O meu filho que ainda não nasceu é melhor do que o teu. Ou talvez não.

São 09h20, deixei há pouco as minhas filhas no jardim‑de‑infância. Acabo de beber o terceiro café do dia, mas continuo a sentir um piano em cada pálpebra. Já lavei a cara com água fria algumas vezes, mas não há maneira de acordar. Por enquanto, esta manhã está ao nível da noite terrível: uma filha queixosa, a chorar, a mexer‑se na cama, entre mim e a minha mulher, porque acordou sobressaltada e não havia maneira de acalmar. Antes de ser pai pela primeira vez, há três anos, lembro‑me de idealizar uma série de regras importantes sobre a educação das filhas. «Não as deixar dormir connosco, em hipótese alguma, porque podem habituar‑se e depois é um 31 dos diabos para voltarem a dormir sozinhas» era uma delas.
Não eram propriamente leis gravadas na pedra, mas recordo‑me de ser bastante assertivo a defendê‑las, cada vez que os assuntos surgiam em conversa com amigos que já tinham filhos. Havia uma que proibia a televisão à hora da refeição – e, se a ligássemos, seria apenas para ver os noticiários, que são coisa importante para crescidos. Outra que defendia que os filhos não devem adormecer ao colo, só na cama deles. E outra que mandava que a chupeta se tirasse antes dos 3 anos, porque caso contrário ficam com os dentes tortos. Nos restaurantes, eu tentaria que a minha descendência não corresse aos gritos, para não incomodar os outros comensais. E, muito importante, jamais permitiria que fizessem birras de meia‑noite em público, daquelas de se atirarem para o chão aos gritos, a esbracejar e aos pontapés na atmosfera… O truque era virar costas e não lhes dar palco. Pois sim…
(suspiro) Sou pai há três anos e não tenho espaço, até ao fim desta página, para listar todos os batráquios que já engoli em nome da adaptação das normas à realidade. Já perdi a conta à quantidade de vezes que dei o dito por não dito e pedi o apoio da Abelha Maia para que uma filha comesse os brócolos, liguei o telemóvel à hora de dormir para que o irritante do Ruca ajudasse a embalar a outra, dei um iogurte a meio da noite para poder voltar para a cama rapidamente ou prometi (e cumpri) que oferecia uma bolacha se parassem de gritar para eu lhes poder calçar os sapatos.
Isto não era para ser assim. Eu não queria que isto fosse assim. Mas o raio da vida real meteu‑se pelo meio e lá descobri da pior maneira que uma coisa é dar bitaites do lado de fora, outra é ter uma criança a chorar e a berrar porque quer alguma coisa, num momento em que não há energia, discernimento ou capacidade para dizer não. Pior: descobri também que não só os filhos dos outros podem ser diferentes dos meus, como também as minhas filhas são – surpresa! – diferentes entre si.
De todas as regras que estabeleci, há uma, porém, que tenho conseguido manter. Só a criei depois de nascer a primeira filha, reforcei‑a quando veio a segunda, mas só a aplico verdadeiramente há pouco tempo. Guardei‑a numa gaveta a que chamei «Não Fales Antes de Saber, Ó Esperto» e reza assim: «Não prestes atenção, não dês crédito, não ouças sequer as pessoas que não têm filhos mas insistem em dar opiniões vincadas sobre os filhos dos outros». Tem sido um mandamento muito útil.
Se não fosse este cansaço todo, eu era rapaz para, hoje à noite, tentar aplicar outra regra importantíssima: a que manda que a conjugalidade não seja muito alterada por causa dos filhos e que as crianças não se metam no meio de um casal. Sim, é um eufemismo para «sexo». Mas não sei se o sono ou a realidade vão deixar.

[Publicado originalmente na edição de 8 de novembro de 2015]