O abuso sexual explicado por uma criança de 8 anos

Recentemente, falei com algumas crianças sobre abuso sexual (sim, é um tema que deve e pode ser falado com tranquilidade, sem tabus e sem stresses). Uma delas, um menino de 8 anos com quem já abordei a temáticas várias vezes, esticou-se na cadeira e disse que queria ser ele a explicar aos outros meninos o que era o abuso sexual.

Achei fantástica a naturalidade e espontaneidade com que uma criança de 8 anos (curiosamente, a idade onde se observa um pico de incidência do abuso sexual, de acordo com os dados nacionais disponíveis) se prontificou a explicar o abuso sexual.

Aqui está a sua explicação, simples, clara e sem as complicações que os adultos adoram imputar aos temas mais complexos.

De olhos bem abertos e com um sorriso de quem se sente muito seguro naquilo que diz, começou ele:

«Abuso sexual é quando outra pessoa faz coisas que nós não gostamos nas partes privadas. As partes privadas são a pilinha, o pipi e o rabo. Quer dizer, já aprendi que é a vagina, ou melhor, a vulva, o pénis nos meninos e o rabo. E as mamas nas meninas.

E as outras pessoas podem ser pessoas da nossa família, pais, tios, avós, primos. Ou pessoas que não são da nossa família. Como vizinhos, amigos, professores, treinadores de futebol ou de outro desporto qualquer. Ah, e podem ser homens ou mulheres. Acho que há mais homens, mas também há muitas mulheres que fazem isso. Pois é…

Mexem nas nossas partes privadas ou mostram as partes privadas deles. Ou dizem para nós tocarmos nas partes privadas deles. E as partes privadas são nossas, não são para mostrar ou tocar assim de qualquer maneira. Aprendi que o meu corpo é só meu. Só podem mexer quando vamos ao médico, ou estamos magoados… ou quando nos ajudam a limpar, mas eu já me sei limpar sozinho.

E quando mexem ou mostram pedem segredo. E os segredos não se contam. Mas só os bons segredos é que nós guardamos. Por exemplo, uma prenda que vamos oferecer».

Perguntei: «E quando essas pessoas pedem segredo sobre as partes privadas, é um bom segredo?»

E ele continuou:

«Não, é um mau segredo. Porque nos faz sentir tristes. E os segredos bons fazem-nos sentir… contentes. E os maus segredos não se podem guardar. Não, temos de os contar logo a uma pessoa de confiança. Aos pais, professores, psicólogos, médicos ou a um adulto que nos possa ajudar. Ah, e se essa pessoa não nos ajudar temos que contar a outra. É assim. Aprendi que temos que contar até que alguém nos ajude.

E temos que dizer que não e que vamos contar a alguém. Pedir ajuda.

Ah, é verdade, e também há a internet, as redes sociais, o instagram, e isso tudo. Eu ainda não tenho telemóvel mas jogo e vejo vídeos no tablet da minha mãe e, às vezes, no telefone da minha irmã… gosto de ver os youtubers. E às vezes as pessoas que nos querem fazer coisas nas partes privadas ou mostrar coisas fazem através da internet. Temos que ter cuidado, mostrar aos pais o que fazemos na internet. Porque na internet nós podemos não conhecer com quem estamos a falar e pensamos que é uma pessoa boa e afinal não é».

Depois disto, o que me faltava explicar às outras crianças? Muito pouco.

Obrigado, Diogo, pela tua partilha tão pertinente.

De uma forma tão simples, abordaste os principais conceitos que é preciso compreender para prevenir o abuso sexual de crianças e adolescentes. Conceitos que os adultos teimam em complicar.

Para terminar, apenas uma nota. Não, esta criança não está traumatizada porque se abordou este tema. Pelo contrário, sente-se mais segura porque sabe o que é o abuso sexual, como detectar potenciais situações de risco e o que fazer perante as mesmas. E estes conhecimentos e competências diminuem o nível de ansiedade, na medida em que a criança desenvolve uma maior sensação de controlo.

Rute Agulhas é psicóloga e terapeuta familiar, especialista em Psicologia Clínica e da Saúde, Psicoterapia e Psicologia da Justiça. Perita na Delegação Sul do INMLCF, é docente e investigadora no ISCTE-IUL, além de membro do Conselho Jurisdicional da Ordem dos Psicólogos Portugueses.

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