O meu amigo tem 2 pais!

Ouvi esta exclamação por parte de uma criança de 10 anos, na escola. A criança estava surpreendida pelo facto de a família do seu novo amigo ser um pouco diferente da sua. Não tem um pai e uma mãe, mas sim dois pais.

Ouvir esta exclamação faz-nos pensar que, apesar de a homossexualidade e a homoparentalidade serem uma realidade cada vez mais aceite no nosso país, para algumas crianças isso é ainda motivo de estranheza. Neste contexto, pensamos também como poderá sentir-se este menino ao perceber que, aos olhos dos colegas e amigos, a sua família é vista como sendo diferente.

Antes de mais, é importante salientar que o ajustamento das crianças tem sido amplamente estudado em diversas situações, uma delas a estrutura familiar. A questão de base é saber se a estrutura familiar (tradicional vs não tradicional) influência de forma significativa o ajustamento da criança. E a resposta a esta questão é não.

A capacidade de ajustamento das crianças depende de diversos factores, não apenas individuais (como, por exemplo, o temperamento), mas também relacionais, nomeadamente, a qualidade da sua relação com as figuras parentais, a qualidade da relação entre estas e outros adultos significativos e, ainda, a disponibilidade de recursos sócio económicos adequados. Estes processos, e não a estrutura familiar per si, influenciam o ajustamento em famílias, quer tradicionais, quer não tradicionais. Significa isto que o sexo dos pais e a sua orientação sexual, tal como outras características da estrutura familiar (p. ex., ser um agregado monoparental) não afectam, por si só, nem a capacidade parental, nem o desenvolvimento dos filhos.

Alguns colegas gozam, fazem comentários depreciativos, e podem mesmo rejeitar a criança de alguma forma.

No entanto, a realidade social que a família homoparental experiencia parece influenciar o bem-estar das crianças. As crianças que vivem em famílias homoparentais (com 2 pais ou 2 mães) reportam a existência de reacções homofóbicas e de estigmatização por parte da sociedade em geral, e dos seus pares em particular, nomeadamente em contexto escolar. Alguns colegas gozam, fazem comentários depreciativos, e podem mesmo rejeitar a criança de alguma forma. Esta estigmatização pode ter um impacto negativo na sua auto-estima, embora as competências de resolução de problemas e o suporte social sejam factores protectores, que podem minimizar esse impacto.

A família são as pessoas de quem gostamos e que gostam de nós.

Sendo a escola um local onde as crianças passam tanto tempo, e tendo em conta a importância que a opinião dos pares tem para o seu bem-estar, diria que é importante ajudá-las a melhor entenderem esta realidade, combatendo preconceitos e estereótipos e mudando crenças e atitudes. Falar abertamente sobre estes temas, permitindo que todas as crianças que têm a sorte de ter uma família (independentemente do sexo ou orientação sexual dos pais) possam sentir-se aceites e integradas. A família são as pessoas de quem gostamos e que gostam de nós. O amor é a cola que une os vários elementos da família. Sejam eles quem forem.