O amor não escolhe idades (ou será que sim?)

Podem ser dez anos de diferença entre o casal. Ou 20. Ou muitos mais – diz quem sabe que não tem a mínima importância gostar de alguém que seja mais velho ou mais novo do que nós. A única coisa que importa é o amor.

Texto de Ana Pago | Fotografias da Shutterstock

João Costa, 53 anos, e Filipa Silva, de 36, cresceram a ouvir dizer que o amor não tem idade (quem a tem somos nós), chega sempre na hora certa (seja ela qual for) e anos são apenas números quando se ama alguém (tal como a altura ou o peso). Tudo muito bonito, sem dúvida. Por eles, subscrevem na íntegra. “Até que começámos a namorar e percebemos que havia quem comentasse em tom crítico a nossa diferença de idades, que nem é nada por aí além”, conta o engenheiro informático, habituado ao falatório.

Tudo porque a aceitação da diferença é sempre um desafio, explica a psicóloga Cláudia Morais, terapeuta familiar e de casal e autora d’Os 25 Hábitos dos Casais Felizes (ed. Manuscrito). “De um modo geral, somos educados no sentido de corresponder à norma e acabamos por criar muitas expetativas em relação às pessoas que conhecemos ou de quem gostamos.” Preconceitos, diz, nascem do medo, que é tanto maior quanto mais significativa for a diferença de idade entre os membros do casal.

«Há o medo de a pessoa mais nova não vir a ter filhos. Medo de que se farte e, mais cedo ou mais tarde, não queira estar ao lado de alguém muito mais velho», aponta a especialista em relacionamentos amorosos. Há ainda o medo legítimo, inerente a todas relações amorosas, de que um dos dois possa sair especialmente magoado.

Os pais esperam sempre que os filhos construam uniões estáveis, e que delas surjam netos.

«Para os pais, é quase sempre expetável que os filhos construam uniões estáveis e que delas surjam netos», justifica Cláudia Morais. Por outro lado, se nenhum filho gosta de imaginar como será a atividade sexual dos pais, gostará ainda menos de encarar a possibilidade de que o pai ou a mãe possam estar alegremente a rebolar com um parceiro muito mais novo.

Por cá, um amor que sempre deu que falar pelos 42 anos de diferença entre ambos foi a de Paula Marcelo, 52 anos, e Camilo de Oliveira (falecido em julho de 2016, aos 91). “Não me vejo sem ele. Não sei como vai ser”, dizia a atriz numa entrevista à TV Guia em 2015, atormentada pelos dois tumores do companheiro. Também os atores José Raposo, 56 anos, e Sara Barradas, de 28, vivem felizes à espera da primeira filha em comum. Casaram-se em 2011, ele com 48 anos, ela com 21, indiferentes às más-línguas.

João e Filipa entendem-nos na perfeição: “Fui casado durante 11 anos, tenho uma filha adolescente desse casamento, mas é com a Filipa que me sinto completo”, confessa o engenheiro informático, apaixonado por ela como no primeiro dia. A namorada concorda: “Conhecemo-nos no ginásio tinha o João 40 anos e eu 23, foi faísca imediata. Nunca mais nos largámos.” Os pais ainda resistiram, duvidaram, barafustaram, porém lá acabaram por se render à evidência.

Na prática, a satisfação conjugal vai sempre depender de vários fatores, um dos quais é a forma como a rede de suporte olha para a relação.

E ainda bem, aplaude a psicóloga Cláudia Morais. Na prática, a satisfação conjugal vai sempre depender de vários fatores, um dos quais é a forma como a rede de suporte olha para a relação. “Quanto maior for o apoio dos familiares e amigos, maior é a probabilidade de o casal dar certo”, nota. Por outro lado, quanto mais tensões e juízos de valor houver, mais vulnerável fica a relação.

Um estudo realizado junto de três mil pessoas por Andrew Francis-Tan e Hugo Mialon, investigadores da Universidade Emory, EUA, confirma que a diferença de idades pode, sim, traduzir-se num risco acrescido para o amor: gaps de dez anos entre os parceiros significam 39 por cento mais de probabilidade de acabar em divórcio, enquanto desfasamentos de 20 anos aumentaram para 95 por cento as separações.

Com o tempo, é provável que as expetativas mudem dentro do casal, levando a que aquilo que não é um problema no início da relação se transforme em foco de tensão mais tarde.

“Cada um amadurece e é provável que as expetativas mudem, levando a que aquilo que não é um problema no início da relação se transforme em foco de tensão mais tarde”, explica a terapeuta familiar. Por exemplo: o elemento mais jovem pode começar por minimizar o facto de o parceiro não querer ter filhos e descobrir, com o tempo, que afinal isso importa. Ainda assim, avisa, as conclusões estão longe de querer dizer que casais com diferenças etárias expressivas estejam condenados ao insucesso.

Pelo contrário, concorda o psicólogo social americano Justin Lehmiller, da Universidade do Colorado, que nas suas pesquisas apurou que o apetite sexual feminino aumenta com o passar dos anos. “Mulheres mais velhas que casam com homens mais novos são estigmatizadas – a aventura e a experiência continuam a estar muito mais associadas ao papel masculino –, contudo revelam-se altamente satisfeitas”, diz.

No fundo, quem acha que a diferença de idades é um problema é só porque ainda não descobriu que o mais importante é o amor.