«Ó boa, anda cá que o papá unta-te»

– A tua filha hoje foi assediada.
– O que é que aconteceu? Quem é que a assediou? Onde? Na escola?
– Não. Na rua. Um anormal qualquer que passou.
– Mas o que é que lhe fizeram? Onde é que ela está?
– Está no quarto. Deixa-a estar. Quer estar sozinha. Esteve duas horas a chorar. Não vás lá agora. Chegou a casa num pranto.
– Mas como é que foi? Agarraram-na? O filho da puta tocou-lhe? Onde é que foi isso? Foram à polícia?
– Não. Não lhe tocou. Fez um comentário porco. Ela estava na passadeira, ele passou de carro, ia de janela aberta e disse uma ordinarice.
– Uma ordinarice? Ah!!! Mandou-lhe um piropo. Isso tudo por causa de um piropo?
– Vou fingir que não ouvi isso. E acho bem que não vás com essa conversa para ao pé da miúda.
– Não vou com esta conversa para junto dela. Muito menos agora. Mas tu podes dizer-lhe.
– Posso dizer-lhe o quê?
– Que era só um piropo. Que os homens fazem isso. Não são todos, só alguns. E é preciso não ligar.
– A miúda tem 13 anos! E um homem com idade para ser pai dela disse-lhe que queria despi-la e lambê-la toda por fora e por dentro.
– Filho de uma grandessíssima puta!
– Queres ir tu dizer à tua filha que é só um piropo e que isso não faz mal porque é uma coisa que os homens fazem?
– Eu não digo que não faz mal. Estou só a dizer que ela vai ouvir mais coisas destas ao longo da vida. Não devia acontecer, mas se vai desatar a chorar de cada vez que um trolha solta uma dessas…
– Vai-se sentir mal, sim. E é normal que se sinta mal. Eu sou mãe desta criança e no que depender de mim ela vai crescer a achar que isto é errado e que os cabrões que o fazem deviam estar na prisão.
– Não vamos falar da criminalização do piropo com este exemplo.
– Ai não? É precisamente com isto que tu devias refletir. Tu és dos que acham que isto é tudo um exagero, não é? Pois agora tens aí uma forma de meter a mão na consciência. Olha, de cada vez que um porco diz uma coisa destas, não é na consciência que ele mete a mão. Ele mete a mão entre as pernas da tua filha. E entre as minhas, também. Sabes que a tua mulher também ouve, não sabes? Sabes aquele vestido que gostas de me ver? Aquele decote para onde gostas de olhar? Há outros homens que também gostam. E esses, que eu não conheço de lado nenhum e nem quero conhecer, são capazes de olhar para mim e dizer-me que devo ter um belo armazém, já que a montra é tão bonita. Ou então dizem que tenho uns lábios bons para chupa-chupas.
– Quem é que te disse isso?
– Eu tenho 40 anos. Já ouvi estas coisas muitas vezes. Sempre me senti despida, desprotegida. Quero pensar que o meu marido, ao saber que um cabrão é capaz de dizer isto à mulher ou à filha, fica revoltado.
– Se dissesse isso à minha frente partia-lhe a boca.
– Mas não dizem. O problema é que são uns cobardolas. E são protegidos por tipos como tu, que acham que isto é tudo um exagero. Sabes qual é o problema? O problema é a palavra «piropo». Se lhe chamassem «convite ordinário e agressivo» talvez tu e outros como tu pensassem de maneira diferente.
– Achas que o problema está no nome?
– O problema está na mentalidade. Ninguém acha que um tipo que diz que as flores têm pernas ou que o meu pai deve ser um terrorista porque eu sou uma bomba devia ir para a prisão. Isso é só piroso e de mau gosto. Mas um camelo que diz que me quer lamber e despir as cuecas com a boca – ou as da tua filha – esse devia pagar por isso.

[Publicado originalmente na edição de 3 de janeiro de  2016]