O delicado equilíbrio entre aquele que fala pouco e o outro que fala de mais

Marta,
Não sei bem o que se passa, mas não gosto disto. Não falas comigo – falar, até falas, mas mal – e de cada vez que te pergunto se está tudo bem, respondes que não te apetece conversar e que só queres estar no teu canto. Eu deixo-te estar no teu canto, já me habituei a estados de alma desses e a momentos em que precisas de estar com os teus botões, mas ao menos diz-me o que tens. Por que raio estás assim? É complicado viver com alguém que tem períodos destes. De cada vez que ficas com a telha e não me dás cavaco, ganho mais quantos cabelos brancos. E fico a pensar nisso. E fico preocupado que estejas bem. Para já, porque nunca sei quando é que vai acontecer. E depois porque nunca sei quanto tempo vão durar. Podes ter uma noite em que só queres estar no sofá a ver televisão e que eu não te chateie ou podes ter um fim de semana inteiro de pijama, a comer chocolates, enrolada numa manta, sem te apetecer sair de casa. E eu que me adapte.

E agora é o quê? É por causa do trabalho? Estás preocupada com o teu irmão? Zangada com a tua mãe? Ficaste enervada porque não fui buscar o que me pediste à lavandaria? Ou é por causa dos dias de férias no fim do ano? Foi alguma coisa que eu disse? Que eu fiz? Ou alguma coisa que eu não fiz e devia ter feito? Ou que devia ter dito e não disse? Raios, diz-me alguma coisa. Acende uma luz, faz um sinal, qualquer coisa que me ajude a perceber. Mas não me deixes a fazer cenários.

Eu sei que pareço repetitivo, mas se estás zangada, diz de uma vez. Se queres que nos separemos, diz também. Neste estado é que não. Era para ter falado contigo de manhã, mas achei que ias ficar chateada, por isso mando-te este e-mail.
Até logo.
Beijo, Miguel

Miguel,
Abençoado sejas, alminha de Deus, por não teres vindo com esta conversa de manhã. Foi o melhor que podias ter feito. Senão o raio da telha, que até já está a passar, voltava num instante.

Tu não pareces repetitivo. Tu és um disco riscado. E às vezes és chato. Cada vez que me vês calada vens logo perguntar se está tudo bem e o que é que eu tenho e o que se passa e se já não gosto de ti e se devemos conversar e mais não sei o quê. Não! Não me apetece conversar. Passamos a vida a conversar. Podemos falar um pouco para te tranquilizar e dizer que está tudo bem, mas não passes a vida a pedir-me isso. Não aguento. E não, não quero separar-me. No dia em que eu quiser separar-me de ti vais ser o primeiro a saber. E não vou andar uns dias de neura a pensar no assunto até to dizer. Vai sair-me logo. A neura virá depois.

O mundo não gira à tua volta. Não és, por muito que te custe, o centro do universo. Pelo menos do meu universo. Não estou chateada porque não foste à lavandaria. Quero lá saber. Se não foste tu, vou eu, estou habituada a tratar das minhas coisas. E quero lá saber das férias do fim do ano, marca quando quiseres. E não se passa nada no trabalho, não estou preocupada com o meu irmão nem zangada com a minha mãe. Estou só com o raio de uma neura. Se soubesse porquê dizia: «Estou triste porque…» Ou «estou zangada porque…» Mas como não sei, fico só no meu canto, não incomodo ninguém e espero que passe. E tu fazes bem em deixar-me lá estar. O que espero de ti é exatamente isso: que esperes também. E sim, que te adaptes. O que eu espero de alguém ao meu lado é que não seja uma drama queen e que não passe a vida a fazer cenários. E sim, que se adapte.
Pode ser?
Beijo, Marta

[Publicado originalmente na edição de 16 de outubro de 2016]