Odeio o meu chefe: e agora?

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Vivemos atolados em trabalho, sem tempo para nada, em stress constante, mas e quando é o chefe quem mais complica esta equação já de si difícil? O que fazer se odiamos o nosso e ele, em troca, nos paga na mesma moeda?

Texto de Ana Pago

Os primeiros sinais de colisão chegaram rápido: jornadas de trabalho que valiam por três, a chefe a recolher louros do que não tinha feito, os nervos em frangalhos dia e noite. “Estava há dois anos num escritório de contabilidade quando a responsável da equipa mudou e a minha vida virou um inferno”, conta Paula Sousa, que ainda hoje treme de pensar nas humilhações públicas se alguém cometia um erro, real ou não. “Era ela a abusar e eu com enxaquecas contínuas.” Odiava a chefe, mas o que fazer?

“A primeira possibilidade seria uma pitada de polónio-210 na sopa dela, porém pode ser mais interessante perceber de onde vem tal ódio”, afirma o psicólogo clínico Vítor Rodrigues, apologista de se desanuviar a fonte de stress para lidar melhor com ela. O chefe fez-lhe algo difícil de digerir? Recorre ao bullying? Ameaça-o? “Imagine que é da Inquisição e o encarregaram de reunir argumentos que justifiquem que ele vá parar à fogueira”, sugere. Quais são? E o que justificaria salvá-lo? “Isso pode ajudar a objetivar as coisas”, acredita.

Ou então não, contrapõe Maria Silva, que explodiu numa tarde em que estava atrasada para ir buscar as filhas à escola (a juntar a tantas em que a cena se repetiu e ela tolerou) e o chefe lhe veio dar mais trabalho: “Estava a mil desde manhã, 11 horas seguidas sem almoçar, e ele diz-me que há uma marcação de última hora, tinha de fazê-la”, recorda a massagista. Por uma vez, stressada e exausta, recusou. “Foi o fim da picada”, diz.

Existe um ponto em que é preciso dizer basta, apesar das contas para pagar e de um despedimento ser sempre uma ideia assustadora.

O chefe berrou, bufou, avisou Maria de que não precisava de voltar. “E eu só voltei para acertar contas”, admite a terapeuta, que na prática nunca esteve desempregada, já que os pacientes quiseram todos continuar a ser tratados por ela a título particular. “Acho que na altura chorei as lágrimas que tinha e as que não tinha, derrotada pela injustiça de me empenhar tanto para vir um sacana assim decidir a minha vida.” Porém, concluiu ela rapidamente, sair foi o melhor que lhe podia ter acontecido.

Isto porque há mesmo um ponto em que é preciso dizer basta, apesar das contas para pagar e de um despedimento ser assustador. “Se o ambiente laboral produz soluções desfavoráveis à saúde do trabalhador, ou se os procedimentos organizacionais violam as leis nacionais e comunitárias do trabalho, a constituição e a declaração universal dos direitos humanos, provavelmente está na hora”, defende a psicóloga social Fátima Lobo, professora da Universidade Católica de Braga na área da Psicologia do Trabalho e das Organizações.

Para a docente, empregos corrosivos são “desprezíveis, impróprios e indignos” e a culpa é dos maus chefes, dado ser deles o poder de organizar o trabalho e definir encargos e horários. Quanto aos empregados, reforça, são geralmente vítimas dessa (des)organização, do próprio conteúdo das tarefas, “de sobrecarga laboral, precariedade, salários baixos e disparidade entre o que fazem e deviam fazer”, o que lhes causa um sofrimento tal que gera fadiga e doença.

Em termos sociais, continua-se a responsabilizar o trabalhador por ficar doente devido ao trabalho, em lugar da organização que o deixa doente.

“Nada que impeça que em termos sociais se continue a responsabilizar o trabalhador por essas patologias, em lugar da organização que as causa”, lamenta Fátima Lobo. Na prática, é como se o funcionário que fica doente adoecesse a estrutura e não o oposto, numa inversão perversa daquilo que na realidade faz mal a quem – a começar pela odiada chefia.

Segundo uma pesquisa da Associação Americana de Psicologia, 75% dos trabalhadores apontam os seus chefes como sendo os maiores responsáveis pelo stress no trabalho e 60% preferiam um novo patrão a um aumento salarial se lhes fosse dado a escolher. Dos descontentes, 27% demitem-se mal garantem outra fonte de rendimentos e apenas 11% das pessoas cilindradas por chefes tóxicos arranjam coragem para largá-los sem ter nada em vista. Ainda assim, 59% acabam por se manter no emprego contra todas as expectativas – e lá terão as suas razões.

“Talvez os abusos não sejam maus o suficiente ao ponto de tornarem as outras opções mais atraentes”, alvitra Robert I. Sutton, especialista em administração da Universidade de Stanford e autor do livro Como Sobreviver a um Filho da P*ta (ed. Vogais). Talvez as pessoas sofram terrivelmente, mas acreditem que o que fazem é tão compensador que preferem aguentar. “Alguns sentem-se obrigados a ficar para proteger os alvos mais frágeis dos abusadores. Outros permanecem porque estão apostados em lutar contra os seus atormentadores e derrotá-los”, acrescenta o professor.

Muitas vezes, quem sofre às mãos de um mau chefe nem se apercebe do poder que tem caso decida usá-lo.

Qualquer que seja o caso, ninguém tem de sentir-se envergonhado por aguentar agravos desnecessários: a vergonha pertence toda aos responsáveis pela tormenta. O que também não significa que os subordinados devam aturar abusos durante mais tempo do que deviam. “Aceitar uma ditadura sem nada fazer ajuda a eternizá-la”, alerta o psicólogo clínico Vítor Rodrigues, considerando que muitas vezes quem está mal nem se apercebe do poder que tem caso decida usá-lo.

“Em tempos trabalhei num serviço público em que os os funcionários menos ‘poderosos’ podiam fazer a vida das chefias num inferno ao adiarem prazos, ocultarem informações, apresentarem mil razões para não cumprirem o que lhes era pedido – e tudo isso acontecia realmente se estivessem chateados com o chefe”, conta o psicoterapeuta. Acima de tudo, há que definir muito bem quem somos, no que acreditamos, em nome do que vivemos. “Só então nos tornamos uma caravana que passa mesmo que os cães ladrem.”

Em última análise, diz, um chefe odioso não é muito diferente de outros relacionamentos amorosos e familiares que estejam em crise na nossa vida, pelo que podemos tentar salvá-los a todos seguindo as mesmas regras:

DEFINA O QUE QUER DA RELAÇÃO
O que espera dela no futuro? Porquê? Que sacrifícios está disposto a fazer (inclusive no que diz respeito a dar o braço a torcer com o seu chefe)? Manter as razões bem presentes na sua cabeça ajudará a ver o todo em perspetiva e os limites a partir dos quais terá de repensar a sua vida.

RESPONSABILIZE-SE POR ELA
Conhece a máxima de que cada um de nós só tem aquilo que merece? Por muito que nos custe aceitá-la, ninguém nos obriga a estar onde não queremos ou com quem não queremos, o que em último caso nos dá a liberdade para mudar se o que tivermos no presente se tornar intolerável.

VALORIZE O DIÁLOGO
Guardar ressentimentos não só não resolve o que quer que seja, como tem sempre tendência para piorar. Independentemente de quem tenha razão, procure valorizar o outro pelo que é, não pelo que fez. Com um pouco de compaixão, diferenças de personalidade, hábitos e valores podem deixar de ser um problema.

CUIDE DE SI
Situações e pensamentos negativos deixam-nos frequentemente a remoer muito depois de terminarem, o que só nos faz sofrer o triplo quando o chefe já nem se lembra que existimos. Mime-se, vá dar uma volta, chore se for o caso, mas depois faça por perdoar e liberte-se dessas cargas que só o prejudicam a si, não a ele.

VÁ ALÉM DAS PALAVRAS
Não precisa de ser nada espaventoso desde que demonstre uma vontade genuína em ser simpático com o outro e até de tentar chegar a ele com amabilidade. Quem disse que um gesto vale mais do que mil palavras estava certamente a pensar nestas situações em que vale mais sorrir ao chefe do que falar com ele.