“Todos os anos fazemos 130 transplantes de fígado. Só perdemos cinco a seis doentes”

Unidade de transplantes do Curry Cabral começou na década de 1980 pela mão do cirurgião João Pena Rodrigues. (Fotografia Orlando Almeida/Global Imagens)

Em 2018, foram colhidos 976 órgãos. Destes, 757 foram transplantados, a grande maioria transplantes do fígado. O país ocupa a sexta posição mundial na lista de dadores de fígado e a Unidade de Transplantes Hepato-Bilio-Pancreático do Hospital Curry Cabral, onde se realizou o primeiro transplante hepático, em 1992, tem dos melhores resultados da Europa. Reportagem na segunda casa, com a segunda família de muitos doentes.

Texto Ana Mafalda Inácio | Fotografias Orlando Almeida (Global Imagens)

Joaquim Guerreiro é um homem do Rosário, de Almodôvar, de Beja e do Alentejo. É assim que se define, mesmo depois de ter passado 20 anos emigrado na Suíça. O sotaque não engana. O sorriso nos lábios, nove dias depois da cirurgia que lhe deu um novo fígado, também não. Joaquim Guerreiro é mais do que um homem do Rosário. É um lutador.

Sofreu quando soube que tinha um nódulo no fígado e que tinha de esperar para ver se evoluía ou não. Sofreu quando soube, ao fim de algum tempo, que afinal o nódulo tinha crescido muito e que se calhar havia pouco a fazer. Teve a sorte de ser enviado pelo médico que o acompanhava em Beja para a unidade de transplante do Curry Cabral, onde começou a ser acompanhado há três anos e onde agora foi transplantado.

Aos 67 anos, Joaquim Guerreiro, marido de D. Alice, pai de Tânia e avô de uma menina de 3 anos, diz ao DN: “Desde que aqui entrei, não mais tive medo.” Nem quando o médico lhe disse que “a única forma que tinha de se ver livre daquilo era fazer um transplante. “Estava com a minha esposa e a minha filha, fiquei sem reação, mas pensei, e disse: ‘Aceito.'”

Entre este dia e o do transplante não passou muito tempo, mas mais uma vez ficou sem reação, quando um dia chegou ao Rosário pela hora de almoço, depois de ter estado a fazer um exame no hospital, e recebeu um telefonema do médico. “Fiquei espantado, ele pediu para falar comigo e disse-me: ‘Temos um fígado compatível. Aceita? Eu fiquei sem força, quase me fez cair, mas disse ‘aceito’.”

Em pouco mais de duas horas, pôs-se em Lisboa com a mulher, avisou a filha e entrou na unidade do Curry Cabral. “Eram tantos de volta de mim, que foi a maior confusão”, conta a rir. “Correu tudo bem. E foi melhor assim, não tive tempo para pensar em nada.” Nesta altura, em que a reportagem do DN é publicada, Joaquim Guerreiro já deve ter tido alta e estará em casa. Nove dias depois da cirurgia, sentia-se “lindamente”. Por isso, quis deixar uma mensagem a todos os que possam vir a passar pelo mesmo que ele: “Não hesitem em nada. Temos grandes profissionais a tratar de nós. É um hospital público, é meu, é nosso, é de todos, e todos os profissionais procuram ajudar e cuidar de nós. Estou satisfeito com o que vi.”

Joaquim Guerreiro, de 67 anos, recebeu um fígado novo. A quem possa vir a passar pelo que ele passou, diz: “Não hesitem. Temos grandes profissionais.” (Fotografia Orlando Almeida / Global Imagens)

Este homem do Rosário foi um dos mais de 2000 doentes transplantados naquela unidade, hoje com o carimbo de Centro de Referência Hepato-Bilio-Pancreático do Hospital Curry Cabral, que integra o Centro Hospitalar de Lisboa Central. Uma unidade de transplantes que começou na década de 1980 pela vontade, pelo querer e pela mão de um médico-cirurgião, João Rodrigues Pena. Nome que se destaca numa placa dourada à porta da enfermaria, do 2.º piso do edifício novo do hospital, que alberga hoje 28 camas e quatro quartos de isolamento, e que é usada pela área hepática, renal e pancreática.

Foi com João Pena que a unidade de transplantes deu os primeiros passos em 1989, com o transplante renal. Depois, e só ao fim de dois anos de cirurgias experimentais em animais, é que passaram para o transplante hepático. O primeiro realizou-se em setembro de 1992. Correu bem, mas a doente não teve uma sobrevida longa, “morreu ao fim de três anos”. Hoje, já há doentes com uma sobrevida de mais de 20 anos, após o transplante.

Hoje, Portugal ocupa a sexta posição na lista mundial de doadores de fígado, de acordo com os dados do Irodata (International Registry in Organ Donation), e tem dos melhores resultados em termos de sobrevida da Europa.

Américo Martins, de 66 anos, médico-cirurgião, diretor da unidade de transplantes na área do fígado, assistiu desde o início ao nascer deste centro de referência, que hoje é considerado de excelência, o único no país que transplanta os três órgãos abdominais e o primeiro no mundo a fazer um transplante sequencial pela técnica de piggy-back, em 2001. Depois deste já realizaram mais 320.

“A ideia da unidade partiu do Dr. João Rodrigues Pena. Do grupo inicial faziam parte também os doutores Eduardo Barroso, João Rebelo de Andrade e eu próprio. Na altura, tanto eu como o Dr. João Rebelo éramos jovens especialistas. O Dr. João Pena tinha estado em Cambrigde a fazer formação, participou no primeiro transplante hepático que se realizou no Reino Unido, mais tarde o Dr. Eduardo Barroso foi para o mesmo serviço, e só em 1992 é que avançámos com um programa clínico em Portugal. No primeiro ano fizemos nove transplantes, agora fazemos 130. Em 27 anos fizemos 2169, o que nos torna um dos grandes centros de transplantação hepática da Europa neste momento”, afirma.

Na altura, um transplante levava em média dez a 12 horas, hoje não leva mais de quatro a cinco. “Imagine o que se evoluiu”, comenta. Na altura, eram quatro cirurgiões seniores, hoje são cinco, mas seria bom haver mais um ou dois. Ao todo, a unidade conta hoje com 14 cirurgiões, entre assistentes e internos.

No início, a principal dificuldade “eram as condições em que trabalhávamos, se alguém visse o estado do bloco operatório acho que íamos todos presos”, argumenta a rir. “Eram condições rudimentares, mas havia muito querer, muito entusiasmo e muita vontade. E avançámos. Hoje, temos instalações modernas, um bloco operatório dos melhores do país, uma enfermaria digna. Foi tudo conseguido com muita luta, pedindo ao poder que apoiasse e acarinhasse este programa, não só de transplantes mas de tudo, porque somos o único centro do país que faz as cirurgias mais complicadas ao fígado, vias biliares e ao pâncreas. Neste momento, somos um dos maiores centros da Europa a fazer este tipo de cirurgia, além dos transplantes”, sublinha com orgulho.

Américo Martins, cirurgião com mais de 30 anos de carreira, esteve no primeiro transplante hepático em 1992. Hoje é o diretor da unidade de transplantes. (Fotografia Orlando Almeida / Global Imagens)

O médico, com mais de 30 anos de carreira, assume que escolheu uma das áreas mais aliciantes da medicina, mas também uma das mais desgastantes. “Temos muitos casos de sucesso, mas também perdas. E tanto lido com a perda de um doente de uma forma que posso aceitar como fico muito afetado psicologicamente durante vários dias. Às vezes, é muito difícil, mas faço golfe”, remata a rir.

É assim que se abstrai, que descontrai do stress, em espaços verdes junto ao mar, para regressar com mais energia. Mas há um caso, o de uma mulher, com 30 e poucos anos, com doença dos pezinhos, aparentemente saudável, que não esquece. “Estava a fazer-lhe uma hepatectomia, corria tudo bem, mas quando lhe vou colocar o novo fígado o anestesista diz-me: ‘Tens de ver o que se passa, a doente não está bem.'”

Bastou-lhe tirar a compressa que afastava o intestino para perceber que este “estava completamente preto e que a doente tinha falecido. Foi uma situação… Nunca me tinha acontecido. Saí do bloco a chorar compulsivamente, pelo inesperado e por não ter sido possível salvá-la.”

Foi há mais de 15 anos, mas ainda o recorda com todo o detalhe. Compensam-no todos os outros casos de sucesso, sobretudo os dos doentes que estão em coma e que ao fim de um ou dois dias “estão a falar comigo e a renascer para a vida”. Compensam-no casos como o de Cláudia, hoje com mais de 40 anos e dois filhos, mas que aos 18 entrou no serviço em falência hepática. Com ela iam a mãe, o pai e os dois irmãos. A unidade lançou um apelo para um fígado, mas a resposta não chegava. Em 24 horas, fizeram o estudo dos irmãos, um deles era compatível, poderia ser um dador vivo, mas quase em cima do transplante a resposta de que havia um fígado compatível chegou de Espanha. “O irmão estava preparado para a cirurgia, quando lhe disse que não era preciso ser sacrificado, agarrou-se a mim a chorar. A Cláudia continua a ser acompanhada aqui, há mais de 17 anos e está bem.”

São todas estas histórias que compensam este médico e todos os outros que ali trabalham, porque “a transplantação não funciona se não for um trabalho de equipa”, diz. Por isso, no Curry Cabral os resultados estão à vista. Neste ano, já foram realizados 66 transplantes ao fígado, só um sem sucesso. “Todos os anos fazemos à volta de 130 transplantes. Destes, perdemos cinco a seis doentes, mas não há como contornar a situação. Muitos morrem em resultado de uma paragem cardiorrespiratória ou de outra situação comum a qualquer outra pessoa.”

O que é preciso pensar é que a taxa de sobrevida da unidade, que a classifica como um dos grandes centros hepáticos da Europa, é de 90% ao fim de um ano, de 80% ao fim de cinco anos, de mais de 70% aos dez anos e de 68% aos 20 anos. “Temos doentes vivos transplantados há mais de 24 anos.”

Há 15 anos viveu um caso que nunca mais esqueceu. Perdeu uma doente no bloco, saiu e chorou compulsivamente.

Américo Martins, que, depois de participar no primeiro transplante em 1992, foi vários meses para Birmingham, em 1994, para um dos melhores centros hepáticos do Reino Unido, pode dizer hoje que já realizou 800 hepatectomias. “Nestas, estive lá como cirurgião, embora tenha participado em muitos outros atos”, porque um transplante exige quatro passos: o da colheita, no qual participam normalmente dois cirurgiões, o da preparação ou limpeza do fígado, a que chamam a fase back table, e onde podem estar também dois cirurgiões, a remoção do órgão e depois a colocação do novo órgão. “Para tudo isto podem ser necessários nove cirurgiões ou mais, portanto “nunca podemos dizer que um cirurgião já fez milhares de transplantes, podemos dizer que participou em milhares de atos”, sublinha.

Quando foi necessário começar a fazer transplantes com dadores vivos, o primeiro não correu bem, então Américo Martins e Eduardo Barroso foram visitar dois centros hepáticos com grande experiência em dadores vivos, um no Japão outro em Seul. “Foram três dias de imenso trabalho, mas conseguimos avançar com esse programa. Em 2013, 2014 e 2015 fizemos dez transplantes com dadores vivos.”

“O fígado não tem idade”

O serviço foi crescendo de acordo com as necessidades e sempre com o grande desafio de dar resposta às situações clínicas e ao desenvolvimento e inovação. Não esconde que ali também há lista de espera, porque muito depende se há ou não órgãos para transplantar. Mas, se Portugal está em sexto lugar a nível mundial na lista de dadores, Américo Martins não tem dúvida de que se deve ao facto de termos uma população muito envelhecida, 80% dos dadores são falecidos. Essa é a grande vantagem do fígado: “Não tem idade”.

Neste momento, “estamos a colher fígados de pessoas com 88, 89 e 90 anos, que funcionam lindamente. O fígado é um órgão que, sendo estimado em vida, continuará a funcionar bem durante muitos anos”, explica. O índice de envelhecimento em Portugal é muito elevado, 148%, por cada cem jovens com 15 anos temos cem com mais de 65 anos. Por isso, “se começámos na transplantação com dadores com uma média de idades de 40 e poucos anos, agora estamos com uma média de 57,3%, mas isto não tem problema nenhum”.

O diretor da unidade do Curry Cabral repete a frase: “O fígado não tem idade” e ao longo da conversa junta-lhe uma outra: “Fígado igual a órgão par.” Frase que aprendeu ali no serviço, quando um dia João Pena a escreveu num quadro branco. Por isso, diz, nos dois ou três anos que ainda lhe faltam para deixar a unidade não quer deixar de concretizar o que um dia viu escrito. “Isto significa que o fígado pode ser considerado dois. Tudo depende do tamanho, na doação uma parte mais pequena pode ir para uma criança e a outra para um adulto. Ou se for um fígado de grande dimensão até pode ser bipartido em partes iguais e doado a dois doentes adultos. Não quero ir-me embora sem que isto se torne uma realidade.”

Este é um dos grandes desafios para o futuro. Diz que não precisa de nada. “Temos tudo. É só praticar e avançar com a ideia. Penso que no espaço de um de ano será possível, e não tenho dúvida de que teremos sucesso, porque temos uma equipa excelente, com muita experiência.”

Uma equipa da qual fazem parte médicos-cirurgiões, hepatologistas, gastroenterologistas, psicólogos, endocrinologistas, enfermeiros, auxiliares, etc. Porque a partir do momento que o doente ali entra “é para a vida”. A partir do momento que o doente é aceite para transplante, tanto ele como a equipa estão em permanente prevenção. “Têm de estar disponíveis para o caso de haver um órgão que seja compatível”, explica. E estão, são muitos os doentes que dizem que aquela unidade “é uma segunda casa, que aquela equipa é uma segunda família”.

Fernanda Moreno é enfermeira-chefe da unidade há mais de 16 anos, nunca imaginou ficar tanto tempo num serviço, mas quando se gosta da área não se consegue desistir. (Fotografia Orlando Almeida / Global Imagens)

“É uma área de que se gosta ou não. Nem todos os enfermeiros se adaptam à exigência”

Fernanda Moreno é enfermeira há 33 anos. Sempre trabalhou no Hospital Curry Cabral. Em 1992, estava na Unidade de Transplantes e desde logo ficou ligada aos doentes transplantados. Neste tempo, trabalhou na Unidade de Cuidados Intensivos, tornou-se enfermeira especialista em reabilitação, chefia a unidade de ortopedia e regressou aos transplantes. Desde 2003 que é enfermeira-chefe. “Nunca imaginei que iria ficar mais de 16 anos num serviço, mas esta área é muito aliciante. Ou se gosta ou não. Se não se gosta, o melhor é sair, se se gosta começamos a apaixonar-nos pela dinâmica e vamos ficando. Eu continuo a gostar. É uma área muito imprevisível e onde se estabelece uma relação com o doente que não é possível noutras especialidades da medicina. Aqui conhecemos o doente pelo nome, agora já não é tão fácil, porque são mais de 2000, mas no início era assim”, conta.

Tudo porque os doentes entram aqui e são seguidos para o resto da vida. “Há duas situações em que os doentes deixam de ser seguidos por nós, ou porque termina a sua vida ou porque emigram ou moram longe e pedem para ser acompanhados num centro mais próximo”, explica a enfermeira-chefe. “Mesmo assim, ainda há muitos que vão para o estrangeiro e que vêm ter connosco.” Por isso, “é normal ouvir os doentes dizerem: “Esta é a sua segunda casa, ou que a equipa é a sua segunda família. Mantém connosco uma ligação umbilical muito forte, um pouco mais familiar, talvez com mais empatia do que noutros serviços, porque no fundo é uma ligação para a vida.”

Se o doente tem uma fratura, um tumor, diabetes, é ali que é acompanhado. Por isso, sublinha a enfermeira, a área dos transplantes exige muito de toda a equipa, quer de enfermeiros como de médicos. Fernanda Moreno diz mesmo que gosta da área por esta exigência e pela equipa multidisciplinar com que tem de se trabalhar. “Estes doentes requerem uma equipa multidisciplinar muito oleada.” Ou seja, “são precisas pessoas com várias competências, é preciso que seja um cirurgião bom a fazer o transplante, mas também é preciso que seja um médico bom a seguir o doente, é precisa uma equipa de enfermagem boa, que faça o pré-operatório, que dê apoio no internamento, e que faça o follow-up do doente em ambulatório. É preciso que haja psicólogos e endocrinologistas. Se não for um trabalho verdadeiramente de equipa, não se consegue ter êxito”.

Por isso, costuma dizer aos enfermeiros que chegam que têm muito a aprender, a reaprender e até a alterar. É uma área que está em constante desenvolvimento, “exige que estejamos sempre atualizados e que ganhemos muitas competências de várias áreas”. As características básicas para um enfermeiro desta área são iguais às de qualquer outra, mas nem todos se adaptam.

Neste momento a unidade tem 19 enfermeiros, só dois são homens. Seriam precisos mais para se apostar ainda mais, por exemplo, no trabalho ambulatório.

Neste momento, a unidade de transplantes tem 19 enfermeiros, mas seriam precisos mais quatro ou cinco para cobrir e assegurar o serviço todo, que vai desde o pré-operatório ao internamento, do apoio ao doente, para o tornar o mais possível autónomo para poder fazer uma vida normal quando regressar a casa, até trabalho no ambulatório, evitando que muitos deles tenham de ser internados, tão-só para levarem antibiótico ou receberem outro tratamento que pode ser feito em hospital de dia. “Neste momento, temos equipas infradimensionadas”, assume, dizendo que a administração sabe das necessidades da unidade.

Deste grupo de 19, só dois são homens, o que significa que, por vezes, é muito difícil gerir a unidade com enfermeiras de baixa por gravidez de risco ou por licença de parto. “Por exemplo, só agora estamos a receber substituições de duas enfermeiras que estão de baixa e de licença de parto, mas uma enfermeira nesta área não chega aqui e fica a saber tudo o que tem a fazer. Leva algum tempo a formar. E nem sempre é fácil funcionar nestas condições.”

Fernanda Moreno sabe que trabalha numa unidade que é considerada de excelência em termos internacionais. “É uma unidade que já ultrapassou há muito a sua curva de crescimento. Neste momento, está na sua curva de maturidade”, sustenta.

Por isso, tem preocupações, mas também projetos para o futuro. Do ponto de vista da enfermagem, “penso que é preciso apostar-se mais na formação. Quando vim chefiar a unidade, não se recebia estudantes das escolas de enfermagem. Considerei fazê-lo, porque quanto mais pessoas tiverem formação na área dos transplantes mais estes doentes podem ser acompanhados noutros serviços e em outras unidades. E as escolas já vão tendo essa preocupação, mas é preciso fazer mais”.

E, “enquanto considerar que sou uma mais-valia para a unidade e para os doentes, estarei aqui”.

Médica hepatologista, Helena Glória está naquela unidade apenas há dez anos. Foi um desafio grande, mas “as expectativas concretizaram-se”, confessou. (Fotografia Orlando Almeida / Global Imagens)

“Só aprendi a lidar com a morte quando vim para esta unidade”

Helena Gloria é médica hepatologista-gastroenterologista. Tem 57 anos e também mais de 30 de carreira. Não começou naquela unidade do Curry Cabral, ali só está há dez anos. Antes o seu trajeto foi no Hospital de Santa Maria, mas sempre se dedicou à hepatologia e a progressão normal seriam os transplantes.

“Foi um desafio. Tinha muitas expectativas em trabalhar nesta unidade e essas concretizaram-se.” Confessa também que escolheu uma área de “desafio constante. Não fazemos a mesma coisa todos os dias. Todos os dias nos aparecem doentes diferentes, que nos colocam situações novas, que nos obrigam a estudar mais, a debruçar-nos sobre o assunto, a discutir com os outros e a aprender com os outros, e com os nossos próprios erros”.

Helena Gloria diz que naquela unidade de transplantes encontrou um espírito de equipa que não encontrou noutros locais. Tanto que confessa que só aprendeu mesmo a lidar com a morte e com a perda de doentes depois de ali ter chegado. “Quando vim para cá não tinha tanto a sensibilidade que agora tenho.”

A médica reconhece que a situação a levou a um processo de aprendizagem, para o qual contribui muito o trabalho de equipa que ali se desenvolve. “Nunca estamos sozinhos nas decisões complicadas e isso é muito bom, porque o que prevalece é o trabalho de uma equipa multidisciplinar.”

Para a hepatologista, esta é também uma área da medicina onde se estabelece uma relação diferente com o doente. “A vida e a morte estão muito interligadas, mas é muito compensador quando tudo funciona bem. É muito compensador quando os doentes reagem e ficam completamente irreconhecíveis. É como se renascessem para a vida.”

Mas há um outro lado a destacar: “Na transplantação, lidamos com doentes que são muito gratos e isso, para nós, é uma recompensa, mas também uma motivação.”