O meu jerrican é maior do que o teu

A tão anunciada greve dos motoristas de matérias perigosas tem gerado muita preocupação e, nos dias que a antecedem, assistimos a verdadeiras peregrinações às bombas de gasolina. Algo que seria aceitável e compreensível, atendendo à necessidade que a maioria dos portugueses tem em deslocar-se, seja por que motivos for.

O que não é aceitável nem compreensível é a falta de respeito, o egoísmo e a auto-centração de muitos destes portugueses, para quem os fins justificam os meios. Que é como quem diz, “primeiro eu, primeiro eu e primeiro eu”.

Nas filas, assistimos a verdadeiros filmes de horror. Insultos para quem demora mais tempo do que o espectável, troca de ofensas quando se pensa que alguém acelerou um pouco mais e tentou passar à frente de outro carro e, por fim, qual cereja no topo do bolo, jerricans escondidos que são depois atestados ao mesmo tempo que se ouvem gritos, apupos e mesmo ameaças. Ao mesmo tempo, as pessoas que em circunstâncias normais teriam prioridade numa fila de espera, esperam. E esperam caladinhas, com receio da reacção das outras pessoas.

O que dizer sobre tudo isto?

Pessoas que, habitualmente, são cordatas e preocupadas com o bem-estar alheio, podem revelar características totalmente opostas quando se sentem face a uma ameaça. Seja ela real ou imaginária e, neste caso concreto que vivemos no nosso país, diria que é em parte real e, em parte, imaginária.

É real o anúncio de greve e são reais e recentes as memórias do que aconteceu há apenas alguns meses. Mas há também uma boa parte de ameaça imaginária, com uma leitura exageradamente negativa da situação. Já se imaginam supermercados de prateleiras vazias e um cenário de fome e privação, numa lógica de “salve-se quem puder”. E este imaginário gera medo, insegurança e ansiedade.

O ser humano tem necessidade de equilíbrio e de previsibilidade e, se sente que algo pode ameaçar a sua estabilidade, reage. Uma reação de adaptação ao meio, ou melhor, à sua leitura e interpretação do meio que se revela, tantas vezes, distorcida.

Neste contexto, pode revelar uma reacção totalmente desproporcional face à ameaça, seja ela real ou percebida, com comportamentos mais agressivos, numa lógica de exercício de poder associada ao individualismo e auto-centração. Ganho-eu e perdes-tu.

Ainda não chegou o dia da greve e estamos neste ponto. O que irá acontecer se a greve durar mais tempo do que aquele que se possa prever? Agimos em função dos instintos mais básicos de sobrevivência e, por antecipação, agredimo-nos e matamo-nos uns aos outros, qual país em guerra em que a escassez de bens de primeira necessidade e a violação dos direitos humanos faz parte do quotidiano?

Ou vamos tentar pensar de uma forma mais racional e encontrar soluções lógicas e ajustadas para este problema? Soluções em que todos possam sentir que ganharam algo. Ou, pelo menos, que não perderam.