Objetos de transição: ainda precisa do seu ursinho de infância?

E quem diz o urso diz um boneco, almofada ou manta de que nunca se separava, tal a segurança que trazia em momentos de angústia. Nem todas as crianças precisam de objetos de transição. Mas as que os têm conhecem os seus superpoderes.

Texto de Ana Pago | Fotografias da Shutterstock

Miúdo atinado e sensível, com uma sabedoria de mestre zen retirado na montanha, Linus Van Pelt chegou aos oito anos incapaz de largar a sua mantinha azul de bebé. «Este cobertor é uma necessidade. Impede-me de colapsar, pelo que pode ser encarado como um torniquete especial», diz num dos episódios a personagem dos Peanuts, de Charles Schulz, abraçada ao tecido puído. «Sem ele não seria nada, apenas um barco sem leme.»

Isto porque há objetos especiais, quando somos crianças, que nos dão segurança face às mudanças da vida, explica a psicóloga clínica Teresa Andrade, docente no Instituto Universitário Egas Moniz. Com tendência para serem escolhidos nos primeiros seis meses de vida, podem ser uma manta macia como a do Linus, ursinhos ou aquela fronha de almofada que nunca queríamos que fosse lavada. Podem inclusive ser partes do corpo como cabelo, orelhas ou pescoço.

«São elementos associados ao conforto que os pais dão e por isso aconchegam em momentos de maior instabilidade sem prejudicar em nada a maturidade», diz. Ainda que de um modo inconsciente, as qualidades remetem para a mãe: amoroso e quente, que pode ser abraçado, esfregado, mordido. Os especialistas chamam-lhes objetos de transição justamente por ajudarem os pequenos a lidar com a ansiedade de estarem mais sós ou ao irem dormir, o que justifica o valor sentimental atribuído.

Estes objetos apoiam as crianças nas transições, com os receios e angústias que isso lhes provoca, daí poderem ser úteis a vida inteira.

«Apoiam-nos nas transições, nos receios e angústias que isso lhes provoca, daí poderem ser úteis a vida inteira ou afastados à medida que a criança aprende a gerir os seus medos sem esta rede protetora», sublinha Teresa Andrade. A ela, diz-lhe a experiência que miúdos particularmente afetivos ou nervosos por se separarem dos pais tendem a necessitar mais de se ligarem a um objeto de transição durante o crescimento.

«Aquilo que os torna únicos é a forma como os sentimos e vemos, o seu cheiro, a textura.» O ter sido dado por alguém importante ou representar algo de que se gosta muito, como um animal ou a personagem preferida, adianta a psicóloga, fascinada há muito por este poder que nos faz guardar tecidos carcomidos e bonecos zarolhos já depois de adultos.

E sim, entende na perfeição que Linus ainda viva dependente do seu cobertor azul aos oito anos, na medida em que objetos de transição se convertem em companheiros – até mesmo amigos – na imaginação da criança. Há de largá-lo um dia, eventualmente. A seu tempo. Dado que a mantinha assinala uma fase importante do desenvolvimento psíquico e contribui para ampliar a cognição, a criatividade e os afetos, também não virá daí mal ao mundo.

Foi em 1953 que o pediatra inglês Donald Winnicott usou pela primeira vez o termo objeto de transição.

«Sobretudo, importa os pais perceberem que não faz sentido forçar o desapego a menos que seja algo que prejudique a saúde da criança», reforça Teresa Andrade. Nesse caso, é boa ideia ir substituindo gradualmente aquele objeto em particular por outro de que os filhos gostem, a fim de atenuar a carga afetiva. «Podem negociar com a criança um tempo que ela ache necessário para se separar da sua coisa especial, envolvendo-a no processo e elogiando o facto de já estar a ficar crescida e não precisar da chucha.»

Foi em 1953 que o inglês Donald Winnicott, pediatra e psicanalista, usou pela primeira vez o termo objeto de transição para se referir à etapa em que o bebé descobre que a mãe é uma pessoa diferente dele, nem sempre estará ali para satisfazer as suas necessidades e então mais vale encontrar um substituto o mais à altura possível – o afago de um panda de peluche não sabe ao mesmo, mas é melhor do que nada.

Faz parte da frágil condição humana sentir que estamos protegidos por uma coisa especial.

E isto é que é o normal: criar mecanismos psicológicos que nos deem confiança para lidar com as incertezas que a vida nos coloca, defende a psicóloga e investigadora em pedagogia Teresa Andrade. «Faz parte da frágil condição humana sentir que estamos protegidos se tivermos uma pulseira especial, uma roupa da sorte ou um trevo de quatro folhas, por isso se ajudar não é um problema.»

Um estudo de 1958 com macacos separados das mães, realizado pelo psicólogo americano Harry Harlow, concluiu que as crias que se vinculavam a uma estrutura de pano macio geriam melhor a ansiedade do que as vinculadas a uma “mãe” construída apenas com rede metálica.

Uma outra pesquisa de 2017 sobre hábitos de sono, conduzida pela marca de colchões Best Mattress junto de dois mil americanos adultos, apurou ainda que 37,5 por cento dormem com peluches, 29,4 por cento elegem o ursinho e 28 por cento agarram-se a uma manta. Sete por cento trouxeram, inclusive, o hábito da infância e quatro por cento mantêm (falando em bichos carcomidos e zarolhos) o mesmo boneco da altura.

De novo, nenhum destes números preocupa Teresa Andrade: adultos precisam tanto de conforto como as crianças – a ansiedade está lá sempre, a cada etapa. «Já para não falar que a dependência que mantemos em adultos depende muito do significado do objeto para nós: se me foi dado pela minha mãe e ela morreu, é uma forma de a manter comigo», diz a psicóloga. Afinal, colo é colo.