Piscinas: cuidados a ter para evitar a tragédia

Consultámos especialistas em segurança infantil e piscinas e lemos as recomendações destes espaços. Saiba todas as precauções que deve ter quando o seu filho está dentro de água.

Texto de Alexandra Pedro | Fotografia Shutterstock

Vic, de 6 anos, perdeu a vida numa piscina em Azeitão. Segundo os pais, a criança foi sugada por um filtro, entrou em paragem cardiorrespiratória e, apesar dos esforços no local e do período de hospitalização que se seguiu, não sobreviveu aos ferimentos. Morreu na segunda-feira. A família belga estava de férias em Portugal e preparava-se para regressar ao país natal no dia seguinte.

Em 2016, a Associação Portuguesa para a Segurança Infantil (APSI) lançou a campanha «A Morte por Afogamento é Rápida e Silenciosa», registando que, por ano, cerca de «nove crianças morrem na sequência de um afogamento».

Entre 2002 e 2015, a mesma associação contabilizou 228 mortes de crianças por afogamento. «A maior parte dos afogamentos em piscinas aconteceram em crianças até aos 4 anos», lê-se ainda num dos cartazes utilizados naquela altura (ver em baixo).

«A medida fundamental, que todos os familiares devem adotar quando as crianças estão dentro de água, é a vigilância»

Junho, julho e agosto são os meses mais críticos, insuflados pelas férias em família e as temperaturas quentes. Em pleno mês que requer mais cuidados, o presidente da Associação Portuguesa de Piscinas, José Tavares dos Santos, lembra que todas as piscinas devem ter, pelo menos, um dos quatro sistemas de segurança recomendados pela União Europeia: «alarme, cobertura de segurança, abrigo ou vedação».

No entanto, a «medida fundamental, que todos os familiares devem adotar quando as crianças estão dentro de água, é a vigilância». «Têm de estar em permanência e nunca abandonar as crianças. E tem de ser uma pessoa capacitada.» «Esta é a única forma de garantir a 100% que vai conseguir socorrer a criança na altura», acrescenta.

Sandra Nascimento, presidente da APSI, reforça a importância da vigilância «próxima e focada», e lembra que qualquer lugar que tenha água – seja um balde, um alguidar ou uma banheira – envolve risco de afogamento. «Qualquer recipiente que contenha água tem se der vazado imediatamente após a sua utilização. E, claro, a criança nunca pode ser deixada sozinha, mesmo que por pouco tempo. O afogamento é rápido e silencioso». Claro que não é possível tirar a água a uma piscina, os cuidados de vigilância, nesses casos, devem ser redobrados.

«No caso das piscinas ou tanques, a barreira física também é muito importante para que atrase o acesso das crianças à água», diz a presidente da APSI. «A maioria dos incidentes não acontece quando toda a família decide divertir-se na piscina, mas sim quando os adultos não estão à espera e não se apercebem» que as crianças decidiram ir para dentro de água. Deixar brinquedos dentro das piscinas, por exemplo, pode ser um atrativo para que uma criança tente entrar dentro de água, diz a técnica de segurança infantil. Outra recomendação de Sandra Nascimento vai no sentido de os pais poderem fazer uma formação em suporte básico de vida, de modo a estarem melhor preparados em caso de acidente.

Para Tavares dos Santos é importante que estes espaços possuam, tal como é recomendado, as marcações da profundidade, para que os pais ou tutores «não permitam que os mais novos vão para as zonas mais fundas»

Para José Tavares dos Santos, que apela à divulgação das medidas de segurança nas piscinas, é importante que estes espaços possuam, tal como é recomendado, as marcações da profundidade, para que os pais ou tutores «não permitam que os mais novos vão para as zonas mais fundas». O presidente da APP lembra que a piscina é um óptimo local para «potenciar a boa saúde, o convívio, um espaço de alegria e boa disposição, mas que é importante estar sempre alerta».

Esta atenção que é exigida aos adultos é, aliás, uma das possíveis razões para haver menos mortes por afogamento nas praias do que nos rios e albufeiras, ribeiras e lagoas – onde a tendência para a falta de vigilância é maior.

A lição de Vic (e dos seus pais)

Os pais de Vic, Ansie Van Aerschot e Michael Wanzeele, descreveram, através de um comunicado, tudo o que aconteceu na passada segunda-feira, dia em que a criança belga de 6 anos ficou presa na piscina em Azeitão.

«Enquanto o Joris e o Vic davam uns mergulhos, Joris reparou logo que o Vic tinha ficado preso num buraco no fundo da piscina, na parte mais funda da mesma, com pelo menos 1,90 metros de profundidade. Saltámos todos imediatamente para a piscina para o ajudar, mas era impossível soltá-lo», pode ler-se na carta enviada à imprensa.

Sandra Nascimento considera, tendo em conta as informações que têm sido divulgadas pela comunicação social, que em causa poderá «estar uma falha na manutenção ou na própria construção»

Os pais de Vic acrescentam ainda que a chamada para o 112 «foi transferida 5 vezes» até que conseguiram «falar com alguém em inglês» e que não conseguiram encontrar o quadro de eletricidade para desligar o filtro. «Ninguém sabia onde se encontrava a instalação da piscina.»

«O filtro devia estar tapado! A aspiração era tão forte que ele nunca teve qualquer hipótese… é inacreditável que isto pudesse acontecer quando uma simples tampa o podia ter evitado…», lê-se já no final do comunicado, que pretende «garantir que será levada a cabo uma investigação rigorosa deste caso e que serão tomadas medidas para impedir que esta tragédia aconteça com outra família.»

O presidente da APP lembra que «praticamente não existe qualquer legislação na Europa», mas que seria importante legislar, pelo menos, a obrigatoriedade dos sistemas de segurança

Sandra Nascimento considera, tendo em conta as informações que têm sido divulgadas pela comunicação social, que em causa poderá «estar uma falha na manutenção ou na própria construção» da piscina de Azeitão.

«As normas técnicas europeias, que não são obrigatórias, indicam que os proprietários dos espaços com piscinas têm de garantir a segurança daqueles espaços. Existem recomendações, por exemplo, para que exista uma vara ou uma boia junto das piscinas, tal como em relação às marcações, às aberturas de filtro e acessos», diz a perita.

O presidente da APP lembra que «praticamente não existe qualquer legislação na Europa», mas que seria importante legislar, pelo menos, a obrigatoriedade dos sistemas de segurança.

Ambos os técnicos contactados pela Life consideram que, tendo em conta que todo este processo ainda está em investigação, os pais não devem «entrar em pânico» com o que aconteceu.

«Não pode haver aberturas nas piscinas, onde as crianças possam ficar presas.» Face ao que aconteceu e à atenção na comunicação social, Sandra Nascimento alerta para a necessidade de «as famílias não entrarem em pânico. Mas podem tentar perceber e informar-se do que fazer numa situação de emergência».