A OMS já a considera uma pandemia. «O grande problema da diabetes é que não dói»

É crónica, afeta crianças e adultos e o número de doentes está a aumentar. Um milhão de portugueses vive com diabetes tipo 2 e outros 20 mil sofrem da diabetes tipo 1. No mundo, 500 milhões de pessoas sofrem desta doença e, até 2045, prevê-se que vá afetar 645 milhões. Hoje é o Dia Mundial da Diabetes.

Texto de Ana Patrícia Cardoso

A Organização Mundial de Saúde (OMS) já considera a diabetes uma pandemia nas doenças não infecciosas. Não estamos a falar de um cenário alarmista, é «o reflexo do estilo de vida que adotamos hoje em dia» diz Estevão Pape, internista e membro do Núcleo de Estudos da Diabetes Mellitus da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna.

Em Portugal, os números oficiais não espelham a realidade. «Estimamos que pelo menos meio milhão de portugueses sofra de diabetes tipo 2 e não esteja referenciado», aponta o médico.

Em Portugal há cerca de 3.300 crianças que já recebem tratamento

Os dois tipos diferem na forma e nos tratamentos. A diabetes do tipo 1 é uma doença autoimune, de predisposição genética, em que há a destruição progressiva das células pancreáticas que produzem a insulina. Logo, ficam completamente dependentes de tomá-la por via externa. Surge sobretudo em crianças e jovens e em Portugal há cerca de 3.300 que já recebem tratamento.

Na de tipo 2, existe um défice metabólico de produção de insulina e de resistência à ação da mesma a nível celular. Ou seja, esta não é usada da forma adequada, acumulando-se no sangue e espalhando-se para todos os órgãos. A insulina é uma hormona que transporta a glicose (responsável por fornecer energia) para as células. «É a hormona da vida».

Prevalece em adultos e idosos, no entanto, com o aumento dos problemas relacionados com excesso de peso nas camadas jovens, este tipo é cada vez mais diagnosticado durante a adolescência.

Os tratamentos melhoraram muito nas últimas décadas. «Quando comecei a trabalhar, há 30 anos, encontrávamos as pessoas em coma. Era assim que sabíamos que sofriam de diabetes. Em 24 horas estavam bons mas deviam a vida à insulina que lhes aplicávamos no momento. Eram constantes situações de emergência», recorda Estêvão Pape.

«A dificuldade da diabetes está no seu dia-a-dia, mais no regime alimentar e na relação com a família e os outros do que propriamente na insulina.»

Hoje, as pessoas estão mais atentas e os exames regulares são mais eficazes. Ainda assim, há quem se descuide. «O grande problema da diabetes é que não dói. Como não dói as pessoas não ligam, senão davam conta.» O médico destaca os grandes sintomas da diabetes. «São a tríade da poli: poliúria (urinar muito), polidipsia (ter sempre sede) e a polifagia (muita fome).

Para o médico, adotar uma «educação para a vida», saudável e com exercício, é o grande desafio. «A dificuldade da diabetes está no seu dia-a-dia, mais no regime alimentar e na relação com a família e os outros do que propriamente na insulina. Mas se tiver uma boa educação terapêutica, consegue levar uma vida completamente normal.»

As mais frequentes complicações da diabetes são cardiovasculares. Mais deficiências cardíacas, mais ataques coronários e mais acidentes vasculares cerebrais.

Quem não seguir os tratamentos pode ter complicações sérias de saúde. A retinopatia diabética, uma lesão na retina diretamente causada pela diabetes pode provocar cegueira. O funcionamento interno dos rins também e, em casos extremos, podem haver amputações.

Mas o mais sério acontece a nível cardiovascular. Mais deficiências cardíacas, mais ataques coronários e mais acidentes vasculares cerebrais. «Os novos fármacos para a diabetes tipo 2 tem vindo a melhorar em muito a incidência destes eventos».

O internista lida todos os dias com este tipo de consequências. «30% dos doentes que estão internados nos serviços de medicina interna são diabéticos. Nem sempre estão por esse motivo mas estão por complicações derivadas. Vemos mesmo a falta de acompanhamento.»