O meu supercérebro de pai

Escrevo isto no primeiro dia na redação depois da licença parental pelo nascimento da minha segunda filha. Durante um mês, enquanto a minha mulher regressou ao trabalho, fiz o que faz qualquer progenitor, homem ou mulher, com um recém-nascido em casa: mudei fraldas, dei biberões, adormeci, estimulei, preparei refeições, programei as refeições do dia seguinte, fui às compras, fiz máquinas de roupa, estendi roupa, apanhei roupa, lamentei a falta de roupa lavada, adormeci no sofá e queixei-me da falta de tempo para fazer o que quer que fosse, além de «apenas» isto. Em alguns dias consegui tomar banho. Noutros consegui almoçar. Mesmo assim, houve quem me perguntasse, hoje, se as «férias» tinham sido boas.

Não fiz nada de extraordinário. Nada que outros pais não façam. Nada que não tivesse feito antes, com a minha filha mais velha. O que mudou, então? Bom, provavelmente o meu cérebro. De acordo com um estudo da Universidade de Telavive, publicado recentemente na revista Proceedings of the National Academy of Sciences, nestes trinta dias tornei-me um fulano mais inteligente.

Já se sabia que a cabeça das mulheres se altera durante a gravidez, o parto e o aleitamento – não há homem que não o sinta na pele. A explicação é simples: para garantir o bem-estar do bebé, o cérebro delas desenvolve novos neurónios que vão atuar ao nível da vigilância, do prazer ou da motivação (se quiserem saber mais sobre a amígdala, o córtex frontal ou temporal ou os neurotransmissores, podem consultar o estudo na internet). O que pouco se sabia e que esta investigação junto de 89 famílias revelou é que o cérebro masculino também se adapta à condição de cuidador. E que passar tempo com a cria também provoca um desenvolvimento neuronal, para que os machos se possam adaptar a uma nova – e stressante – situação. Seja um cuidador secundário – o tipo que vai comprar fraldas quando a mulher manda ou que «dá um olhinho no bebé» enquanto a mãe passa pelas brasas – ou cuidador primário, o mamífero que tem de garantir que a criança está confortável porque não há botão para chamar a enfermeira e porque tem de ser ele a pensar e agir depressa caso a criança se engasgue ou se borre até ao pescoço.

Independentemente de os nossos níveis de oxitocina, a hormona que favorece os laços entre o bebé e os progenitores, poderem atingir níveis ridículos de lamechice, há cada vez mais homens a fazer este upgrade ao cérebro, graças ao tempo passado com as crianças nos primeiros meses de vida. De acordo com dados da Comissão para a Igualdade no Trabalho e no Emprego, nos últimos anos tem-se verificado um aumento da partilha da licença parental por parte dos pais trabalhadores. De 413 homens que usufruíram deste direito em 2005 (0,05% das 76 125 licenças de mulheres, em 109 399 bebés nascidos nesse ano), passamos para 20 528 em 2011 (23,6% do total delas). Não há dados para 2012 e 2013, sabendo- se apenas que o número de nascimentos em Portugal tem diminuído, atingindo no ano passado a assustadora cifra de 82 787 crianças. Por este andar, o número de pais com vontade de arregaçar as mangas, tratar dos bebés e estimular o cérebro até pode aumentar, mas têm de os conceber (ou fazêlos nascer) noutro país qualquer.

Eu ainda não consigo concorrer às olimpíadas de matemática com este supercérebro – para isso tenho de repor os níveis de sono –, mas tenho a certeza de que, se em vez de um mês (trinta dos 180 dias que a lei permite, se os pais partilharem a licença) eu tivesse direito a dois ou três, aí ninguém agarrava a minha cabeça superprodutiva. E isso seria vantajoso para o meu patrão. Legisladores, pensem nisso.

Publicado originalmente na edição de 13 de julho de 2014