BLACK FRIDAY: quando o impulso das compras se torna uma doença

Hoje é dia de Black Friday. A corrida desenfreada às lojas, os produtos a menos de metade do preço, a tentação de comprar tudo o que está à medida da nossa carteira. Mas este desejo pode transformar-se num transtorno que precisa de acompanhamento clínico. A psiquiatra Luísa Lagarto explica como este transtorno se manifesta.

Texto de Ana Patrícia Cardoso | Fotografia de iStock

A maioria das pessoas não sabe que existe um transtorno em relação a compras. Chama-se oniomania. Do que se trata?
É verdade que não se sabe muito, mas ele existe. Enquadra-se nas categorias de perturbações do controlo de impulso e do comportamento obsessivo. É uma ação repetitiva de compras que também inclui pensamentos intrusivos relacionados com esta atividade.

Estamos a falar de todo o tipo de compras?
Sim, sim, pode ser alastrado a tudo o que implique uma transação. Na prática clínica vemos mais vestuário, jóias e muitos objetos que são supérfluos. Caracteriza-se sobretudo por compras excessivas e constantes. Muitas vezes, dura anos até o problema ser diagnosticado.

Quando há perda de qualidade de vida devido a um comportamento repetitivo e quando tem a noção de que está a perder o controlo, são sinais de que é mais do que um gosto desenfreado.

Escreveu num artigo que a percentagem de mulheres com esta patologia é muito superior à dos homens (90 por cento). Por que é que isso acontece?
Não podemos assegurar que essa seja a percentagem exata, uma vez que as mulheres são as que procuram mais ajuda mas há, com certeza, muitos homens com este problema que nunca foram diagnosticados. De qualquer forma, podemos afirmar que há uma prevalência feminina e isso deve-se a vários fatores. Por exemplo, fatores biológicos, já que as mulheres têm mais tendência para traços obsessivos e de ansiedade, que estão muito associados à oniomania. Também há fatores sociais, como a pressão para nos vestirmos bem ou usarmos maquilhagem. As estratégias de marketing são construídas nesse sentido, também.

Qual é a diferença entre gostar de ler e comprar livros todas as semanas e uma perturbação deste tipo?
Um gosto não configura uma doença. O que temos de distinguir é se este comportamento acarreta um impacto a nível pessoal ou financeiro. Este sentimento traz angústia, sente que está a ultrapassar os seus limites? Quando há perda de qualidade de vida devido a um comportamento repetitivo e quando tem a noção que está a perder o controlo, são sinais de que é mais do que um gosto desenfreado. Um colecionador não tem necessariamente um transtorno. Agora, se deixou de comer ou ficou com a conta a zeros por causa do que comprou, talvez precise de ajuda.

Como se manifesta a nível neurológico?
É muito parecido com os comportamentos aditivos. Implica uma alteração no nosso sistema de recompensa, momento em que libertamos dopamina (hormona associada ao prazer). Quando temos uma atividade que nos dá satisfação, libertamos uma dose desta hormona e isso reforça o comportamento. Ou seja, tendemos a repetir aquilo que nos faz bem. Na oniomania, este mecanismo está «super ativado» mas, além disso, há um défice do controlo racional. Quando não existe esse défice, podemos gostar de uma coisa mas conseguimos perceber que não é o momento.

Para quem sofra de oniamania, estes dias de BLACK FRIDAY vêm expor a pessoa à tentação mais temida.

Disse que esta é uma perturbação que demora o seu tempo a ser diagnosticada. Em que momento é que as pessoas procuram ajuda?
As pessoas procuram-nos já em desespero. O processo é longo e é uma doença que vai ganhando contornos aos poucos. O pedido de ajuda chega quando há uma situação catastrófica, seja a nível financeiro ou pessoal.

Qual é o tratamento? Procurar a razão por detrás da compulsão?
O que acontece muitas vezes é que o doente não tem apenas uma compulsão por compras, tem uma depressão associada, tem ansiedade ou consumo elevado de substâncias. O álcool é muito comum. Faz-se uma avaliação pessoal para detetar se houve algum fator que causou a oniomania. O tratamento é dirigido primeiro aos sintomas que provocam angústia como a ansiedade ou a alteração do sono. Quando normalizamos esses sintomas, tratamos a situação em si, ou seja, com o recurso à psicoterapia, percebemos o porquê do impulso. Demora o seu tempo.

A Black Friday que acontece hoje pode ser uma oportunidade boa para comprarmos o que nos estava a faltar mas acaba por tornar-se um hino ao consumismo desenfreado. É perigoso para quem sofra deste transtorno, não é?
Sim, sem dúvida. Os fatores de risco são elevados. Para quem sofra de oniamania, estes dias vêm expor a pessoa à tentação mais temida.

O que se deve fazer nestes casos?
Pode haver coisas que precisamos realmente, isso também acontece, atenção. Quem ainda não esteja sob o efeito do tratamento dificilmente resistirá. Para quem está, os conselhos passam por evitar estas épocas ou fazê-lo com companhia, alguém que consiga frear o outro. Ou levar uma quantia exata de dinheiro e nada mais. Pode também fazer listas do que necessita de verdade. Estas são as estratégias mais usadas. No fundo, proibir a pessoa de ir, optar por esse caminho mais punitivo não é benéfico. Temos de encorajar as pessoas a fazer compras de forma saudável e não simplesmente a deixar de as fazer.