O amor e uma quinta no Alentejo

Numa vida, cabem várias. Que o digam Berny Serrão e Glenn Cullen, que juntos palmilharam o mundo em trabalho para vir encontrar o «paraíso» no Alentejo.
Texto de Ana Patrícia Cardoso | Fotografia de Reinaldo Rodrigues/Global Imagens

De empresas multinacionais a um refúgio de sonho em Casa Nova da Cruz, a dois passos de São Teotónio. O casal não poderia adivinhar o que o esperava quando se conheceu, há vinte anos, na África do Sul, numa daquelas festas de empresa que normalmente tentamos evitar.

Glenn, 58, é australiano mas com três anos foi viver para o Reino Unido. Berny, 48, é uma portuguesa nascida Moçambique. Ele trabalhava há anos como diretor criativo em publicidade e parte do trabalho passava por abrir novos escritórios em várias cidades. Numa dessas incursões conheceu Berny, que trabalhava como designer gráfica noutra empresa. Quando as duas marcas se fundiram, o casal conheceu-se no evento de lançamento. Início inesperado de uma história de amor – e de viagens – que culminaria no Alentejo. Curioso?

Berny, que nasceu em Maputo mas viveu 20 anos no país vizinho, acompanhou Glenn e mudou-se para Londres, em 1999. Voltaram a África para casar, em 2002, e a filha Gisela nasceu em 2004. No ano seguinte, Glenn aceitou a proposta para ser o chefe de operações de uma empresa com 21 escritórios em 14 países da Ásia. Mudaram-se para Singapura, onde viveram por três anos. Nesta altura dá-se a viragem, da qual Berny seria a grande mentora.

Quando a família se mudou definitivamente em 2008, a designer já tinha em mente transformar a casa de férias num turismo rural, mas Glenn ainda tentou trabalhar em publicidade no mercado português.

Recuemos até 2001, quando a família vivia em Londres. «Tive alguma dificuldade em habituar-me ao clima cinzento. Sentia falta do calor, do sol. O Alentejo sempre me lembrou África, com aquelas paisagens a perder de vista e a costa de cortar a respiração. Inicialmente, persuadi o Glenn a pensar em comprar uma casa como investimento. Quando ele percebeu do que eu falava, também se apaixonou pelo sudoeste alentejano.» Encontraram o terreno e não olharam para trás.

Quando a família se mudou definitivamente em 2008, a designer já tinha em mente transformar a casa de férias num turismo rural, mas Glenn ainda tentou trabalhar em publicidade no mercado português. As coisas não funcionaram como imaginou. «Aqui, a ética profissional é um desafio. Nunca consegui aplicar todo o potencial das minhas competências profissionais. Daí que ainda tenha trabalhado fora tanto tempo depois de já termos comprado a casa.»

Aceitou uma proposta em Moscovo e outra em Amesterdão, mas as saudades da mulher e da filha ditaram a decisão. «Era óbvio o caminho. Ficámos os dois a gerir a guest house. Foi um salto de fé enorme tendo em conta a estabilidade que tinha em comparação com a total incerteza em relação ao sucesso da decisão.»

Tomou-lhe o gosto rapidamente. «Todos os dias, tenho novos desafios que nunca imaginei. Sinto que tenho mais satisfação pessoal agora do que em muitos anos na vida corporativa».
Para a mulher, que sempre foi criativa – não só como designer mas como pintora – esta foi uma construção de amor.

Quem visita, sente que chegou a casa de um amigo. Uma casa bem escondida, como o próprio nome indica.

«Decidimos ir devagar e testar todas as ideias com tempo. Decorei cada quarto com estilos diferentes e foram construídos em lugares distintos do monte. A terra ditou esses lugares, para ficar tudo em harmonia. Quisemos que os hóspedes sentissem essa personalização, sem sermos ousados ou impositivos. Gostamos de discrição.»

Quem visita, sente que chegou a casa de um amigo. Uma casa bem escondida, como o próprio nome indica. O caminho estreito até ao monte limita os olhares indiscretos e ali «o objetivo é descansar e recarregar baterias». Berny e Glenn encarregam-se de receber quem chega, convivem entre todos, partilham refeições. Hoje têm 10 quartos, não pensam expandir mais. A tranquilidade do Alentejo e amigos para brindar. Difícil imaginar um paraíso melhor.