Abusos sexuais: o que os pais podem fazer para prevenir, segundo Harvard

É uma realidade presente e silenciosa, que aprisiona as suas vítimas numa rede tão apertada de vergonha que muitas vezes nem os pais as conseguem libertar. Porém, há formas de se prevenir os abusos sexuais, como estas que ensina a Escola de Saúde Pública de Harvard. Todas as armas são poucas.

Texto de Ana Pago | Fotografias da Shutterstock

CHAMAR O CORPO PELOS NOMES

Chamar o corpo pelos nomes. Diz Harvard e diz a psicóloga clínica e sexóloga Vânia Beliz, autora do livro Chamar as Coisas Pelos Nomes: ainda existe muito constrangimento em falar de reprodução, de menstruação, de prazer, temas que são da área da saúde e chegam a comprometer a nossa felicidade.

«As famílias precisam de compreender a importância que educar para a sexualidade tem em problemas graves da nossa sociedade, como a prevenção do abuso ou a violência sexual»

«Falamos em pipi e pilinha porque nos custa falar em vagina e pénis», diz a especialista. E isto quando ensinar as crianças a nomear as partes do seu corpo não só lhes fornece o vocabulário adequado para denunciarem eventuais abusos sexuais, segundo Harvard, como lhes faz saber que podem falar abertamente do que quer que seja. Incluindo dos genitais, que não merecem a nossa vergonha.

«As famílias precisam de compreender a importância que educar para a sexualidade tem em problemas graves da nossa sociedade, como a prevenção do abuso ou a violência sexual e de género», sustenta a autora.

EVITAR SEGREDOS

Este ponto implica disponibilidade da parte dos filhos para falarem com os pais e destes para ouvirem com atenção aquilo que os incomoda, fazerem perguntas (sem julgar) e levarem a sério as suas preocupações, sobretudo quando o que alguém pediu à criança que mantivesse em segredo envolve toques.

É essencial ensiná-los a irem ter consigo sempre que se sentirem incomodados com a proximidade, a conversa desadequada ou o toque de alguém, seja próximo ou estranho.

É fundamental ensiná-los desde cedo a ouvir os instintos, a conhecerem as noções de privacidade e intimidade. E depois a irem ter consigo sempre que se sentirem incomodados com a proximidade, a conversa desadequada ou o toque de alguém, seja chegado à família ou não (os abusadores conhecem com frequência os mais novos ou tentaram um contacto anterior).

«Muitas vezes sucede as conversas proporcionarem-se e os pais fugirem delas, por não se sentirem preparados ou acharem que as crianças ainda não entendem», diz a psicóloga e sexóloga Cristina Mira Santos.

TOQUES DESAGRADÁVEIS, NUNCA

E por desagradável entenda-se qualquer um que seja indesejado ou sentido como impróprio por quem o recebe, ainda que pareça inócuo a quem vê – como um beijinho, uma carícia numa perna ou braço, um abraço mais apertado.

É fundamental preparar as crianças para reagir, fazer queixa e dizer “não”, mesmo que daí resultem situações desconfortáveis.

Nessa altura, é importante o seu filho saber que deve imediatamente ir ter consigo e contar-lhe o que se passou. «Todos os pais percebem a importância de se ensinar às crianças o que é o amor, a intimidade, o respeito pelo seu corpo e o do outro», defende a sexóloga Vânia Beliz. Isso implica prepará-las reagir, fazer queixa e dizer “não”, mesmo que daí resultem situações desconfortáveis.

«É uma questão que ultrapassa em muito o falar de sexo», reforça a especialista em saúde infantil. O que nos leva ao ponto seguinte.

FALAR DE SEXO SEM TABUS

É custoso para todos os pais puxarem este assunto, mas não só deve estar disposto a falar dele com os seus filhos, como retirar-lhe a conotação vergonhosa para não os fazer sentirem-se inseguros a ponto de se fecharem.

«A sexualidade tem de ser um tema abordado com naturalidade quando a oportunidade surge – nunca imposto –, de forma espontânea»

«A sexualidade tem de ser um tema abordado com naturalidade quando a oportunidade surge – nunca imposto –, de forma espontânea, com conversas adequadas à maturidade e à idade das crianças», diz Mónica Cró Braz, pediatra no Hospital CUF Descobertas.

O ideal é ir alimentando o hábito de expressar sentimentos em casa, bons e maus, e permitir-lhes identificar emoções como tristeza, ansiedade, confusão, medo. Na dúvida, aproveite as deixas que elas próprias vão dando enquanto crescem para ensiná-las a lidar com a sexualidade, as mudanças do corpo e relações saudáveis.

ESTAR ATENTO AOS SINAIS

Cada caso é um caso e não existem dois menores iguais, contudo alguns sinais de alerta são mais ou menos recorrentes e podem deixar os adultos de sobreaviso, a saber:

  • Enurese (xixi na cama) numa altura em que a criança já tinha ultrapassado essa fase;
  • Resistência a despir a roupa;
  • Ansiedade desmedida ao separar-se dos pais;
  • Comportamentos sexuais repentinos e impróprios para a idade;
  • Sinais de traumas genitais;
  • Infeções sexualmente transmissíveis e outros.

Para a pediatra Mónica Cró Braz, cabe ainda aos pais aconselharem e mostrarem aos filhos onde procurar informação fidedigna.

«Ensinar-lhes que há zonas íntimas que só eles, os seus cuidadores e o médico devem poder ver e tocar», sublinha a especialista, considerando que o abuso sexual tem de ser ativamente prevenido por todos os meios ao nosso alcance.