O que provoca a sensação de cabeça vazia?

Para quem pensa de mais e tem sempre a cabeça cheia, a ideia de a sentir vazia é inconcebível. Mas muitas vezes é esse transbordar que acaba por esvaziá-la.

Texto de Catarina Pires

Cabeça vazia? Isso não existe. Nem em sonhos. E este “nem em sonhos” tanto pode ter um sentido literal – nem quando estamos a dormir e a sonhar a cabeça esvazia -, como metafórico – quem me dera conseguir não pensar em nada.

Não é isso o que mais queremos, sobretudo nestes dias que antecedem as férias e corpo e cabeça estão mesmo a pedir para desligar? “Agora só quero ir de férias e esvaziar a cabeça.” Sim, mas é melhor pensar duas vezes e ter cuidado com o que deseja.

É que a sensação de cabeça vazia é um sinal de alerta. É o cérebro a reagir a uma sobrecarga de stress e cortisol, a hormona do dito, a que está a ser exposto contínua e prolongadamente.

O psicólogo Nuno Mendes Duarte, diretor clínico da Oficina de Psicologia, explica o que se passa no nosso cérebro que nos leva ter essa estranha sensação de “cabeça vazia “.

“De uma forma muito simples, duas estruturas cerebrais, o lobo frontal (córtex frontal) e o sistema límbico, contam-nos uma história importante na sua interação. O córtex pré-frontal é o que nos permite planear, organizar, pensar, tomar decisões, resolver problemas. No sistema límbico, o hipocampo e o hipotálamo têm um papel fundamental na regulação das emoções e a amígdala é responsável pela resposta de luta ou fuga perante uma ameaça”, diz.

“Em condições normais, estas regiões do cérebro relacionam-se de forma equilibrada e cumprem a sua função. Em situações de stress prolongado, o sistema límbico faz como que um take over ao córtex pré-frontal, assumindo o comando e diminuindo a sua atividade, o que causa a tal sensação de cabeça vazia”, explica.

O stress, bom em doses moderadas porque nos faz reagir e lidar com os desafios da vida quotidiana, quando se instala de forma crónica afeta todo o organismo e pode ter consequências devastadoras no cérebro. O burnout, de que tanto se fala hoje, é um estágio do stress crónico, de acordo com Mendes Duarte, e é um dos problemas em que se observa “mais pacientes com queixas de cabeça vazia”.

Stress, ansiedade, depressão, são os males do século XXI. Existirá doença mental mais sinónima da palavra vazio do que a depressão? Talvez não.

Para Júlio Machado Vaz, psiquiatra, muitas destas situações de stress crónico devem-se ao facto de o ser humano não estar programado para reagir à elevada quantidade e complexidade de estímulos a que é exposto hoje.

“A velocidade e o bombardeamento de estímulos dificulta a triagem entre o que é essencial e acessório, entre o que é importante e, perdoe-me a expressão, lixo, o que nos leva a um paradoxo: tanto estímulo produz um bloqueio, tanto racional como afetivamente. Há uma expressão em inglês “I feel drained” [drenado, seco, vazio]. É isso.”

Stress, ansiedade, depressão, são os males do século XXI. Existirá doença mental mais sinónima da palavra vazio do que a depressão? Talvez não. “Mas espere lá, isso é outro tipo de vazio”, diz o professor Machado Vaz, na qualidade não só de médico, mas de quem já por lá passou.

“Aí o vazio é total. É a sensação de que nada tem sentido ou significado, não há motivação para nada, você sente-se vazia, mas a sua cabeça está cheia de pensamentos e emoções negativas. É um vazio de significado, de identidade, de objetivos, como se nada valesse a pena. Quando isso acontece e assume essa seriedade, há que pedir ajuda. E não é um comprimido que vai tirá-la do vazio. É preciso psicoterapia.”

Mais uma vez, segundo Nuno Mendes Duarte, em termos de neurobiologia muito se passa no córtex pré-frontal. “O esquerdo fica menos ativo em pessoas deprimidas e o direito assume um efeito inibitório do pensamento. Ou seja, a ativação excessiva da amígdala não é regulada como deveria ser pelo córtex pré-frontal esquerdo. Pense nisto como um jogo de equilíbrios entre estruturas cerebrais, e se umas vão prevalecendo na sua ativação em vez de outras, começa a criar-se desequilíbrio. Para alguns autores, há neste momento uma discussão relativamente à resposta depressiva ser muito semelhante à de burnout e por isso podermos estar a falar de uma possibilidade de sobreposição na resposta de stress crónico e na resposta depressiva”.

O mindfulness não esvazia a cabeça, pelo contrário

Muitos associarão a prática de meditação mindfulness ao esvaziamento da cabeça, mas na verdade se esta tem utilidade no tratamento da ansiedade e do stress é porque nos leva não a esvaziá-la de pensamentos, mas a mudar a nossa relação com estes.

Nuno Mendes Duarte, que integra esta prática em boa parte da sua atividade clínica, explica: “O mindfulness é o oposto de cabeça vazia. Não confundir com mindlessness, que é quando se entra no tal piloto automático. No mindfulness trabalha-se a capacidade de estar ligado às coisas. Trata-se de mudar o relacionamento com os pensamentos e não de os eliminar”, diz.

“A capacidade de dar atenção e estar consciente do momento presente leva à sensação de plenitude. Estamos cheios, ligados a tudo e por isso não corremos o risco de sermos raptados pelo piloto automático”, conclui.

LEIA TAMBÉM

João Bravo «Um dos segredos para evitar o burnout é estar-se nas tintas para o que pensam de si»

Porque está o trabalho a deixar-nos doentes?