O que é que ler em papel (ainda) tem de tão bom?

A começar num vocabulário mais rico e a terminar no relax, ler em papel é do melhor para abrir horizontes, atestam vários estudos científicos. Sem esquecer o fortalecimento de laços e o desenvolvimento neurológico e emocional.

Texto de Ana Pago | Fotografias da Shutterstock

Ana Silva, 14 anos, já teve a fase de acampar em casa ao ler Os Cinco, da inglesa Enid Blyton. Andou meses com uma coruja felpuda na mochila quando leu Harry Potter. E depois tentou convencer os pais de que precisava desesperadamente de umas orelhas de elfo, mas cortaram-lhe as vazas na hora. “Ela devora livros, passa horas agarrada ao papel. E eu percebo porque também sou assim”, conta Maria Silva, a mãe, habituada aos arranques de imaginação da filha. Como poderia incitá-la a variar as distrações? A sair mais com as amigas? “Ler é tudo de bom.”

É mais fácil aprender lendo textos em folhas do que num ecrã de computador.

Nem é só o peso do livro no colo, a textura sob os dedos, o cheiro distintivo, enumera Bárbara Ramos Dias, psicóloga clínica especializada na área dos adolescentes. “Para lá desta experiência sinestésica de ler em papel, há toda uma interação com o livro físico que passa por dobrar as páginas, destacar conteúdos com marcadores e post-its ou escrever anotações à margem, o que faz com que seja mais fácil aprender lendo textos em folhas do que numa tela de computador”, diz.

Isto porque a competência de ler resulta de uma aprendizagem contínua, em que o cérebro tem um papel central no processo de descodificar a mensagem, interpretar o seu conteúdo e compreendê-la, explica em traços simples a investigadora Teresa Silveira, autora do livro Cérebro e Leitura (da Bloco Editora).

Este desenvolvimento de um cérebro capaz de ler eficazmente, por sua vez, implica que o sistema para a leitura “seja pré-ativado no primeiro período sensível – através da vivência em ambientes de qualidade lexical e comunicacional – e que no início da escolarização haja uma aquisição eficiente destes mecanismos”, esclarece a especialista em comportamento, dedicada a aprofundar a forma direta como as tecnologias se repercutem no desenvolvimento da arquitetura cerebral para a leitura.

E não, não acredita que os nativos digitais tenham deixado de ler: estão constantemente a fazê-lo. O que mudou foram as exigências de velocidade e agilidade, ao nível do raciocínio e da ação, que conduziram ao aparecimento de uma leitura fracionada e virtual, em detrimento da leitura contemplativa e sequencial – aquilo a que Teresa Silveira chama de leitura literária.

Ler em ecrãs compromete o pensamento abstrato e a profundidade de raciocínio, além da vista.

“O facto de se estar a moldar o cérebro para o estímulo-ação, e não para o estímulo-reflexão/análise, gera um comportamento leitor mais pobre por ter como base a leitura fragmentada – a qual é excelente para dar e obter respostas pontuais, mas deficitária a estimular uma intelectualidade ativa e curiosa”, acrescenta a investigadora.

Já para não falar que ler em ecrãs compromete o pensamento abstrato e a profundidade de raciocínio, salienta Bárbara Ramos Dias, sem querer pensar noutras coisas que as telas pioram, como a vista (estima-se que metade da população mundial sofra de miopia em 2050, acentuada pela luminosidade azul dos monitores). “A causa é a dificuldade na estimulação metacognitiva, que nos leva a pensar que a leitura, ali, é mais fácil do que parece e a empregar menos recursos cognitivos do que realmente precisamos”, explica.

Além disso, lembra a psicóloga, escrever à mão é mais eficiente do que teclar no computador, já que as anotações – mais elaboradas – garantem a quem as faz melhores resultados nas provas. “Em termos cognitivos, diversos estudos indicam ainda que ler em papel nos permite reter conteúdos mais abstratos e abrangentes, além de acalmar, fortalecer laços familiares e concorrer para o desenvolvimento neurológico e emocional”, diz.

Crianças cujos pais leram para elas quando tinham menos de 5 anos revelaram um desempenho académico significativamente mais avançado.

Uma dessas pesquisas, conduzida pela Universidade de Newcastle, Austrália, e divulgada em 2018, revela justamente que crianças cujos pais leram para elas quando tinham menos de 5 anos (antes de entrarem para o pré-escolar) mostraram um desempenho académico significativamente mais avançado do que os colegas que tiveram pouco contacto com a leitura nessa mesma etapa. Na fotogaleria damos-lhe ainda conta de outros estudos que apontam os múltiplos benefícios do papel.

“Ainda assim, com os e-books e os e-readers, muitos jovens trocam o papel por estas opções que saem mais baratas, ecológicas e fáceis de transportar”, observa Bárbara Ramos Dias, baseada no que vê nas suas consultas com adolescentes. Quem, no seu perfeito juízo (pensam eles), pode torcer o nariz diante da possibilidade de conter uma biblioteca inteira num pequeno Kindle que se transporta debaixo do braço?

“Livros são objetos muito pessoais, em que se tem uma intimidade maior com o texto”, diz Ana Maria Magalhães.

Ninguém, nem é isso que se pretende, ressalva a escritora Ana Maria Magalhães, ela própria adepta do digital para consultas, pesquisas, mensagens curtas, embora não conceba ler ali um romance ou uma biografia. “Livros são objetos muito pessoais, em que se tem uma intimidade maior com o texto.” Compete aos pais e aos professores ajudarem os jovens – sobretudo as crianças, por ser um hábito que se adquire cedo e em princípio fica – a descobrir o prazer de ler, defende.

“Tenho duas netas irmãs, uma com 17 anos, a outra com 14, e nunca pude dar os mesmos livros às duas por terem personalidades completamente distintas”, conta a autora da coleção Uma Aventura, a meias com Isabel Alçada. Por ela, começa tudo no ponto em que os adultos descobrem o que encanta os miúdos e vão alimentando esse gosto, sem manipular, recomendando que digam sempre a verdade no final. “Hoje a minha mais velha lê Saramago, a mais nova lê as irmãs Brontë e têm ambas um lugar reservado para a leitura.” Não há nada que enriqueça mais uma pessoa.