do sistema de interpretativo nutricional «Nutri-Score» [ver vídeo acima]: um modelo mais simples, integrado e intuitivo para os cidadãos. Este sistema mostrou não só ser o preferido dos consumidores, como também demonstrou vantagens para as populações mais desfavorecidas e mais expostas a alimentos de pior qualidade nutricional em França. A ministra da saúde da Bélgica anunciou recentemente o seu apoio ao Nutri-Score. E em Portugal? Estamos à espera de quê para o estampar em todos os rótulos?